A terra transformada em arte

Por: Carolina Rezende

Dos santos de barro do período colonial ao artesanato de argila no Vale do Paraíba, a riqueza da arte paulista

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Edição nº 7 – 2018

Na região central paulistana, uma imponente construção colonial, levantada em taipa de pilão, difunde importantes expressões artísticas religiosas. No Museu de Arte Sacra da cidade, a arte do barro paulista e a história se fundem. Dali, emergem importantes esculturas de terracota. Como a da Nossa Senhora da Luz, que deu origem ao nome do bairro. E da raríssima imagem de São Francisco das Chagas. A estátua, de um santeiro anônimo do século 17, traz um Cristo seráfico, alado, incomum. Porque para a Igreja católica, os anjos possuem asas. Mas o Cristo levita, e não voa. As imagens paulistas de terracota mais antigas de lá datam do século 16. “São a Nossa Senhora da Luz, vinda da Capela do “Piranga”, e o São Paulo, vindo da antiga Igreja do Pátio do Colégio”, diz a técnica em pesquisa do Museu de Arte Sacra da capital, Alana Íria Augusto, 28 anos.

O supervisor da ação educativa do museu, César Rodrigues, 37 anos, aponta, entre as obras de barro do acervo feitas em São Paulo, o valor artístico da imagem de Santo Antônio, do século 17. Moldada em barro cozido e com mão de obra indígena. “Há uma desproporção dos traços da escultura. A base é rústica. Pode ser que os índios atribuíssem os olhos muito abertos aos brancos”, diz. A riqueza cultural e histórica dessa arte colonial é desmedida, diferente, intensa. Possui várias informações estéticas, como que trocadas num intercâmbio entre Oriente e Ocidente. Não é pobre, como por muitos considerada. O estado de São Paulo produziu a maior quantidade de esculturas no Brasil desde 1560 (quando três imagens foram criadas por um artista português) até o início do século 20.

“A gente sempre busca quebrar esse paradigma de que a arte colonial paulista é uma arte pobre, primitiva. Ela teve contribuições e diálogos com a capital, Salvador. E esse diálogo vai proporcionar o surgimento de uma arte luso-brasileira”, explica o arquiteto e mestre em artes visuais e artes sacras, Rafael Schunk, 38 anos. “O início da imaginária em terracota no Brasil e, em São Paulo, começa com o mestre João Gonçalo Fernandes, em 1560. Ele era um artista português que estava preso. Enquanto aguardava encarcerado, pediu barro para esculpir imagens. E moldou três importantíssimos santos de barro”, explica Schunk. Como a região de São Paulo ficava numa posição de acesso mais difícil (precisava-se subir uma penosa serra), ficou também mais independente. Aos poucos, a arte do estado se tornou genuína. E, influenciada pelos índios, usou barro cozido para moldar as peças.

Fizeram parte do imaginário paulista outros grandes artistas. Como o frei Agostinho da Piedade. Ele viveu na Bahia, mas suas imagens chegaram a São Paulo. É dele a Nossa Senhora do Monte Serrat, padroeira do Mosteiro de São Bento da cidade. Outro destaque foi o frei Agostinho de Jesus, o primeiro artista nascido no Brasil. “É através dele que vamos ter uma escola de escultura de barro no país. Ele trabalhou principalmente em Santana do Parnaíba. Sua arte é a expressão máxima do tempo das bandeiras e o início de uma obra colonial brasileira. Sua obra-prima é a Nossa Senhora da Purificação”, conta Schunk. O mestre de Angra (como é chamado esse santeiro de identidade desconhecida) também foi importante. Ele teve imagens encontradas no litoral de São Paulo e no Convento de Santa Clara, em Taubaté.

Com o caminho do ouro, no século 18, o Convento de Santa Clara emergiu como um novo lugar de produção. E as esculturas eram mais populares. Mais tarde, surgiram as imagens paulistinhas, “elas seguem a iconografia das imagens beneditinas, mas em miniatura. Seu principal expoente foi Benedito Amaro de Oliveira, o dito Pituba, que trabalhou em Santa Isabel. Ele trouxe a imaginária barrista até o século 20”, diz Schunk.

