Charles Baudelaire no seu célebre ensaio de 1863, O Pintor da Vida Moderna, apresenta um conceito seminal para o pensamento urbanístico, o flâneur. Ele o define como o “observador apaixonado” da vida urbana, o indivíduo que faz da multidão o seu habitat natural e da cidade a sua paisagem de exploração. Nas palavras de Baudelaire, é ele, o flâneur, que nos aponta os atributos da modernidade: a multidão, o movimento, a efemeridade e a metrópole.
A multidão é seu domínio, como o ar é do pássaro, como água, o do peixe. Sua paixão e sua profissão consistem em esposar a multidão. Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, constitui um grande prazer fixar domicilio no número, no inconstante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa e, no entanto, sentir-se em casa em toda parte; ver o mundo, estar no centro do mundo e continuar escondido do mundo, esses são alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes… (BAUDELAIRE. 2010)
E é atuando como um verdadeiro flâneur que podemos fazer da cidade, do espaço urbano, uma verdadeira sala de aula; não no sentido daquele que contempla e passa pelas coisas, mas sim daquele que caminha, observa, frui, reflete e guarda, sobretudo na memória, algo ou alguma coisa que a cidade nos apresenta e modifica nossa maneira de ver o mundo.
Os praticantes comuns desta arte da cidade vivem “lá embaixo”, abaixo do limiar onde começa a visibilidade. Eles caminham- uma forma elementar dessa experiência de cidade; são caminhantes. Flâneurs, cujos corpos seguem o cheio e vazio de um “texto” urbano que eles escrevem sem poder lê-lo. Eles usam espaços que não podem ser vistos, seu conhecimento deles é tão cego quanto de amantes nos braços um do outro. Os caminhos que correspondem a estes poemas entrelaçados e não reconhecidos, onde cada corpo é um elemento assinado por muitos outros, escapam a legibilidade. É como se as práticas que organizam uma cidade efervescente fossem caracterizadas por sua cegueira. (CUTHBERT. 2021)
Este pequeno artigo serve como um breve guia para as aulas que as cidades oferecem. Os recortes que podemos fazer são variados, seguindo o gosto ou os estímulos despertados, podendo ser de caráter histórico, artístico, arquitetônico, urbanístico, social, político, antropológico, filosófico, econômico, entre outros, enfim.
Vamos começar por aquilo que os guias de turismo e turismólogos chamam de City-tour.
O city-tour é aquele passeio turístico panorâmico pelos pontos principais de uma cidade. Geralmente se inicia no chamado marco zero, o ponto de origem da cidade. Aqui temos nossa primeira aula, de história, buscando, neste local, observar onde tudo começou. Neste ponto é onde encontramos os principais monumentos, as esculturas de personagens da história local, os edifícios históricos, que marcam uma arquitetura oficial, religiosa, civil, etc. Em muitas cidades brasileiras, este marco zero geralmente está situado em uma praça, um largo, um espaço público amplo e aberto. É o lugar onde encontramos as igrejas, os edifícios institucionais, as casas de câmara e cadeia, os mercados, os coretos, os lugares públicos que carregam a memória coletiva do lugar. Em cidades litorâneas é comum encontramos um forte, monumento de defesa do território.
Nossa aula se desdobra agora na arquitetura, nos estilos que podemos encontrar, entre o colonial, eclético e moderno. Podemos identificá-los tanto nas fachadas, como nos volumes que se abrem e desdobram nos lotes. O desenho das fachadas é acompanhado de platibandas, de formatos de janelas e portas que delineiam os estilos, os matérias utilizados, uma aula que contempla também os sistemas construtivos que marcaram as épocas, as técnicas e os materiais disponíveis para construção. Da taipa de pilão, das pedras, aos tijolos e atualmente o concreto.
Deste ponto central podemos observar o traçado urbano, as ruas que convergem para ele e por onde e como a cidade se expandiu. As larguras delas, sua infraestrutura de escoamento das águas, calçamento, geometria, entre outras lições de geografia e urbanismo.
Monumentos que indicam o sistema de abastecimento de água, dos aquedutos às grandes caixas d’água, chafarizes e fontes, tudo é marca e sinal dos tempos.
Em muitas cidades são visíveis, nas ruas centrais, a presença de trilhos de bonde ou ainda, outros elementos que nos permitem pensar como e com que meios se circulava pela cidade, os meios de transporte que ainda permanecem.
Os espaços urbanos propiciam também uma leitura socioeconômica do lugar, pela circulação das pessoas, das atividades econômicas que permeiam os edifícios em torno, o comércio de rua, sua culinária popular. Muitas são cidades são reconhecidas por aquilo que oferece ao paladar e ao olfato. A culinária de rua é uma marca emblemática das cidades, os variados quitutes, como encontrados nas cidades brasileiras, por exemplo, dos salgados como pastéis, bolinhos, acarajés, aos bolos e doces, como cocadas, churros entre outros.
Partindo para flanar pelas ruas da cidade, nossa aula passa a ser mais ampla. Segundo a leitura que Willi Bolle faz do livro Contramão, de Walter Benjamin, temos uma ideia da cidade como escrita e nossa aula ganha, deste modo, contornos literários.
