Editorial

Por: Maria Goreti Juvencio Sobrinho

Doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP, Docente e Coordenadora Geral do Centro de Interdisclipina de Pesquisa da Faculdade Cásper Líbero.

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Vol 12 Edição #2 – 2º semestre de 2012

A maioria dos trabalhos da edição 12.2 é uma amostra da produção científica dos docentes da Faculdade Cásper Líbero, que, em 2012, concluíram as suas pesquisas de mestrado e doutorado, e de docentes que desenvolveram os seus projetos nas linhas de pesquisa do Centro Interdisciplinar de Pesquisa – CIP e do programa de mestrado desta Instituição. Todavia, em consonância com o projeto editorial Communicare, de estimular o intercâmbio interinstitucional e ampliar o campo de reflexão da Comunicação, abordando temas e problemas das demais áreas do conhecimento, a presente edição é aberta com o artigo, “Marx e a épica”, de Ana Cotrim.
A autora recupera e analisa, com esmero, a célebre passagem na Contribuição à crítica da economia política – Introdução (de 1857) na qual o filósofo alemão aborda especificamente o gênero artístico, a épica, e, também, excertos literários e trechos esparsos na obra marxiana nos quais estão expressas as suas ideias estéticas. Cotrim explica as razões e a maneira como Marx dá a conhecer, entre outros, tanto as propriedades específicas da épica, por meio da análise do chão social que lhe deu origem, isto é, das condições materiais e sociais específicas oferecidas por uma determinada fase do desenvolvimento do homem, quanto o por que da arte antiga, que brotou na infância histórica do gênero humano, ter o poder de exercer sobre nós “um eterno encanto”. Não são poucas as inestimáveis questões elucidadas por essa agradável tematização, desde a importância que tem para Marx: o caráter perene do efeito artístico da épica (atributo este não apenas da arte grega, mas de toda grande arte); o processo de desenvolvimento histórico/social dos sentidos humanos (plataforma para produção e fruição artística), até o arremate que a autora faz (a partir da análise imanente dos excertos marxianos, assim como de passagens memoráveis da Odisseia e da Oresteia) do caráter antropomórfico da arte, que, por sua vez, permite compreender o processo de fruição artística como experiência de uma dada realidade. No caso das epopeias, explica a autora, “nossa sensibilidade e intimidade se mobilizam porque, por mais distante e estranho que seja o mundo que elas vivificam, nelas experimentamos a nós mesmos em nossa verdade natural (infância)”.
“Não se pode ser mais enciclopédico do que nós, jornalistas. Meio cientistas, meio literatos, meio artistas, meio políticos. E com essas quatro metades não chegamos a compor um inteiro” (F. Martini). Tal fragmento do segundo artigo desta edição não deixa de sintetizar o espírito dos problemas nele abordados por Thais Montenegro Chinellato.
Em “Entre o verbal e o não verbal – apontamentos sobre gêneros e seus cruzamentos”, resultado de pesquisa desenvolvida no âmbito do CIP1, a autora perscruta os caracteres determinantes de alguns gêneros jornalísticos, como a crônica, a reportagem, o artigo, o ensaio e as formas de gêneros não verbais, como o cartum, a charge e o fenômeno dos memes. Serve-se para tanto a autora de uma rica bibliografia, formada tanto por clássicos da literatura nacional e estrangeira, como Mário de Andrade, Antonio Candido e Bakhtin, como por teóricos da comunicação no Brasil. Acompanha o seu texto a íntegra de diversos gêneros jornalísticos, cuidadosamente selecionados pela autora, que, sem deixar de apontar o superficialismo, subjetivismo, frivolidade e desinformação, que marcam grande parte da produção jornalística, põe em relevo a presença de “hibridismos” e “subgêneros” na linguagem jornalística, o que dificulta o discernimento e uma classificação precisa dos textos. Dificuldade essa que teria a ver com o caráter “fronteiriço” do objeto de pesquisa em tela, isto é, “gêneros jornalísticos envolvem sutilezas de classificação, sobretudo quando se franqueiam ao cruzamento de características”, explica Montenegro.
O caráter fronteiriço do texto jornalístico também é abordado pela pesquisadora Daniela Osvald, em “Jornalismo digital em base de dados (JDBD) como texto da cultura”. A semiótica da cultura é a sua base conceitual para analisar as diversas interfaces do jornalismo na era digital. Trabalhando com conceitos como “semiosfera”, a autora enfatiza a necessidade de se pensar o jornalismo digital de base de dados (JDBD) como texto da cultura. O JDBD expressa uma pletora de novas técnicas e instrumentos de registro e circulação de informações, porém, o que é mesmo sublinhado pela autora é a dificuldade de definir e delimitar o texto jornalístico, que está, a rigor, explica Osvald, na “fronteira com outros textos, no sentido semiótico”, zona de “liminaridade”, “trânsito”, “fluidez”; todavia, destaca Osvald, a condição digital‟ do texto jornalístico na atualidade é uma possibilidade de delimitação estrutural”. É aí que desponta, sugere a pesquisadora, um manancial de diferentes “narrativas” e também mais uma razão para se repensar os postulados tradicionais do jornalismo.
