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Home Pesquisar não é investigar a comunicação hoje; é construir seu futuro
28/09/2026
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O campo da comunicação está atravessando mudanças muito céleres: inteligência artificial generativa, algoritmos, desinformação, economia da atenção, novas linguagens, experiências imersivas, transformações no jornalismo, publicidade, audiovisual e relações públicas.  

Diante de tantas reconfigurações que se convertem em sentidos práticos e demandas por reflexão para profissionais e pesquisadores, a formação universitária não pode apenas ensinar ferramentas disponíveis para exercer a profissão; precisa formar profissionais capazes de formular boas perguntas diante dos fenômenos que ainda estão se transformando e que, portanto, ainda não se manifestam por completo, não permitindo também que pensemos em “soluções” completas enquanto eles acontecem. 

Como cientista e pessoa apaixonada pela ciência (e professora que, além de coordenar o CIP, leciona disciplinas relacionadas à pesquisa aqui na Cásper), eu percebo que a atividade científica é muitas vezes vista pelos próprios alunos como uma prática distante da graduação ou destinada apenas a quem pretende seguir carreira acadêmica.  

Mas pesquisar é aprender a perguntar, investigar, comparar fontes, construir hipóteses, trabalhar metodologicamente e de forma sistemática, interpretar evidências, sustentar perguntas no tempo e construir argumentos. Todas estas são competências acadêmicas, que a atividade de pesquisa pode apoiar a desenvolver, mas que podem incrementar qualquer atividade profissional.  

Quando afirmo que ao pesquisar, estamos construindo o futuro da comunicação e não apenas o investigando, quero dizer que a iniciação científica (a pesquisa que fazemos na graduação) é também uma experiência de autoria. E autoria não apenas de textos acadêmicos sobre o mundo, mas autoria de mundo, de futuro. Quem faz pesquisa e pensa a realidade, quem investiga e observa a realidade, está ajudando a construir esta realidade.  

Percebo a diferença entre o estudante que “recebe conhecimento” e aquele que é autor de sua produção. A pesquisa e a iniciação científica oferecem a possibilidade de escolher problemas, construir perguntas, investigar e chegar a resultados que não estavam dados previamente. Neste processo, é muito bonito testemunhar o estudante deixando de ser alguém que busca se alimentar de conhecimento e passando a ocupar a posição de pesquisador(a). 

Na Cásper, o CIP é o espaço em que essa experiência acontece. Criado em 2000, ele tem como objetivo estimular, fomentar e divulgar a pesquisa acadêmica na Cásper. Já apoiou mais de 350 projetos e mantém bolsas para pesquisas docentes e de iniciação científica nos quatro cursos (Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Audiovisual e Relações Públicas). 

Para nós, a pesquisa não é uma atividade paralela ao ensino. Aqui, integramos o conhecimento teórico e prático, ampliamos a experiência acadêmica e preparamos os estudantes para transformações profissionais e sociais. 

Nosso desafio atual é organizar a pesquisa em comunicação enquanto o próprio campo muda rapidamente. Para dar conta desta missão, estruturamos o centro baseado em Núcleos de Investigação conectados às tendências e desafios contemporâneos da comunicação. 

Os NIs funcionam como territórios de investigação: aproximam docentes, estudantes, questões emergentes e possibilidades de experimentação. Por isso, a inovação do CIP não está apenas nos temas escolhidos, mas na possibilidade de criar comunidades de pesquisa em torno de problemas contemporâneos. 

O NI1 (Comunicação e Inteligência Artificial) aborda IA generativa, algoritmos de recomendação, automação, autoria, economia da atenção e ética algorítmica, para refletir sobre a IA na comunicação e na formação em comunicação. O NI2 (Comunicação e Sustentabilidade) articula comunicação, território, meio ambiente, mudanças climáticas, saúde mental, desinformação, infoxicação e ambientes comunicacionais saudáveis. A sustentabilidade é entendida em dimensões ambientais, sociais, culturais e subjetivas. O NI3 (Estéticas Emergentes e Narrativas do Futuro) atua com a pesquisa como espaço de experimentação estética, abordando linguagens híbridas, storytelling imersivo e inteligência sensorial. Vale reforçar: não se trata apenas de experimentar tecnologias: investigamos seus efeitos sobre narrativas, subjetividades, memória, identidades e relações de poder. 

Os três núcleos atravessam os quatro cursos da Cásper. IA, sustentabilidade ou narrativas imersivas não pertencem exclusivamente ao jornalismo, à publicidade, às relações públicas ou ao audiovisual. Os problemas contemporâneos da comunicação exigem atravessamentos entre campos, linguagens e práticas profissionais. E é assim que estamos nos debruçando sobre eles. 

Os NIs são a forma pela qual conseguimos endereçar com coerência e robustez o desafio de que inovar não é simplesmente adotar a tecnologia mais moderna. Na universidade, inovação significa compreender criticamente uma transformação, formular novas perguntas, testar possibilidades e imaginar respostas para problemas que ainda estão em formação.  

Em vez de preparar o aluno para o mercado tal como ele existe hoje, preparamos alunos para pensar e construir o mercado como ele será amanhã. A pesquisa coloca o estudante diante de questões como: Que comunicação estamos produzindo? Que efeitos ela provoca? Que tecnologias queremos incorporar? Que práticas precisam ser transformadas? Que futuros queremos construir? 

E quando converso com os alunos que estão chegando, é muito comum eles pensarem que a pesquisa começa no projeto e termina no relatório. Mas não é bem assim. O CIP mantém iniciativas de divulgação científica, como publicações, eventos e o podcast PesquisAr, realizado em parceria com a Rádio Gazeta Online, no qual pesquisadores apresentam seus estudos e discutem suas contribuições para o futuro da comunicação. Produzir ciência é também fazê-la circular e estar ao alcance de mais pessoas. 

Diante de um campo profissional marcado por transformações aceleradas e incertezas, talvez uma das competências mais importantes que uma faculdade possa oferecer seja a de ensinar seus estudantes a serem capazes de investigar e construir estratégias para atuar em um cenário que ainda não tem resposta pronta.