
Debate abordou conceitos acerca da representação do negro.
Crédito: Vitor Leite
A terça-feira (1º de outubro) trouxe para a 21ª Semana de Jornalismo na Cásper Líbero uma questão silenciosa que pede barulho. Discussão isolada por alguns, porém bastante presente para outros, e que aborda, sobretudo, o retrato da mulher negra na sociedade em que vivemos.
O debate Mulher Negra na Mídia foi uma das quatro mesas organizadas pela Frente Feminista Casperiana Lisandra (FFCL) em parceria com o Centro Acadêmico Vladimir Herzog para esta Semana de Jornalismo.
A mesa contou com a participação de Charô Nunes, que escreve para o Blogueiras Negras; Juliana Gonçalves, jornalista que faz parte da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira); e Fernanda Alcântara, editora chefe da revista Raça Brasil. Como mediadora da mesa foi convidada a professora de História Geral, Juliana Serzedello. Para representar a FFCL, a aluna do 3º ano de Jornalismo Graziela Massonetto.
Apresentando a forma como o homem e a mulher negros são retratados pela mídia desde a década de 1930, Charô Nunes introduziu o tema com o conceito de “Black Face”. De acordo com a escritora, a imagem do negro sempre foi vítima da potencialização de estereótipos estabelecidos em cada época. Dessa forma, se na década de 30 o homem e a mulher negros eram animalizados, na década de 70 passaram a representar o malandro e a sexualmente disponível, respectivamente, assim como nos dias de hoje são representados como os subalternos ou os serviçais.
“A Black Face nada mais é do que a internacionalização do racismo que”, como afirma Charô, “vai se consolidar naturalmente por meio dessa invisibilidade difundida pelas mídias, seja em novelas, noticiários ou programas humorísticos. O humor que ri do oprimido é o cimento para consolidar o racismo e outros preconceitos.”
Em sua intervenção logo a seguir, a jornalista Juliana Gonçalves conduziu o tema para a estigmatização das mulheres negras, enfatizando como são silenciadas e demonstrando os exemplos concretos de desníveis na valorização tanto no campo pessoal como no profissional. Além disso, Juliana Serzedello mostrou como esse silêncio é um “fiel guardião dos privilégios” dos opressores.
Fernanda Alcântara, da revista Raça Brasil, levou a abordagem para a maneira como a mulher negra é retratada nos veículos de comunicação, principalmente no que se refere às revistas, destacando “a exclusão da beleza negra da consagrada ‘beleza padrão’ e enfatizando o ‘branqueamento’ da raça e sua ausência nos meios de comunicação em geral”.
A discussão sobre a representação da mulher negra na mídia ultrapassou o tema pontual e abrangeu a posição e a estrutura social que influenciam na aceitação de uma identidade negra. Desta forma, para além da maneira como a mulher negra é veiculada, outras questões inerentes a esse tema também foram contemplados, como por exemplo, as políticas afirmativas. Sobre esse assunto, Juliana Gonçalves afirmou: “O problema é que as políticas de reparação são vistas como uma concessão de favor e não como um direito”.
A figura do atual presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Joaquim Barbosa, também proporcionou comentários referentes à conquista de cargos de alto prestígio pelos negros. Nesse momento dos debates Charô enfatizou: “É importante lembrar que Joaquim Barbosa não é uma regra e sim uma exceção. Por isso lutamos para não precisar andar duas vezes mais para conseguir chegar a essas posições”.
A contribuição dos alunos presentes nesse grupo de discussão, que com suas colocações e perguntas possibilitaram maior abrangência ao debate, e a mediação segura da professora Juliana Serzedello, que aprofundou a contextualização histórica sobre as estruturas sociais que permanecem consolidadas atualmente, garantiram que o debate sobre a mulher negra na mídia trouxesse mais um pouco de luzes e foco a esse assunto. Demonstrou, além disso, que “o racismo não é um problema apenas dos negros”.
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