Benjamin escreve pensando na metrópole moderna, no entanto, suas observações servem, em certa medida, para toda e qualquer cidade.
Trata-se de uma representação da metrópole moderna, assim como ela se ergue diariamente diante de seus habitantes: uma imensa aglomeração de textos: placas de trânsito, outdoors, sinais, letreiros, tabuletas, informações, anúncios, cartazes, folhetos, manchetes, luminosos- uma gigantesca constelação de escrita. (BOLLE. 2000)
Neste aspecto, para os estudantes de comunicação, sobretudo do campo da publicidade e da propaganda, a lição fica mais rica, sobretudo em função dos dispositivos e meios de difusão e propagação de marcas e produtos locais. A publicidade e propaganda em pequenas cidades apresentam características muito distintas dos grandes centros urbanos. Nessas localidades, o mercado publicitário tem uma dinâmica própria, muitas vezes moldado por relações interpessoais, pela força do “boca a boca” e pela relevância de veículos de comunicação locais.
Nas grandes metrópoles o mobiliário urbano ganha em complexidade, com os diferentes desenhos dos abrigos de ônibus, das estações de metrô, dos totens urbanos como relógios públicos, outdoors, placas de ruas, entre outros elementos que nos auxiliam a transitar pela cidade.
São muitos os elementos que conformam a imagem de uma cidade. Se a sua estrutura física facilita a circulação dos pedestres, observando a largura dos passeios, seu calçamento, sua arborização, os diferentes níveis, se criam obstáculos ou perigo para as pessoas. A cidade é saudável, acolhedora, sustentável, democrática? São tantas os adjetivos que definem a imagem de uma cidade quando analisamos seus elementos. Segundo Jan Gehl, arquiteto e urbanista dinamarquês:
Uma característica comum de quase todas as cidades- independentemente da localização, da economia e grau de desenvolvimento- é que as pessoas que ainda utilizam o espaço da cidade, em grande número são cada vez mais maltratadas. Espaço limitado, obstáculos, ruído, poluição, risco de acidentes e condições geralmente vergonhosas são comuns para os habitantes, na maioria das cidades do mundo. (GEHL. 2013)
As residências em torno das ruas definem estilos arquitetônicos e estilos de vida. A presença de muros, grades, ou jardins nos permite refletir sobre a segurança pública, posição social, relações de vizinhança.
As cidades revelam também, na sua estrutura, as marcas da desigualdade social. Estampadas nas casas, nos bairros mais afastados de um ponto central, pois os pobres habitam os pontos mais “baratos”, distantes dos centros. Os tipos de serviço oferecidos pelas pessoas nas ruas, ou ainda a mendicância, muito comum, são pontos importantes para reflexão, que as cidades proporcionam para aqueles que anseiam por uma sociedade mais justa.
Estamos tratando dos aspectos físicos das cidades, do meio ambiente construído, mas não podemos perder de vista, que nossa sala de aula, que é cidade, tem outros pontos de interesse, de investigação e análise. A paisagem, no sentido do meio ambiente natural, propicia uma observação mais criteriosa da fauna e da flora local. O canto dos pássaros, sua revoada em determinados pontos e horários. Os bichos e seus costumes, os urbanos e os que surgem dos seus territórios e circulam entre a população.
Os parques são locais privilegiados para esse exercício contemplativo e cognitivo. As plantas, as árvores, as folhagens, as flores, uma explosão de formas, cores, tons e cheiros proporcionam experiências que extrapolem os estímulos visuais, ganhando uma amplitude que faz destas localidades uma aula estimulante e prazerosa em todos os sentidos.
Em muitas cidades, as margens dos rios são outros pontos de interesse e de fruição, na medida em que são tratadas do ponto de vista urbanístico, com uma boa infraestrutura. Geralmente são pontos de atração de cidades pequenas, com comércio gastronômico e de entretenimento natural, como passeios de barcos, entre outros formas de aproveitamento do local.
As imagens que as cidades oferecem são sempre plurais e diversas. São muitos os pontos que nos convidam a explorar e montar novas imagens. Segundo Kevin Lynch:
Precisamos de um meio ambiente que não seja simplesmente bem organizado, mas também poético e simbólico. Deveria falar dos indivíduos e da sua sociedade complicada, das suas aspirações e tradições históricas, do conjunto natural e das funções e movimentos complicados do mundo citadino. (LYNCH. 2011)
Nosso pequeno guia acaba aqui. E que ele sirva de incentivo e base inicial para que as próximas viagens pelas cidades brasileiras e de outros países se transformem também em experiências significativas, num exercício reflexivo sobre a organização do espaço. Neste eterno processo de aprendizagem que atravessamos na vida, tudo pode virar uma sala de aula.
Livros citados:
BAUDELAIRE, Charles. O pintor da vida moderna. Belo Horizonte: Autêntica, 2010.
BOLLE, Willi. Fisiognomia da metrópole moderna: representação da história em Walter Benjamin. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 2000 .
CUTHBERT, Alexander R. Compreendendo as cidades: método em projeto urbano. São Paulo: Perspectiva, 2021.
GEHL, Jan. Cidades para pessoas. São Paulo: Perspectiva, 2013.
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. 3ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.