Das esculturas de terracota paulista, uma, em especial, desperta coros emocionado de fé. A imagem maneirista de 36 centímetros foi feita da argila de São Paulo, nos anos de 1650. Um barro pesado. Acinzentado. Era uma Nossa Senhora da Conceição, pintada com tinta clara. Lançada ao rio Paraíba do Sul depois de quebrada. E encontrada por pescadores há 300 anos. Alavancou a fé brasileira. A caudalosa água do rio onde submergiu e as fuligens das velas acesas pela devoção a enegreceram. Foi quebrada em pedaços, mas restaurada. Vários milagres lhe foram atribuídos. E a crescente veneração dos brasileiros fez de Nossa Senhora da Conceição Aparecida a padroeira do país.

A autoria da imagem da padroeira do Brasil é desconhecida. Alguns estudiosos a atribuem ao frei Agostinho de Jesus. Apontam similaridades de características entre as Nossas Senhora da Conceição moldadas pelo frei e às existentes na santa de barro encontrada no rio Paraíba. Grande pesquisador da obra do religioso, Rafael Schunk questiona essa atribuição.  “Quando o frei Agostinho de Jesus chegou a São Paulo, e encontramos as primeiras imagens datadas dele em 1641, já era um artista de formação erudita. A imagem da Nossa Senhora Aparecida segue características da escola beneditina do frei, mas o estilo dos seus traços a diferencia da obra dele que eu cataloguei. Por exemplo, as costas da imagem da Aparecida. A parte oposta da escultura é côncava, já nas imagens do frei Agostinho de Jesus elas são chapadas; há cortes abruptos nas costas da santa que não aparecem da produção do frei; os cabelos dela são em baixo relevo e nas imagens do artista são em alto relevo; na produção que cataloguei do frei, não encontramos flores nos cabelos das imagens das santas, e aparecem essas flores na escultura da padroeira; a gola em renda da santa encontrada no rio segue muito mais uma produção de imagens orientais de Goa e o panejamento dela tem uma rigidez maior. Eu atribuiria a imagem de Nossa Senhora Aparecida a uma produção de um santeiro anônimo do Vale do Paraíba, inspirado na obra do frei Agostinho de Jesus”, explica.

O mercado da arte sacra brasileira, hoje, não é tão grande. Mas existem colecionadores. “Os colecionadores de arte sacra são muito heterogêneos. Não tem especificamente o fervor religioso. Há mais o amor pela arte, pela história e a questão do investimento. As imagens valorizaram muito nas últimas décadas”, diz Schunk. Se no passado as estátuas funcionavam como uma ponte para a religião, quando os santos de barro eram formas de aprendizado e expressão da devoção da fé. Agora, manter a memória dessas imagens, aprender sobre elas e passar adiante o conhecimento é um bom modo de entender a cultura paulista.

 Argila, tintas, pincéis, palitos, cores, presépios, santos, folclore, festas populares, vida cotidiana, animais, pavão. Com as mãos, os figureiros de Taubaté moldam o barro cru. E, inspirados pelo pensamento, dão forma às figuras. A origem dessa arte não é certa. Há quem diga que ela foi herdada dos indígenas; outros dos escravos que habitavam a vila de São Francisco das Chagas, como se chamava a Taubaté colônia. Alguns contam que foi influência dos freis franciscanos do convento de Santa Clara. Eles ensinavam a população mais simples a fazer figuras de barro para enfeitar presépios de Natal. Muito caros para trazer da Europa. A versão mais conhecida, porém, remonta a uma história popular. Dizem que, no início do século passado, no convento de Santa Clara, a escultura de barro de Nossa Senhora da Imaculada Conceição se quebrou. A imagem foi encontrada pela faxineira do local, Maria Conceição Frutuoso Barbosa. Ela sofria de lepra e tinha poucos dedos nas mãos, mas se ofereceu para consertar a santa de barro. Buscava a argila no rio Itaim. E usava a língua para ajudar no restauro. Foi um sucesso. Dona Conceição continuou a moldar pequenas figuras de barro e as vendia para comporem presépios. É tida, por muitos, como a primeira figureira da região.

