O coletivo de escrever

Por: Lolita Campani Beretta

Espalhados pela capital, cursos de criação literária libertam a escrita de seu tradicional isolamento

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Edição nº 3 – Junho de 2015

 

Alguém que, qual um narrador onisciente, pudesse observar os detalhes da atual dinâmica de São Paulo haveria de atentar para uma crescente circulação de autores e manuscritos, sobretudo à noite, em diferentes partes da cidade. Às terças-feiras, por exemplo. No Espaço Revista Cult, na Vila Madalena, encontram-se os frequentadores do Laboratório de Escrita Criativa, ministrado por Marcia Tiburi e Evandro Affonso Ferreira. Também na vila, é a vez de um dos três grupos de Marcelino Freire ocupar uma sala no centro cultural B_arco. No bairro vizinho de Pinheiros, é Fabrício Corsaletti quem propõe, no Instituto Tomie Ohtake, uma série de encontros sobre a crônica – um gênero livre, assim destaca o programa. No quarto andar do Instituto Vera Cruz, alunos do curso de pós-graduação de formação de escritores seguem a disciplina Poesia II, com Heitor Ferraz Mello. Finalmente, no centro da cidade, João Silvério Trevisan mantém a tradição de uma das oficinas mais antigas da capital e recebe outro grupo em um apartamento da Avenida São João. E isso são apenas as terças-feiras.

A perspectiva da história literária sempre nos ensinou que alguns anos são quase nada. Assim, não estamos errados ao considerar essa movimentação intensa de textos e leituras em São Paulo um fenômeno recente. O laboratório do Espaço Revista Cult, oferecido a cada semestre, está caminhando para sua sexta edição. As oficinas de Marcelino Freire no B_arco já têm aí seus oito anos de estrada, mas de início não contavam com tantas turmas. Foi em 2011 que o Instituto Vera Cruz lançou seu programa de pós-graduação – forte indício de que uma atividade começa a ter sua importância reconhecida. O curso, inicialmente com uma turma única, hoje conta com três núcleos – a poesia, a ficção e a não-ficção – e passa a oferecer, a partir de agosto deste ano, a formação específica para professores de criação literária. Sinal de que muito ainda está por vir.

Mas, se as dimensões do cenário são recentes, o mesmo não se pode dizer da atividade. Bastam alguns minutos de conversa com qualquer oficineiro – assim pode ser chamado um professor de criação literária – para descobrir um sem-número de histórias, algumas já bem distantes no tempo, desses encontros em torno de textos. Quando o escritor pernambucano Marcelino Freire veio morar em São Paulo no início da década de 1990, a ideia era participar dos grupos de João Silvério Trevisan. Ainda em Pernambuco, Marcelino havia sido aluno da primeira turma do romancista Raimundo Carrero, lembrado por muitos como um dos pioneiros da atividade no país, ao lado do ficcionista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil. Antes disso, na década de 1970, o jornalista, escritor e também professor de criação literária Heitor Ferraz Mello frequentava, ainda adolescente, um laboratório conduzido pelo professor de literatura brasileira da USP José Antonio Pasta Jr., no Museu Lasar Segall. “Podemos dizer que essa atividade sempre existiu, de algum modo. Um grupo de pessoas interessadas em literatura, com vontade de escrever, que se reúnem em torno de alguém com um pouco mais de conhecimento ou de experiência que propõe uma série de exercícios, leituras e conversas, no que nasce a literatura. Ou não, porque às vezes serve apenas como uma forma de o sujeito tentar elaborar sua vida de uma outra maneira”, afirma Heitor.

Oficina de Marcelino Freire no B_arco | Crédito: Júlia Griebel

Oficina de Marcelino Freire no B_arco | Crédito: Júlia Griebel

Talvez seja justamente o caráter (auto)reflexivo da literatura – sua capacidade de organizar o mundo, como defendeu certa vez o crítico Antonio Candido – que esteja levando cada vez mais gente de áreas tão diferentes como a ciência da computação e a filosofia a se encontrar para a conversa e a troca a partir de textos. Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Renan Reis, 26 anos, atua na área de governança em Tecnologia da Informação e se inscreveu, no início de 2015, no curso de criação literária da Associação Internacional de Cinema. “Por conta da minha profissão, meu dia a dia é totalmente pragmático e objetivo. Tenho pouco tempo para expressar ideias, vontades, anseios… acho que a escrita é um meio de quebrar essa barreira. E frequentar um curso de criação me ajudaria a ter disciplina para escrever”. Também em busca de disciplina para a produção constante, a jornalista Liliana Lavoratti, 55 anos, conta que o longo tempo na profissão a distanciou da escrita de textos literários: “A busca obsessiva pela objetividade no jornalismo – especialmente o econômico, no qual me especializei – ‘endureceu’ meu texto.” Comentando com amigos, muitos deles professores de criação literária, sobre o desejo de retomar outros tipos de escrita, várias vezes foi incentivada a frequentar uma oficina. Não sabia exatamente do que se tratava até entrar, em março deste ano, em um dos grupos de Marcelino Freire.

