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Home Como os pais ou responsáveis podem apoiar os vestibulandos?
14/09/2026
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Para mim, é sempre um desafio escrever um texto prescritivo. Minha tendência seria sempre perguntar como estão as coisas por aí? Como a(o) estudante tem se preparado para o vestibular? Que estratégias a família tem mobilizado para apoiá-lo e, principalmente, que condições de apoio e respiro esta família tem?

Isto posto, como faz algum tempo que pesquiso educação, tempo, cuidado e esta vida acelerada que não deixa sobrar tempo para nada, tomei a liberdade de elencar algumas dicas que podem ajudar famílias cujos jovens estão passando pelo processo de estudo e avaliações para entrar na universidade.

O vestibular é um ritual e como todos os rituais, como nos lembra o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, ele permite que nós habitemos o tempo e desfrutemos do que este tempo tem a nos oferecer. Por isso, minhas “dicas” vão no sentido de viver ao lado do jovem este momento; e não de encará-lo como mais uma meta a ser atingida. Paradoxalmente, talvez atravessar este período com mais leveza seja justamente a melhor forma de apoiar o estudante a conseguir um bom resultado. Reconhecê-lo como pessoa, ajudá-lo a entender que não precisa ter desempenho de máquina, que este resultado não o(a) define e que ele tem carinho, acolhimento e a família com quem contar talvez sejam as melhores “estratégias” de apoio para este processo.

O vestibular é um momento que já contém pressão suficiente em si. Na sociedade que cobra performance o tempo todo e que tem nas redes sociais um terreno muito fértil para comparações e fugas, precisamos estar ainda mais atentos e disponíveis para oferecer acolhimento, ajuda e até silêncio quando necessário.

Este processo acontece muito cedo. Nós, a escola, os colegas e o próprio estudante estamos convencidos de que o vestibular é uma prova que decidirá o futuro. De fato, existe um componente importante que é o que confere peso a esta escolha, mas a família pode tentar diminuir a pressão em vez de acrescentar uma nova camada: evitar comparações, cobranças repetitivas e perguntas constantes sobre desempenho.

Outra possibilidade de diminuir a pressão é deixar evidente que o desempenho do jovem na prova não vai defini-lo. É evidente que é importante que ele se sinta bem com o resultado, mas talvez seja importante contar para o estudante que passar ou não passar não define inteligência, competência ou futuro. Para isso, evite dizer que tem certeza de que ele(a) vai passar (isso pode ter o efeito contrário e gerar ainda mais pressão).

Eu sou mãe de adolescente e sei como pode ser difícil acessá-los. Mas em geral, quando conseguimos perguntar as coisas para eles, agimos melhor do que quando presumimos do que eles precisam. Um simples “como posso te ajudar nesta semana?” talvez seja mais potente do que oferecer soluções prontas (que em geral, são soluções que nós projetamos, com base na nossa experiência de juventude que, além de estar mais longe no tempo, já foi totalmente reconfigurada pelos nossos processos de registro, memória e bagagem cultural). Isso também ajuda a entender o que cada pessoa precisa em cada momento. Pode ser que o mesmo jovem, em cada situação, precise de ajudas diferentes: silêncio; de companhia; ajuda prática; não falar sobre a prova…

Se vocês moram juntos, a família pode contribuir para uma rotina possível de estudo, descanso, alimentação e sono, mas sem se transformar em fiscal de produtividade. A gente acredita muito – neste mundo regulado pela cultura da produtividade – que mais horas, mais simulados e menos descanso significam necessariamente uma melhor preparação. Mas será que é isso mesmo? Eu defendo o descanso como parte constitutiva da preparação; assim como a pausa faz parte da vida e não deve ser prêmio, merecimento, nem combustível da produtividade, uma boa noite de sono é importante porque o estudante é gente e corpo de gente precisa descansar. Sono, pausas, lazer, movimento e momentos sem estudo não são perda de tempo. Especialmente nas semanas finais, pode ser importante deslocar a lógica do “ainda dá tempo de estudar mais alguma coisa” para “o que ajuda este corpo e esta cabeça a chegar bem à prova?”.

