O mito da alma gêmea

Por: Rafael Dall’Anese

Em meio à enxurrada de distopias que surgiram nos últimos tempos, O lagosta foge da fórmula que tem feito sucesso. Sem priorizar as cenas de ação, a obra do diretor grego Yorgos Lanthimos está centrada em diálogos subjetivos e personagens com emoções mecânicas. Tudo isso ajuda a compor o ambiente pretendido por Lanthimos.

Como uma boa narrativa distópica, o filme intensifica uma particularidade social específica a ponto de torná-la caricata. No caso, os relacionamentos. A sociedade retratada no longa força seus indivíduos a encontrarem o par ideal. É proibido ser solteiro. A história se desenvolve lentamente, mostrando cada detalhe do habitat local. A lentidão é proposital e auxilia no humor ácido que beira o absurdo e o politicamente incorreto.

A obra faz uma crítica a velocidade e a forma como os relacionamentos são construídos. Como seria possível criar laços entre duas pessoas em pouco tempo? Mesmo assim, pela lei, os solteiros são obrigados a achar um companheiro em 45 dias. Isso torna as relações artificiais e faz com que sejam priorizados atributos superficiais em vez da troca de experiências – o que fica claro pelos diálogos e pela interação entre personagens.

Além disso, as relações entre os personagens são baseadas em características específicas, e não na construção de sintonia entre os indivíduos. Dessa maneira Lanthimos acaba por espelhar os nossos próprios relacionamentos modernos, que são construídos a partir de certas afinidades e do mito da alma gêmea.