Numa casa pintada de azul celeste na rua Imaculada – batizada com esse nome em homenagem à santa de barro restaurada e local onde se concentram os figureiros da cidade –, a pequena placa branca pendurada na parede aponta a residência das tradicionais irmãs figureiras. Maria Cândida dos Santos, Maria Edith Alves Santos (já falecida) e Maria Luíza dos Santos Vieira cresceram inspiradas pela arte das figuras de argila. Tinham o barro sempre por perto, as tias trabalhavam as peças e as vendiam no mercadão da cidade. O pai também as moldava, mas preferia não vender.

Para Cândida, a arte das figureiras veio do presépio. Com um pedaço de argila azulada nas mãos ela dá forma a um pequeno pássaro. Conta que moldou a primeira peça quando ainda criança. O pai costumava levar as filhas a um jardim próximo à estação rodoviária da cidade. Lá, viu o pavão. Encantada, quis transformá-lo em figura de barro. Para criar as figuras, o pai estimulava a filha a, primeiro, pensar em um bichinho. E da imaginação começar a moldar. “Nunca olhe para a imagem daquilo que você quer produzir. Pense no que vai fazer e deixe que o pensamento a guie”, dizia ele. Assim, as peças ficam únicas, diferentes. Do imaginário de Cândida saíram a pavoa e o pavão encrespados. As figuras, moldadas em relevo, foram inspiradas numa galinha que ela tinha em casa. A ave mergulhava as penas em um buraco no chão de terra batida e, depois, como envolvida numa dança, balançava e soltava todo o pó. As penas ficavam limpas. “Como o pensamento da gente funciona”, diz Cândida com emoção.

A peça de argila do pavão azul e encarnado, com comprida e colorida penugem em relevo, saiu das mãos de Cândida e virou o símbolo do artesanato paulista. Escolhida em 1979, pela SUTACO (Superintendência do Trabalho Artesanal na Comunidade). No passado, a família Santos buscava a argila em um terreno por onde passava o rio Itaim. Hoje, o barro cru é comprado em pacotes. No trabalho com a argila é necessário ter água sempre por perto, para umedecê-la. Moldada a peça, “o mais comum é deixar um pouco no sol, para ele próprio enxugá-la. Depois precisa tirar para não trincar”, ensina Cândida. A pintura é feita com tinta em pó e acrílica para artesanato. Para o famoso pavão, usa-se a tinta em pó da cor azul ultramar e goma laca líquida (um tipo de resina para impermeabilização) diluída em álcool.

A figureira moldava o barro em seu tempo livre, após o trabalho na fábrica. Às vezes, prosseguia com a argila até tarde da noite. Mas não pensava em parar. “Como não fazer o que eu gostava? Vivia contente, contente”, conta. As irmãs Santos participaram de várias exposições pelo país. Agora, aposentada, Cândida diminuiu um pouco o ritmo. Faz as peças quando há encomenda. O sobrinho Eduardo, único da família nessa arte, continua o trabalho das tias.

Próximo à rua Imaculada fica a Casa do Figureiro de Taubaté. Associação sem fins lucrativos, onde os artesãos produzem e vendem as peças. O prédio foi construído em 1993. A figureira Benê Alves, 59 anos, presidente da Casa, conta que se encantou pela arte há vinte anos. E logo se interessou em aprender. As figuras do pavão e da galinha d’angola são muito procuradas. “A galinha d’angola come bichos peçonhentos. Então, manter uma galinha no quintal é bom para afastá-los. As figureiras também retratam o cotidiano”, conta Benê. A tradição das figureiras é não queimar o barro. Mas a queima pode ocorrer em alguns casos.

