No budismo tibetano, existem 8 amuletos diferentes. Um deles é uma concha de caracol, que, de acordo com as crenças, significa que tudo o que você deseja acontece, e isso nunca fez tanto sentido para mim como nessa viagem. Foram dez dias passando por diferentes províncias, cidades e aldeias. Todos os dias com paisagens cada vez mais exuberantes, aprendendo sempre um pouco de mandarim toda vez que os jornalistas que nos acompanhavam conversavam, e vivendo uma viagem que eu sabia que ia me mudar por completo.
Aos 19 anos, no segundo semestre de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, eu tive a oportunidade de passar por um processo seletivo, ser selecionada pela Faculdade como uma das finalistas, e, depois, selecionada pela Embaixada Chinesa como a aluna que representaria a instituição numa viagem incrível pela China. Ouvir do diretor que a aluna escolhida era eu, em plena quarta-feira, às duas da tarde, foi um momento bem inesquecível, sabe? Seriam as duas melhores semanas do meu ano (dos dias 09/08 a 21/08), mas eu ainda não sabia disso!
No começo, eu confesso que estava um pouco perdida sobre como funcionaria toda a logística, como roteiro, horários, passeios… Mas, assim que chegamos lá, a Associação de Amizade entre o Povo Chinês e Países Estrangeiros, a associação que organizou e preparou toda a viagem com o maior carinho, passou todas as informações para a gente. Essa associação foi criada após a Guerra Fria, com o intuito de aproximar a China do resto do mundo, já que, naquele período, ela só tinha contato com a Rússia, antiga União Soviética. E, desde então, ela vem aumentando os laços com diferentes países, como o Brasil, por exemplo. Inclusive, essa não é a primeira vez que brasileiros (estudantes e influenciadores) são convidados a visitar e conhecer mais sobre o país. Nós fomos a terceira leva!
Além disso, ela enviou, para nos acompanhar e ajudar nas traduções, três mulheres (agora amigas): Sarita Lin Lin, uma diplomata que já estudou por um período no Brasil e por isso era a nossa guia/líder e tradutora principal; Tatiana, uma estudante da Faculdade de Comunicação da China, que também estava ajudando nas traduções; e, por fim, Cecília, outra estudante da Faculdade, mas que falava apenas inglês. E, um fato curioso é que esses são os nomes delas no Português, porque todos os chineses que vêm para o Brasil ou qualquer outro país escolhem um outro nome para facilitar a pronúncia.
O propósito de toda programação era mostrar uma outra versão da China. Todo mundo conhece o país pela tecnologia, pelos robôs, pela automatização, pela produção e fabricação em larga escala; mas o que nós fomos convidados a conhecer era, na minha opinião, muito maior e mais incrível que isso. Viajamos para duas províncias (estados) centrais: Gansu e Qinghai. E o foco era se aprofundar na história e na cultura milenar dessa região. Acho que é importante conhecer o passado para entender onde estamos e onde queremos chegar.
“Bem-vindos a Gansu!”. Essa foi a primeira coisa que ouvimos dos jornalistas, assim que aterrisamos em Dunhuang (capital de Gansu). Uma província estreita, com norte e sul distantes um do outro, com montanhas de areias e que fez parte da Rota da Seda e da implementação do budismo na China. Visitamos as Grutas de Mogao, um complexo de mais de 700 grutas esculpidas em uma montanha de areia, onde, dentro de cada gruta, encontramos pinturas e esculturas de diferentes versões do Buda de milênios atrás, todas intactas; e, depois, visitamos a vila de artesãos que aprendem a replicar e repassar essas técnicas, para que a cultura continue viva. Também conhecemos o Condado de Gaolan, agora já mais ao norte da província, em Lanzhou. Uma pequena aldeia em que a principal fonte de renda é a plantação de frutas, especialmente peras (as mais verdes que já vi!).
