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Home A era dos vídeos verticais: formatos, distribuição e consumo
12/06/2026
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Quando os celulares se transformaram em um aparelho com mais potencialidades do que um simples telefone possibilitando a gravação de vídeos presenciei alunos, professores e profissionais da área audiovisual recomendarem com veemência a captação na horizontal chegando a considerar um “erro” o registro na posição vertical. Fomos acostumados durante décadas pelo cinema e pela televisão aos formatos horizontais em proporções como 4:3 na TV analógica e 16:9 no cinema e na TV digital. Porém, a popularização dos smartphones e a consolidação do hábito de segurar o celular em pé nos levaram à nova era dos vídeos na vertical, cujo marco inicial pode ser considerado o Snapchat que adotou a tela inteira com conteúdos efêmeros. Depois veio o TikTok com algoritmo e interface baseados em vídeos curtos e verticais gerando reações de plataformas como Instagram (criação do formato de “reels”) e YouTube (lançamento dos “shorts”).

A ascensão dos vídeos na vertical deixou de ser tendência passageira e se consolida como força disruptiva do mercado audiovisual contemporâneo propiciando a exploração de novos formatos como:

a) novelas gravadas e editadas em 9:16 com capítulos de curta duração (cerca de 2 minutos), ganchos dramáticos nos primeiros segundos, narrativas ágeis e uso de planos mais fechados (como close up, plano-detallhe) para visualização em dispositivos móveis. No caso das chamadas “novelinhas” ou “novelas de curta duração”, o formato vertical não é apenas um recorte ou um complemento do horizontal, mas sim a tela principal ou a primeira tela. Algumas produções seriadas verticais também podem ser estruturadas como:

– desdobramentos transmidiáticos de extensão diegética de um produto que tem uma emissora de TV ou uma plataforma de streaming como janela principal;

– spin-off (nova narrativa derivada de outra obra que se concentra em personagem, evento ou universo específico do produto original). Em 2026, por exemplo, a Globo lançou “Loquinha”, minissérie em 25 capítulos verticais de curta duração baseada no casal sáfico formado por Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovsky) em “Três Graças” (novela das 9 da TV Globo).

b) linguagem vertical em POV (point of view ou ponto de vista) com gravação em primeira pessoa rompendo o distanciamento estético e gerando no espectador senso de descoberta, risco ou intimidade com o produtor de conteúdo. A diversificação da linguagem com o POV vertical vai além do entretenimento e se transforma em estratégias de marketing ou narrativas institucionais. Agências de turismo, corretoras de imóveis e estabelecimentos gastronômicos utilizam o POV vertical para criar experiências que passam a sensação de imersão ativando respostas sinestésicas no público gerando retenção de atenção e engajamento baseados no desejo e na satisfação visual. Na Cásper Líbero, por exemplo, para divulgar ações de um projeto interdisciplinar do curso de Audiovisual optamos pela realização e publicação de um vídeo vertical em formato POV que foi captado, narrado e editado por uma estudante que realmente participou do próprio projeto e vivenciou as experiências: https://www.instagram.com/p/DV_WNWHFWt4/

A forte adesão do público, especialmente os mais jovens, ao consumo de vídeos verticais estimulou até mesmo conglomerados tradicionais da mídia a lançarem novos projetos personalizados para a estética 9:16. Um exemplo emblemático deste ano é o “Globopop”, plataforma de vídeos verticais da Globo com rolagem infinita de produções audiovisuais de curta duração relacionadas às emissoras do grupo ou a criadores de conteúdo que são parceiros do projeto. O “Globopop” garante acesso ao acervo de conteúdos verticais do Grupo Globo em um ambiente próprio com curadoria e content safety.

No entanto, é importante salientar que apesar das possibilidades de novos formatos, a mudança estrutural para a verticalização dos vídeos pode comprometer a autonomia criativa nas plataformas digitais devido à dependência das lógicas algorítmicas de recomendação e às exigências das métricas. O vídeo vertical precisa capturar a atenção imediatamente durante a rolagem (ou scrolling). Para isso, os criadores de conteúdo acabam, muitas vezes, abusando de áudios virais, edições frenéticas e jump cuts (técnica de edição em que uma tomada contínua é dividida com o trecho do meio removido resultando em um pequeno salto temporal perceptível) podendo comprometer a reflexão sobre os aspectos temáticos, estéticos e artísticos de cada vídeo.

Neste sentido, softwares de edição oferecem recursos como “auto reframe” (ou enquadramento automático) utilizando inteligência artificial para identificar automaticamente a ação principal no vídeo e recortar o formato vertical (9:16) de um conteúdo horizontal (16:9) para, teoricamente, manter pessoas ou objetos centralizados na tela. No entanto, é prudente que os profissionais de edição revisem a timeline, analisem os cortes e reenquadramentos fazendo ajustes necessários assumindo o lado humano das decisões criativas que não devem ficar restritas às escolhas de ferramentas de IA.

Em suma, os vídeos verticais deixaram de ser apenas uma tendência passageira das redes sociais para se integrarem definitivamente ao ecossistema audiovisual contemporâneo. Hoje, eles coexistem e dialogam diretamente com as vertentes horizontais dos serviços de streaming e dos canais de TV, sejam abertos, por assinatura ou FAST (Free Ad-Supported Television), reconfigurando os processos de descoberta de conteúdo e a jornada de tomada de decisão do público em um cenário de múltiplas telas. Diante dessa complexidade evidencia-se a necessidade de discutir a produção e a distribuição de vídeos verticais com rigor acadêmico e planejamento estratégico.