Você já ouviu falar da Moranguete e do Abacatudo? Eles são personagens ficcionais das mais novas Novelas de Frutas. Mascaradas como uma simples forma de entretenimento, elas realçam a dominância das Inteligências Artificiais nas redes e a propagação de discursos de ódio na internet.
As histórias, divididas em vários episódios verticais, abordam temáticas como traição, ciúmes e dramas familiares, por meio de imagens de frutas e verduras humanizadas. Por terem um roteiro simples, uma linguagem acessível e cores chamativas, a trend rapidamente viralizou nas redes.
O alcance foi tanto, que marcas como Burguer King e IFood, também usaram as novelinhas para fins publicitários.
Uma adaptação brasileira
As novelas são uma adaptação do reality show “Love Island”, que mostra um elenco de jovens solteiros em uma ilha paradisíaca, buscando um novo amor. Entretanto, a versão brasileira ganhou características próprias, com gírias e ambientações nacionais, além de nomes de personagens autênticos, como Bananildo e Cajueiro.
A IA como ferramenta de disseminação de discursos de ódio
Nesse caso, as Inteligências Artificiais foram essenciais para a propagação de discursos violentos, disfarçados por uma estética inofensiva. Agressões domésticas, traições e falas gordofóbicas, por exemplo, contemplam os conteúdos das Novelas de Frutas.
Para Eloisa Benvenutti de Andrade, professora de Filosofia na Faculdade Cásper Líbero e doutora em Filosofia pela UNIFESP, atribuir qualidades humanas a seres não humanos promove uma distorção da realidade. Ela afirma que “No caso das frutas, elas não são humanas, mas são retratadas como tais. A violência contra um morango, o abuso contra uma maçã e o assédio contra um abacaxi é diferente do que acontece com a mulher, de fato, no mundo real ou com os seres em sociedade, onde a violência vai ser efetiva. Então, talvez exista isso: uma linha tênue entre a ficção, a obra estética e a responsabilidade social na hora de informar, na hora de contar histórias”
A preocupação é a disseminação desses assuntos entre o público jovem, mais atraído pela forma como as histórias são contadas. O perigo mora na normalização: se a intolerância for naturalizada na mente desses jovens, eles dificilmente conseguirão identificar ou combater o discurso de ódio quando o encontrarem no mundo real. “Isso tem um impacto ruim na sociedade. Quando você não consegue, de fato, fazer essa distinção entre o real e o virtual, você não resolve os problemas da sociedade, você só perpetua problemas nela”, declara Eloisa.