A simplicidade impera. Para transformar a argila em figuras de cores vivas são usados objetos do cotidiano, como palitos de dente. No passado, usavam-se pétalas de rosas para pintar. As cores eram mais sóbrias. Apesar da riqueza histórica e cultural, a arte figurativa precisa de esforços para não acabar. É necessário ter outra renda. “A arte popular não é emprego. Faz porque se gosta. Mas a paixão pela arte figurativa me move a continuar”, explica Benê. Ela se preocupa que a arte acabe. Grande parte dos artistas são mulheres acima de 50 anos, e não se nota renovação. A tendência é que os jovens trabalhem em outras áreas. Entre os anos de 2004 e 2005 eram 38 figureiros. Hoje, são 28.  “Alguém chegar aqui e ver a beleza do nosso trabalho. Se emocionar com ele. Tirar o dinheiro suado para comprar a peça. É a maior recompensa”, conta ela. O artesão tem amor pela arte figurativa. E da imaginação eles transformam a argila em arte.

Da janela do carro, no caminho para o alto Vale do Paraíba, avistam-se inúmeras elevações de terra dissecadas. Parecidas com ondas do mar. A cidade de Cunha, destaque na produção das peças em cerâmica, está próxima. Há muitos anos, os objetos cerâmicos em Cunha eram feitos pelas “paneleiras”. Mulheres que, influenciadas pelos indígenas e portugueses, produziam peças utilitárias de barro (como panelas, jarras e potes). Naquela época, as peças das “paneleiras” não tinham valor artístico. Mas a modernização dos utensílios de cozinha tornou raro o uso da cerâmica utilitária. E a beleza simples dos objetos de barro produzidos por aquelas artesãs agora é vista como arte.

O Atelier Suenaga & Jardineiro foi inaugurado na cidade em 1985, quando Kimiko Suenaga, 68 anos e o marido, Gilberto Jardineiro, 70 anos, vieram do Japão para o Brasil. Tinham o sonho de fazer cerâmica no forno Noborigama. Com queima a 1400º C. (Dez anos antes, um grupo de artistas havia chegado em Cunha. Eles fizeram o primeiro ateliê de cerâmica de alta temperatura da cidade e construíram o primeiro forno Noborigama). Hoje, o filho do casal, o ceramista Giltaro Suenaga Jardineiro, 35 anos, está à frente da parte administrativa do ateliê. Lá produzem, manualmente, desde peças utilitárias a esculturas. A influência oriental, trazida na bagagem pelos pais, está presente na arte. 70% da argila que utilizam vem da região.

O forno a lenha Noborigama do Atelier é grande. O que demanda uma vasta produção. “As peças e esmaltes são feitos para serem queimados a 1400º C e resfriarem lentamente. Queimadas, elas continuam no forno, fechado, de três a quatro dias”, explica Giltaro. A abertura de fornada ocorre cinco vezes ao ano. É um surpreendente espetáculo. Influenciados pela temperatura e pela quantidade de oxigênio, os esmaltes ganham diferentes tonalidades durante a queima. O fogo e a cinza surgida da queima da lenha interferem no resultado final das peças. Que é único. E de alto valor artístico.

Em 1988, Kimiko e Gilberto fizeram a primeira abertura de fornada com o ateliê livre para visitação. A partir daí, as aberturas dos ateliês da cidade aos interessados deram visibilidade à cerâmica de Cunha. A cidade entrou na rota do turismo. Para Giltaro, a maior proximidade com o público trouxe uma nova perspectiva ao trabalho.  “Ver a satisfação no olhar de uma pessoa que nos visita, que não sabia como havíamos pensado o resultado final de uma peça e que para nós seria desapontador, nos deu uma noção de que nem sempre só aquilo que queremos é bonito. Pode ser bonito e diferente de como havíamos imaginado inicialmente”.

Hoje, existe o anual festival da cerâmica em Cunha. Mas como cidade pequena, para conseguir receber melhor os turistas, a economia precisa de apoio nas suas mais variadas áreas. Há mais de vinte ateliês na cidade. Com produção em fornos elétricos, a gás e à lenha. Esculturas ou cerâmicas para a mesa. Arte decorativa ou utilitária. Os ateliês de Cunha têm, cada um, seu próprio valor artístico. A maioria dos ceramistas cria e vende as suas peças. Não com o fito de comércio. Mas com pitadas de história, cultura e arte.