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02/09/2026
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É imprescindível diferenciar o exercício profissional da mera produção de conteúdo.

Sempre me despertou curiosidade a marca de cosméticos “Contém 1G”. Simples curiosidade. Nunca comprei um presente para ninguém dessa marca, que eu me lembre. Mas ela me vem à mente quando penso no quadro atual de minha profissão.

Talvez seja necessário assinar com a variação “Contém 1 (ou mais) J” o conteúdo produzido por jornalistas profissionais. Atacado e vilipendiado por extremistas ideológicos das duas pontas, o Jornalismo profissional resiste ao bombardeio. Embora não passe incólume.

Uma adaptação digitalizada do lema “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, de Gláuber Rocha, invadiu as telas de celulares pelo mundo. Sob o mantra da liberdade de expressão, qualquer um se arvora o direito de ser jornalista. Muitas vezes sob a introdução provocativa “isso a imprensa não mostra”.

Goste-se ou não das faculdades, ao desobrigar o instituto do diploma para o exercício profissional do Jornalismo, o Supremo Tribunal Federal escancarou o caminho para algo que só entendeu ser nocivo quando bateu à sua porta. Afinal, quem é jornalista e quem faz Jornalismo?

Para pensar com calma. A parteira traz a criança ao mundo, mas não é obstetra. Há empresas muitíssimo bem administradas por gestores que não estudaram Administração. Arquitetos cujo nome aparece em projetos para os quais eles não se capacitaram no mundo acadêmico. Conheci e conheço grandes jornalistas que não fizeram faculdade de Jornalismo e péssimos que fizeram – e vice-versa.

Conteúdo é muito diferente de conteúdo jornalístico. Ao juntar tudo no mesmo balaio digital, quem se favorece é a dúvida. Porque esse é o objetivo de quem produz para confundir e não para explicar, com o perdão do uso editado da frase do Velho Guerreiro Chacrinha.

O Jornalismo profissional pressupõe conteúdo checado, produzido dentro dos limites da ética e da responsabilidade, com evidente diferenciação entre informação e opinião.

Não eximo o próprio Jornalismo profissional de responsabilidade por seu momento difícil. Afinal, ao misturar o que não se deve, ele deu a munição necessária a seus adversários.

A melhora e atualização do ensino de Jornalismo, sua adequação às plataformas, sem jamais fugir dos princípios éticos e responsáveis, é a missão da boa cátedra em nossa área.

A busca incessante por “likes”, “baits” e viralizações transformou a batalha pela boa manchete, pela pauta criativa e a reportagem exclusiva, pelas opiniões divergentes expostas democraticamente.

Urge que o Jornalismo profissional seja mais analógico em tempos digitais. O cuidado com o vernáculo, o culto à checagem e à boa edição, a responsabilidade e o dever de saber, também, o que não deve ser dito, postado e publicado.

Milito há tempos na cobertura esportiva. Muitas vezes considerada produto de segunda linha dentro das redações. Embora nada mais seja que prática de Jornalismo. Cobre um assunto que gera interesse e precisa de informação de boa qualidade para quem se interessa.

Nos dias atuais, há momentos em que fica difícil distinguir um texto jornalístico de um panfleto de torcida. Jornalismo de nicho não é novidade. Publicações dirigidas sempre existiram. Triste é ver colegas capacitados se digladiando em postagens movidas ao sentimento de arquibancada. O clique é sedutor. Resistir é Jornalismo.

Talvez a chave para a solução do problema seja colocar o produto à frente da ferramenta. O conteúdo adiante da plataforma. Durante um bom tempo, o Jornalismo se rendeu à pauta algorítmica do SEO (Search Engine Optimization, Otimização para Mecanismos de Busca). Deixou de lado o faro jornalístico e aceitou as ordens de computadores e sequências de comandos baseadas em dados abastecidos por alguém no comando ou sob as ordens do próprio algoritmo.

Identifico a data-base desse modo de se desfazer o Jornalismo naquela famosa baliza realizada por Caetano Veloso em 2011. O ato banal de estacionar o carro virou “notícia” e antecipou uma era em que o tal do conteúdo sobrepujou o jornalístico.

Nosso ofício é uma missão. Não é enfeite a denominação de Comunicação Social. Longe de ser perfeito – quando feito por seres humanos -, o Jornalismo é pedra fundamental da democracia. Não pode viver à margem de seu tempo e das atualizações. Porém, ceder ao canto fácil da sereia digitalizada é abrir mão da missão. A cisma entre conteúdo e conteúdo jornalístico é a batalha da qual o bom Jornalismo não pode fugir.

Esse texto foi pensado e produzido por um ser impresso em carbono.

Contém 1J formado e diplomado, com orgulho, na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, turma de 1989.