Também tratando da nova pletora de recursos tecnológicos, a exemplo dos novos aplicativos disponíveis em aparelhos de celular, smartphones e internet, assim como das possibilidades de exploração jornalística da convergência e interação entre as diferentes mídias, vem a seguir o artigo “Relatos de experiências de jornalismo hiperlocal”, de Magaly Prado, que é obstinadamente infensa aos limites do radiojornalismo tradicional. A pesquisadora docente traz para o primeiro plano de seu texto um conjunto de experiências levadas a cabo por alunos da Faculdade Cásper Líbero e da USP, entre outras, que demonstraram, na prática, as diversas possibilidades de inovação do radiojornalismo. Os resultados de sua tese de doutorado, ora apresentados, são fundamentalmente propositivos para a construção de um novo formato radiofônico,
“mais apropriado com os tempos cibernéticos”, argumenta Prado.
Do campo do chamado jornalismo especializado ou segmentado, vem a seguir o artigo “Gastronomídia: os ambientes midiáticos e as linguagens da comida e da cozinha”, resultado da tese de doutorado da pesquisadora Helena Jacob. Uma das referências teóricas desse trabalho também reside na semiótica da cultura, de origem russa (Iúri Lótman), que oferece, segundo a autora, o suporte conceitual para entender a evolução da gastronomídia, que passa por outras linguagens da cultura, como a comunicação do alimento, a comunicação da culinária e da gastronomia, e “se rearranja simbolicamente em mídia própria, ou seja, que se comunica e se espetaculariza”. Ainda segundo Jacob, a espetacularização da comida é atestada por “uma explosão midiática da comida e, principalmente, das imagens da comida” o que não significa, ressalva, que tenha crescido “a importância da alimentação” Poderíamos acrescentar, sem pretender tirar o apetite alheio, que essa explosão midiática da comida (como de resto se assiste no mundo reluzente das mercadorias) também não foi acompanhada pelo crescimento da importância daqueles que não a possuem.
O artigo “Corpo, consumo e espetáculo: mídia e comportamento de crianças e adolescentes nos textos de Rosely Sayão” é assinado pela docente Tatiana Ferraz, que desenvolveu na linha de pesquisa “Produtos midiáticos: Jornalismo e Entretenimento”, do programa de mestrado em comunicação da Faculdade Cásper Líbero, o seu projeto de mestrado. A autora teve como mote os artigos da psicóloga Sayão, publicados no jornal Folha de S.Paulo, sobre educação e comportamento. Discorrendo sobre problemas ligados a consumismo, à relação pais e filhos, ao entretenimento e à influência da mídia e das redes sociais na educação e comportamento dos jovens, Ferraz procura articular algumas aquisições dos teóricos da comunicação (como Canclini, Naomi Kleim e Guy Debord) com os temas semanalmente apresentados pela terapeuta Sayão, e, também, chamar especial atenção para a responsabilidade inalienável dos pais pela educação de seus filhos.
A questão da relação entre comunicação e educação também está presente no artigo que fecha a presente edição, “Comunicação, linguagem e educação desde Nietzsche: para uma educação interdisciplinar/perspectivista”, de Mauro Araújo de Souza, que considera que o “perpectivismo” e o “procedimento genealógico” da filosofia nietzscheana podem auxiliar numa “reflexão entre comunicação, linguagem e educação”. O intuito do autor é “mostrar no perspectivismo de Nietzsche onde se localizam os pontos para uma critica eficaz aos valores morais estabelecidos e a efetivação de uma educação para a vida”.
Com esta edição especial a Communicare completa o ciclo iniciado com a publicação do biênio 2010-2011 de pesquisas do Centro Interdisciplinar de Pesquisa – CIP, que reafirma o seu compromisso em preservar os espaços e os instrumentos necessários para a constante qualificação dos docentes, meio incontornável, como temos reiterado, para a promoção da excelência acadêmica nos cursos de Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Rádio e TV desta Instituição.
Agradecemos a todos que colaboraram com a presente edição e aproveitamos para convidar o leitor a participar da próxima, que terá um dossiê sobre as manifestações sociais de junho de 2013 e os meios de comunicação no Brasil.