E, quando digo que viajar pela China é como conhecer diferentes lugares do mundo em um só país, as Montanhas de Areias Cantantes foram o primeiro lugar em que realmente tive essa sensação. Me vi no meio do deserto, rodeada por camelos, usando galochas de borracha laranjas fluorescentes e de frente para um oásis belíssimo (Oásis Meia Luna). Eu me senti no meio do Saara ou do Atacama. Parecia estar num filme, no meio de umas das fotos que eu pesquisei no Google e que, agora, finalmente era real, eu estava vivendo tudo aquilo!
Enquanto nos locomovíamos de uma província para a outra, visitamos o Condado de Xiahe, para conhecer o Mosteiro de Labrang (um mosteiro budista tibetano),fomos ao Estepe de Sangke e entendemos como são feitas as pinturas Tangkas. Eu confesso que não sou uma pessoa religiosa. Sou espiritualizada e acredito que religião e espiritualidade sejam coisas diferentes. Por isso, coincidência ou não, fui a única a receber um desenho diferente para pintar, seguindo as técnicas Tangkas, pinturas feitas sobre um papel resistente com tintas minerais altamente pigmentadas. Só depois descobri o significado daquela imagem e percebi que ela se relacionava a algo em que sempre acreditei: “Tudo o que você deseja acontece”. Era a mesma concha de caracol que mencionei no começo deste texto.
Já em Qinghai a temperatura mudou, as paisagens também. Agora já estávamos a muitos metros de altitude, rodeados por montanhas verdes e cheios de gás oxigênio no ônibus, caso alguém se sentisse mal. No primeiro dia nessa província visitamos a Aldeia Deji, que antes se encontrava isolada, em cima das montanhas, mas que, agora, graças a um processo de reinserção do governo chinês, vive do turismo nas margens do Rio Amarelo (que, por sinal, é verde cristalino) e até praia tem!
Bem, nem só de coisas boas uma viagem é feita… Infelizmente, durante os dias que se seguiram, enquanto eu estava em Qinghai, meu avô ficou muito doente, com pneumonia, foi internado às pressas, e não resistiu. Francisco Sá era o homem mais reservado que eu conheci, e, por ironia, sempre odiou viajar e até sair de casa. Ele já sofria de Alzheimer havia mais de 3 anos, mas isso nunca nos impediu de criar uma amizade cheia de carinho, que ia além da relação entre avô e neta. Depois dessa notícia, a minha perspectiva sobre a viagem mudou. Agora eu não viajava mais só por mim, mas por ele, por tudo o que ele não conseguiu ver e viver. E, foi até engraçado, porque durante esses dias visitamos os lugares em que eu mais me senti próxima do céu, ou do paraíso, depende do que você acredita.
Primeiro, foi a represa de Kambula: um “lago” que não parecia ter começo nem fim, cercado de montanhas avermelhadas (por causa da grande quantidade de minério de ferro), onde passamos horas andando de barco. Depois, o lago Qinghai: um lago enorme, onde fizemos uma conferência entre influenciadores brasileiros e chineses e tivemos inúmeras trocas culturais. E, por fim, o Lago Caka! Mas esse merece um parágrafo só para ele.
Foi lá o segundo momento em que eu me senti conhecendo outros lugares do mundo. Como uma paisagem com poucas horas de distância pode mudar completamente?! Eu me via no Salar de Uyuni, o lago de sal da Bolívia. O Lago Caka (pronuncia-se “Chaka”) se formou pela movimentação das placas tectônicas (até porque antes, ali, era mar), e, com o clima cada vez mais seco, boa parte da água evaporou. Tudo era branco, azul e uma mistura dos dois que eu não sei bem explicar. Andar pelo lago com galochinhas, agora vermelhas, era como andar por uma pintura, já que a mistura de sal e água transformava aquele lago num ótimo espelho, que refletia as montanhas, o céu e as pessoas. Onde você olhava, era tudo azul, um azul bem clarinho. E eu só consegui lembrar da cor dos olhos do meu avô… Espero que esteja por lá, agora.
