Turquia: o que acontece por lá?

Por: Ingrid Matuoka, do 3º ano de jornalismo. Crédito das imagens: Yuri Andreoli

Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia e jornalistas vieram à Cásper Líbero discutir a cultura e política turca, com foco nos desdobramentos pós 17 de dezembro de 2013

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9º ciclo de palestras – Experiências na Turquia

A Cásper Líbero sediou, na noite de 9 de abril, o 9º ciclo de palestras – Experiências na Turquia: a Turquia pós 17 de dezembro de 2013, com o Presidente do Centro Cultural Brasil-Turquia, Mustafa Göktepe, e os jornalistas Kamil Ergin, Luciana Constantino e Fabíola Ortiz. Eles discutiram a situação dos refugiados e o jornalismo e a política contemporânea na Turquia, com mediação da professora Cilene Victor, coordenadora do Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Faculdade, e do professor Roberto Chiachiri, vice-diretor da instituição.

Göktepe explicou que, após 17 de dezembro de 2013, o governo iniciou perseguição contra policiais e procuradores, censura à imprensa e bloqueou as redes sociais YouTube e Twitter. “A data é vista como um marco de mudança da Turquia democrática e liberal, que mostrava um desempenho admirável para se integrar à União Europeia, para um país autoritário”. A repressão decorreu da revelação de esquemas de corrupção envolvendo os filhos dos ministros do Interior e da Economia, que foram acusados de fraude e lavagem de dinheiro em transações com o Irã. O que agravou a situação também foi a proximidade dos ministros a Erdogan, o então primeiro-ministro e atual presidente.

Kamil Ergin, correspondente do Zaman, jornal de maior circulação na Turquia, convidou as jornalistas Luciana e Fabíola para a missão de explicar o que acontecia dentro do país para a comunidade internacional. Eles ficaram na Turquia na semana de 17 de dezembro conversando com jornalistas de oposição ao governo em Istambul e visitando os campos de refugiados na fronteira com a Síria, que abriga dois milhões de pessoas fugindo da guerra e da perseguição política. “Elas foram as primeiras jornalistas brasileiras a descobrir boa parte da Turquia, o resto do país está esperando vocês descobrirem”, segundo Ergin.

A impressão das jornalistas

Prof. Antonio Roberto Chiachiri e Luciana Constantino

Prof. Antonio Roberto Chiachiri e Luciana Constantino

Luciana, Editora Executiva do jornal O Estado de S. Paulo, contou que quando elas chegaram ao país, diversos jornalistas haviam sido presos por exercer sua profissão, publicando matérias contrárias ao governo. O Estado tem exercido pressão econômica, bloqueio de acesso à informação para controlar vozes dissonantes, o que tem causado outro efeito percebido por Luciana: “os jornalistas têm uma autocensura, estão com medo de apurar e de investigar”.

Mas todo esse cerco tem sido silencioso: “para a comunidade internacional, o governo não está cerceando a liberdade de expressão, eles não podem deixar isso transparecer, tem que parecer que a democracia não está sob risco lá, mas há dois dias bloquearam as redes sociais novamente e só conseguiram o desbloqueio após denúncia para o exterior. E além de jornalistas, ativistas e estudantes também têm sido presos”, explicou a editora.

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A jornalista Fabíola Ortiz

Fabíola, jornalista autônoma, afirmou que a liberdade de imprensa está por um triz na Turquia e que soube que os poucos jornalistas independentes do país estão presos. “Tem certas nuances que a gente só percebe estando lá, vendo os bombardeios, sentindo cheiros, abraçando as pessoas”. A jornalista também sentiu que, por ser mulher, as crianças e as esposas se sentiam mais confortáveis em dividir suas histórias: “consegui me aproximar mais e não deixar que só os homens falassem”.

Enquanto estavam na Turquia, elas não publicaram textos, por orientação de Kamil. De volta ao Brasil, estavam livres para contar o que apuraram, mas afirmaram que têm receio em retornar lá e sofrer algum tipo de retaliação. “Acho que deve ser mais hostil para correspondentes com base lá, principalmente uma dificuldade de acesso à informação”, comentou Fabíola.

Os refugiados

Luciana elucidou que, por diretrizes governamentais e para tentar fazer parte da União Europeia, o país procura se posicionar politicamente na região como uma liderança por estar em um local cercado de conflito e, ainda assim, não ter uma guerra civil ou contra vizinhos. Também por manter as fronteiras abertas para refugiados, mostrando para a Europa que é um país que promove o diálogo e recebe vizinhos. Segundo a jornalista, em cerca de três ou quatro anos, foram investidos cinco bilhões de dólares para manter os acampamentos de refugiados, que têm escola completa, faculdade e hospitais, já que os abrigados ali não podem sair do acampamento e nem trabalhar por serem convidados do governo.

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Kamil Ergin, Mustafa Göktepe e a profa. Cilene Victor

“A visita ao campo foi bonita, alegra, vi crianças comendo, indo à escola. Fiquei surpresa positivamente, apesar de suas histórias de vida dramáticas”, avaliou Fabíola. Para ela, um dos maiores desafios ao entrevistá-los foi entender quem está fugindo do que e de apreender a realidade das famílias que lá vivem.

Elas contaram que 230 mil sírios de fala árabe ou curda estão acolhidos em acampamentos de tenda ou contêineres. Os demais estão espalhados em áreas periféricas do país, recebendo doações, ajudas não-governamentais e empregados em trabalhos informais. Eles estão autorizados a ficar na Turquia enquanto houver guerra em seu país.

Brasil-Turquia

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Prof. Carlos Costa, diretor da Cásper Líbero

Além de diversas trocas com centros culturais e universidades brasileiras, o Centro Cultural Brasil-Turquia, como explica Göktepe, tem a missão de melhorar a percepção cultural dos turcos sobre o Brasil e vice-versa. Ele contou que com a exibição da novela da TV Globo, Salve Jorge, situada na Turquia, o número de turistas brasileiros no país dobrou. Por enquanto, apenas dois mil turcos visitam o Brasil anualmente.

Comparando a situação do jornalismo nos dois países, Luciana disse que lá há uma pressão que beira a ditadura, enquanto aqui as formas de pressão são diferentes: “Nossa democracia é relativamente jovem e ainda engatinha em algumas coisas, mas temos liberdade de expressão e, recentemente, tivemos um ganho importante, que foi a Lei de Acesso à Informação. O que há aqui, principalmente em outros estados que não São Paulo, é o tráfico ameaçando jornalistas, a violência, mas não o Estado, isso já foi vencido e espero que a gente consiga manter”.

Ao final do evento, o professor e diretor da Faculdade, Carlos Roberto da Costa recebeu uma homenagem do Centro Cultural Brasil-Turquia pela parceria.