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Home O jornalismo em transformação no “O Diabo Veste Prada 2”
18/05/2026
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Esqueça a redação cheia, barulhenta, com jornalistas falando alto ao telefone e brigando pelo melhor espaço na primeira página. O que importa agora são os comentários, o engajamento, o compartilhamento e acertar um alvo: o que o público quer? Jornalista passa de protagonista da notícia para o filtro do que é mais buscado nas redes sociais e pode gerar audiência.

Esse cenário é mostrado no filme “O Diabo Veste Prada 2”, que, para mim, é mais sobre jornalismo do que sobre moda. Ele mostra várias realidades das transformações da nossa profissão, deixando claro que temos que ir muito além da apuração e pensar em gerenciamento de um produto, reputação e monetização.

No filme, a redação é mais enxuta. O jornalista, multiplataforma, apura, pensa no resultado no digital e como isso vai ajudar a monetizar o veículo de comunicação. Sem luxos, sem primeira classe. O glamour fica para trás, o que importa é apenas a imagem, o que se mostra, mesmo que por trás tudo esteja errado. Carros com motorista, auxiliar e fotógrafo ou repórter cinematográfico? Esqueça: agora é Uber, e você leva seu tripé e celular, que já grava, edita e manda tudo para a redação.

Outro ponto muito importante mostrado é a tensa relação entre anunciantes e o editorial. O “muro” tão defendido entre essas áreas já tem alguns grandes buracos para o crescimento do branded content. A sobrevivência de veículos de comunicação depende hoje da variedade de fontes de monetização, e o jornalista tem que entender como isso funciona, mas, ao mesmo tempo, defender sua credibilidade.

Uma mulher líder da redação, como no filme, também tem cobranças bem maiores. E, por vezes, deixa de lado sua vida pessoal para dar conta de tudo e ser vista no mesmo patamar de homens. E sempre de olho na reputação: qualquer risco na imagem pode fazer tudo desabar. Para jornalistas, hoje, esse cuidado é fundamental. Com as redes sociais, nossa imagem é percebida muito além do veículo para o qual trabalhamos. Temos que dar conta da notícia bem apurada, do furo, da credibilidade e da nossa imagem no mercado. Tudo sob os olhos de todos.

Performar, aparecer, engajar… Essa é a pressão que temos hoje na nossa profissão, o que é bem representado no filme. Mas eu termino aqui com esperança: o jornalismo de verdade ainda vale mais. Quando apuramos uma informação que é de interesse da sociedade, gastamos a sola de sapato atrás de fontes e conseguimos algo exclusivo, ainda somos protagonistas. O “Diabo Veste Prada 2” também mostra isso. Quando o jornalismo mais “raiz” prevalece, ele fura a bolha das redes e mostra o que interessa de verdade. Ainda bem.