Uma oficina em ação

Afinal, o que acontece nesses encontros? A curiosidade é grande entre aqueles que nunca participaram. São muitas, e mesmo divergentes, as respostas. Porque, apesar dos pontos de contato, cada um dos tantos cursos e oficinas disponíveis na cidade apresenta sua dinâmica particular. Leituras sempre há. Mas, diferente dos ambientes literários mais tradicionais, textos de autores consagrados pela história ou pela crítica dividem o espaço com a produção dos alunos. A proporção é que pode variar, colocando os participantes no centro ou nas beiradas da discussão literária. Além das leituras, comentários, dicas e – como não? – alguns lampejos de teoria surgem, a todo tempo, de dentro ou de fora dos textos.

Na oficina de Marcelino Freire, um encontro de três horas pode ser inteiramente dedicado aos textos de alunos. O primeiro a ser lido – em voz alta, pela própria autora – é um conto sobre o relacionamento entre dois alpinistas – ela, social; ele, esportivo. Relendo as três primeiras frases, o professor dá início aos comentários: Adorei! Mas trata-se, ali, de aprimorar textos, exercitar a leitura crítica. Marcelino, retomando mais alguns parágrafos, logo acrescenta: o conto começa muito bem, mas logo se torna refém da informação. E, costumo dizer, salvem sempre a frase, nunca a informação. A partir daí, comentários, perguntas, sugestões e respostas circulam entre os pouco mais de vinte participantes, que, entusiasmados, chegam a passar alguns minutos sem buscar qualquer retorno do oficineiro. Volta-se então ao texto, ao parágrafo, à frase. Às vezes, uma palavra é suficiente para conduzir a discussão. Após três leituras, o encontro é encerrado com uma provocação, o mote para os textos da próxima semana: a porta detectou excesso de metais.

Em uma aula do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE), oferecido gratuitamente na Casa das Rosas, é de outro modo que os alunos autores são lidos. Ali estão os contemplados com uma vaga após a seleção entre mais de 900 inscritos. Trata-se do último encontro do módulo intitulado A invenção do poema – o terceiro, de oito módulos do curso – e o professor Fabio Weintraub comenta a dificuldade que muitos alunos têm na escansão – a contagem de sílabas poéticas. É por essa razão que o encontro será dedicado mais uma vez aos sonetos. Os exercícios de alguns alunos, reunidos em um documento Word, são projetados em uma parede atrás do professor. Chocalho de cobre, filho de santo. Apesar do comportamento no verso inicial, o soneto Caprichos de Nhonhô logo se rebela e o número de sílabas supera o de um soneto tradicional. O poema, que deveria compor a narrativa de um crime, é lido por seu autor. Cuca, lobisomem, acalanto, banto. O crime não está claro para o professor, mas o ritmo da leitura parece se sobrepor a isso. – É que eu não queria perder o encantamento dessas imagens e palavras. Uma colega diz: e tá uma delícia, mesmo. De outra autora, o crime inspirado em uma notícia de jornal traz um problema. A data, janeiro de 2012, é longa demais para participar de um verso. E março de 90, por que não? É poesia, minha gente! Sonetos são sisudos, mas há espaço para a brincadeira.

Nos encontros do curso Narrativas de ficção, que o jornalista e escritor Paulo Nogueira conduz às segundas-feiras no centro cultural B_arco, o protagonismo é da estrutura narrativa. O subtítulo do curso, aliás, já oferecia uma pista: como escrever romance, conto e novela. No início da aula, os exercícios de dois alunos ganham alguns minutos de atenção. A leitura é do professor, que prefere não nomear os autores. Em seguida, vêm os diálogos. Eles não podem jogar conversa fora. Devem ser substantivos e funcionais. Espelham o personagem e sua complexidade. As partes de um diálogo, diferente dos autores, recebem nome: discurso e inciso. Algumas perguntas interrompem a explicação. Tem problema começar o romance com um diálogo? Eu posso deixar sem o inciso? O encontro é encerrado com a projeção de algumas cenas de Mais estranho que a ficção, filme de Marc Forster. Nele, o personagem de Will Ferrell, atormentado por uma voz feminina que narra sua vida com incrível precisão, busca a ajuda de um professor de teoria literária. A literatura e a vida se misturam como nunca: – O importante é saber se você está em uma comédia ou uma tragédia.

