O final feliz de Agnès Varda

Por: Carol Mansour

Acaso, subjetividade e evanescência andam de mãos dadas em Varda, por Agnès. Inicialmente criado para uma minissérie documental, para depois ser exibida na televisão, o documentário ganha as telonas e nos coloca frente a frente com a veterana artista do cinema francês mundial, Agnès Varda. Pouco depois de completar 90 anos, ela encerra sua existência com um gran finale –  escrito, dirigido e protagonizado por ela.

Nas quase duas horas de filme, Agnès revê, com carisma de sobra, toda sua trajetória de amor pelo cinema e o modo de fazê-lo, humanizando sua própria imagem: a diretora entra em cena e se aproxima do público, no aconchego e na simplicidade da história que envolve – como aquela narrada pela vovó. Seu foco se ajusta à contemporaneidade: Varda expõe seu olhar feminino – e feminista – sobre a vida e a realidade, a paixão pelo trabalho, as pessoas, o acaso, a natureza. Uma aula sobre a sétima arte compartilhada com humor, carinho, honestidade e crédito – em plena liquidez do século 21.

Em seus instantes finais, Varda, por Agnès evanesce na tempestade de areia como um último sopro de vida, mas perpetuando algo que resiste à violência e ao esquecimento das areias do tempo: sua poética toda própria, que fez de suas mais de seis décadas de carreira um legado de primeira grandeza.