E, saindo um pouco da ordem cronológica dos fatos, acho importante contar que, durante esses dias, visitamos, também, Xining, a capital de Qinghai. E, um dos melhores passeios de todos foi visitar o Zoológico de Xining. A Sofia de cinco anos teria pirado vendo ursos pandas pela primeira vez na vida. E a Sofia de 19 também pirou… Lá, também visitamos uma fábrica de tapetes, um centro de big data e um hospital de medicina tradicional tibetana, onde eu fiz acupuntura pela primeira vez.
Foi uma viagem em que você nem percebia o tempo passar, porque todos os dias as programações eram incríveis e com tempo contado para conseguirmos ver cada uma delas. Por isso, foi estranho quando, “do nada”, já estávamos voltando para Pequim. Um sentimento de final de viagem já estava pairando no ar e, com ele, um gostinho de quero mais, também. Mas os últimos dois dias em Pequim foram inesquecíveis.
Afinal, não é todo dia que se conhece uma das sete maravilhas do mundo, não é? Sim, nós conhecemos a Grande Muralha da China. E o adjetivo “grande” deveria ser mais um eufemismo para explicar a dimensão da muralha, porque ela parecia não ter começo e nem fim, era bizarro. Hoje ela é uma das sete maravilhas, mas antes sua função era defesa militar e o controle da alfândega, imigração e emigração. E, além disso, ela servia como uma fortificação militar para proteger o Império Chinês dos povos nômades, como mongóis ou xiongnus. Andar durante umas 3 horas por ela com certeza me mudou como pessoa. Primeiro, porque eu achei que ia cair e morrer várias vezes; segundo, porque eu sei que, quando eu tiver 90 anos, eu vou lembrar que eu vi o sol se pôr enquanto eu andava pela Muralha da China.
O último dia da viagem chegou e, com ele, a correria também! Visitamos a Cidade Proibida, depois almoçamos em uma churrascaria brasileira, passamos umas 4 horas fazendo as últimas compras no Mercado das Pérolas, voltamos para o hotel, nos arrumamos e saímos correndo para o aeroporto. E agora só faltavam umas 35 horas para chegarmos em casa. E vou dizer que, naquele momento, eu só queria voltar para casa e para a minha família. Eu gosto de saber que não importa o quão longe eu vá, sempre tenho para onde e para quem voltar.
Como estudante de jornalismo eu só posso dizer que nunca me senti tão honrada em ter sido selecionada num processo seletivo tão acirrado como esse. Ver tantas pessoas, culturas e formas de pensar diferentes das que eu estou acostumada a ver na minha bolha, no meu país, me fez crescer, não só como futura jornalista, mas como pessoa.
Por isso eu acho que todo mundo deveria viver uma viagem dessas. Não precisa ser para a China, necessariamente, só precisa ser para um lugar completamente diferente do seu, do que está acostumado, do que é cômodo. Todo mundo merece viajar e descobrir o quão enorme o mundo é e entender a pequenez da nossa vida. Essa viagem me libertou. Me libertou de uma vida que eu sempre tive certeza que queria, mas que agora eu não faço a menor ideia! Essa viagem me libertou de mim mesma, ou do que eu achava que era.
A Sofia do primeiro semestre jamais acreditaria em tudo o que aconteceu com a gente até agora. Quando eu entrei na faculdade eu sempre soube que queria contar histórias, falar do mundo sob as minhas perspectivas, pelo meu olhar; mas, sendo sincera, eu nunca soube explicar o porquê. Depois dessas duas semanas, eu sei. Eu quero contar histórias, perspectivas e ensinamentos, porque eu quero mostrar o mundo a quem talvez nunca vá poder vê-lo como eu vi. Depois dessa viagem pela China eu entendi que somos minúsculos, comparados com o mundo, mas, mesmo assim, cada um de nós merece viver e ser visto vivendo. Eu quero conhecer o mundo e quero que ele acabe me conhecendo de volta, porque eu vou fazer questão que todos conheçam as nossas aventuras, juntos!
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