Outra coisa importante e que pode ajudar muito o jovem a se organizar (e que dialoga com o primeiro ponto que trouxe aqui, de ajudá-lo a entender que o desempenho na prova não o define) diz respeito a não transformar a vida em família em uma extensão da escola ou do cursinho. Quando todas as conversas passam a ser sobre vestibular, notas, concorrência e carreira, o estudante pode perder um espaço fundamental de pertencimento fora da lógica da performance. A casa e a família podem continuar sendo lugar de comida, conversa, humor, descanso e vida cotidiana; em vez de ser mais um espaço de cobrança e de conversa sobre o vestibular.

Tem um meme bem engraçado que diz que nunca na história da humanidade alguém se acalmou, porque outro alguém disse “calma”. Pelo contrário. Quando uma pessoa está muito tensa, ela tende a ficar ainda mais irritada e nervosa quando falamos para ela se acalmar. Pois é. Dizer “não precisa ficar nervoso” pode ajudar pouco e até ter efeito contrário. Talvez seja mais cuidadoso reconhecer que o estudante pode estar sentindo medo. A família não precisa solucionar toda angústia e resolver todos os problemas. Muitas vezes, oferecer presença e escuta pode ser melhor.

Confiar que o jovem é capaz de manejar seus sentimentos é um caminho muito importante, para que a própria família maneje também as suas próprias. É evidente que temos expectativas em relação a eles. E muitas vezes, a nossa ansiedade aparece disfarçada de cuidado: perguntamos por notas, ajudamos a pesquisar os cursos, falamos todos os números e estatísticas que investigamos sobre concorrência, projetamos mil alternativas e planos B, C e D. Essas preocupações são do seu filho ou suas?

As escolhas do vestibular também podem concentrar conflitos sobre curso, universidade, prestígio, dinheiro e futuro. Apoiar significa conseguir conversar sobre essas questões sem transformar desejos familiares em destinos; sem converter as suas expectativas, projeções e até frustrações profissionais em prescrições para o jovem. É muito importante que se sinta ancorado e amparado para fazer a própria escolha e não atendendo a uma expectativa da família.

A pesquisadora estadunidense Elizabeth Freeman desenvolveu o conceito de crononormatividade para falar sobre o que acreditamos ser “a idade certa” ou “o tempo certo” para viver algumas situações na vida: a idade para casar, ter filhos, ser bem sucedido. Isso tudo vai se convertendo em “regras sociais” que nunca estão escritas em algum lugar, mas que compreendemos como normas. 17, 18 anos é muito cedo para fazer uma escolha que não poderá ser revista depois. E, paradoxalmente, entender esta escolha com liberdade para revê-la pode contribuir para que o jovem tenha certeza do que quer. Escolher um curso é uma escolha muito importante, mas não necessariamente irreversível. Pessoas mudam de curso, profissão, universidade e interesses ao longo da vida.

Isso tudo diz respeito ao processo de apoio ao longo desta jornada. Mas na véspera da prova, no dia da prova, no depois da prova (quando a ansiedade aumenta pelo resultado), também é possível oferecer ajuda de várias maneiras. No dia anterior e no dia da prova, é importante que o jovem saiba que fez o possível até ali. Talvez seja importante evitar revisões desesperadas e virar a noite estudando. Famílias podem apoiar garantindo as condições de descanso e evitando grandes “discursos” e solenidades relacionados à prova. Se quiser ajudar de uma forma bem concreta, ofereça apoio para conferir documentos, testar as canetas, lembrar o que pode e o que não pode durante a prova, pensar os caminhos de transporte, como será a alimentação, os horários etc. Eu tentaria ir por um caminho de estar perto, mas deixando o estudante sinalizar caso precise de algo.

E depois da prova? Eu sei que a gente fica esperando eles chegarem para perguntar “como foi?”. Eu tentaria segurar a ansiedade de perguntar se já saiu o gabarito, se já sabe quantas acertou, se acha que passou. Por mais que todos nós desejemos saber destas informações, talvez o melhor caminho seja perguntar “e aí? Como você está?”. Se ele(a) não quiser falar ou precisar de espaço, respeite. Eventualmente, diante de um resultado não esperado, permita que o jovem viva a frustração antes de oferecer ajuda para elaborar um próximo plano. E, diante do resultado esperado, celebre. Celebre muito!