
Crédito: Beatriz Manfredini
Décima mesa da 22ª Semana de Jornalismo, a primeira a ser transmitida pelo sistema hangout, “Jornalismo nas Eleições” expôs conflitos e perspectivas dos jornalistas dedicados à cobertura política. Para os profissionais que têm a missão de acompanhar os bastidores do poder, as eleições são muito mais do que “a festa da democracia”, são um período de dedicação exclusiva e muito trabalho.
Cynara Menezes, blogueira do Socialista Morena e colunista da revista CartaCapital criticou a forma como se cobrem hoje as eleições. Disse que enxerga um “excesso de opinião”, tanto que segundo ela na verdade não se está realizando exatamente uma cobertura. A única reportagem produzida no processo atual foi no caso da morte do presidenciável Eduardo Campos (PSB), em agosto. Vera Guimarães, ombudsman do jornal Folha de S.Paulo, defendeu a postura da imprensa e colocou que, se a cobertura é ruim, a culpa não é dos jornalistas, mas sim do que é tema coberto, a campanha, que, segundo ela, “é uma lástima”.
Vera Guimarães continuou dizendo que não entende o porquê de se falar tanto sobre a campanha de 2014 nesse sentido porque “2010 foi uma pancadaria muito maior”. Na Folha de S.Paulo, publicação de que é a atual ombudsman, profissional colocado pelo veículo para fazer uma análise sobre a sua atuação em suas próprias páginas, e relatou ter, pela função, a atividade de acompanhar as pesquisas produzidas entre os leitores. Ela revelou que 56% dos entrevistados acreditam que o jornal tem postura contrária à presidente Dilma Rousseff (PT), ao passo que os outros 44% avaliam exatamente o contrário.
Expondo suas perspectivas sobre o futuro da profissão, ela declarou que “o Jornalismo do jeito que é praticado hoje é um modelo de negócios. Esse modelo até vai acabar, mas o Jornalismo não irá acabar”.
Uma crítica pesada ao modelo foi a postura assumida por Cristiano Navarro, editor web do jornal mensal Le Monde Diplomatique. Ele criticou o que chama de “apoio financeiro e ideológico dos anunciantes”, declarando que “quem paga a banda decide a música”.
De pronto, Vera Guimarães pediu um aparte e discordou de que isso aconteça. Colocou que “não existe isso de editor retirar pauta porque desagrada um anunciante”. Próximo a falar, o professor de Ética da Faculdade Cásper Líbero João Batista Natali colocou seu ponto de que a cobertura jornalística se transformou numa “guerra de declarações”. A situação, diz, se torna mais complexa quando se constata que, hoje, o marqueteiro substituiu o partido na instrução do candidato. Declarações que antes eram pensadas para marcar uma posição hoje são construídas já imaginando a resposta e isso afeta, de certa maneira, a autenticidade daquilo que o jornalismo político apura.
O professor entende também que enfraquece muito a qualidade do debate a oposição que as campanhas insistem em construir entre um “projeto maravilhoso” e o “retrocesso”. Na sequência, foi a vez do repórter Jorge Machado, da TV Alesp, colocar sua posição sobre o assunto. Interessado em levantar alguns pontos sobre a política, ele quis passar aos presentes a sensação de ser “de uma geração que já chegou lá, mas ainda não conseguiu o país que queria”.
Machado ainda citou um dado impressionante sobre a Assembleia Legislativa, onde trabalha: em 2010, 63% dos deputados estaduais foram reeleitos em São Paulo. No instante seguinte Cynara Menezes falou sobre as causas da precarização da profissão, afirmou enxergar no modelo de negócios falhas graves, sendo a principal delas o fato de que as empresas jornalísticas acreditam que a saída para as crises financeiras é a demissão de funcionários quando, na opinião dela, isso é um caminho apenas para conseguir um conteúdo ainda mais pobre, agravando a situação.
Em um momento de fala, a mediadora, professora Cilene Victor, criticou esse cenário de precarização da profissão e pediu aos alunos presentes que “saiam das bolhas” para ir ver o mundo com os próprios olhos. “A arte de sujar os sapatos”, como diria Humberto Werneck. A professora ainda coloca o caso de um debate entre os candidatos a governador de São Paulo em que o atual ocupante, Geraldo Alckmin (PSDB), respondeu à pergunta de um repórter presente argumentando que a Agência Nacional de Águas (ANA) havia desmentido a própria nota dele em qual criticava a postura do governo do Estado na questão do abastecimento de água, sendo que, na verdade, isso não havia acontecido. E questionou: “Por que o repórter não perguntou onde estava essa tal nota? por que ele assumiu automaticamente como verdade?” no que foi prontamente respondida por Vera com uma observação que marcou um ponto fundamental: “Perguntas óbvias não estão sendo feitas”.
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