Escrever, ato comunitário

Oficina de Marcelino Freire no B_arco | Crédito: Júlia Griebel

Oficina de Marcelino Freire no B_arco | Crédito: Júlia Griebel

No filme de Marc Forster, a escritora Karen Eiffel sofre com um bloqueio criativo na hora de terminar seu novo romance. Para garantir a publicação da obra, o editor envia a Karen uma assistente, e a máquina de escrever e os cigarros deixam de ser sua única companhia. A proliferação de espaços de compartilhamento e discussão da criação literária parece desconstruir, pouco a pouco, a tradicional e sacralizada imagem de escritores como Karen, condenados a conviver exclusivamente com seus personagens e decisões narrativas. Se não chegam a desconstruí-la por completo, as oficinas mostram, no mínimo, que há outras facetas do ficcionista e, portanto, outros sentidos para a escrita.

Em um capítulo de seu livro Frente & verso: sobre poesia e poética dedicado às oficinas literárias, o escritor Carlos Felipe Moisés afirma: “Escrever é sem dúvida um ato solitário, mas é também, às vezes contraditoriamente, um ato comunitário, convite-apelo a partilhar experiências comuns.” Para o autor, as oficinas que estão aí lidam – ou deveriam lidar – com essa ambiguidade. Além de servir como uma motivação para a escrita, os encontros impõem ao participante um desafio maior: o de “ajustar a sua subjetividade ao consenso e às expectativas alheias, pelo menos as expectativas e o consenso do grupo de pessoas que se reúnam para desenvolver as possibilidades desta ou daquela oficina”.

Heitor Ferraz Mello entende que o valor de uma oficina estaria justamente nessa experiência de troca entre todos os envolvidos. A tal ponto que costuma, ele também, fazer os exercícios que propõe aos participantes de seus grupos: “O meu último texto não deu certo e a turma percebeu isso. Uma aluna apontou alguns problemas, trouxe sugestões, foi muito bom”. Para o escritor, trata-se, antes de mais nada, de um diálogo, trabalho coletivo em torno de leituras: “Nesses cursos, o professor é um mediador. Não é alguém que está lá para ditar regras, dizer o que é e o que não é poesia ou como ela deve ser feita. Claro, a poesia não é apenas intuitiva, ela parte de toda uma tradição existente, e os cursos também precisam montar essa bagagem de leitura. Criar é ir escolhendo, a partir do que existe, as suas leituras.”

O idealizador do CLIPE Reynaldo Damazio também acredita que não são regras, mas sobretudo leituras e conversas que podem contribuir para essa formação: “Nós sabemos que não é um curso que forma o escritor. Mas é possível ajudar nesse processo. A ideia do CLIPE é estimular a criatividade, oferecer um repertório, fazer com que os alunos leiam, escrevam e discutam. Não oferecemos fórmulas, até porque elas não existem.” Se não existem fórmulas, é preciso buscar a sua própria voz. O editor da Companhia das Letras André Conti, que publica autores brasileiros contemporâneos, entende que o mérito de uma oficina estaria justamente em mostrar ao escritor aquilo que ele já sabe fazer: “Não é para dizer ‘esqueça tudo o que você sabe e é assim que se escreve’. É algo mais próximo de ‘vamos chegar no seu jeito de escrever’. E forçar isso. Levar o escritor a ser mais ele, conduzi-lo ao seu próprio estilo.”

Além da contribuição para a formação literária, Roberto Taddei, um dos coordenadores da pós-graduação do Instituto Vera Cruz, considera que os cursos para escritores trazem ainda o benefício da reflexão: trata-se, também, de repensar a atividade de um escritor na sociedade. “O interessante é entender a formação de um escritor como uma pessoa que atua no mundo a partir da palavra. Da mesma maneira como entendemos profissionais das ciências sociais, da filosofia. É fundamental ter escritores conscientes daquilo que fazem, capazes de atuar nas mais diversas atividades.” É bem provável que, após algum tempo, o mesmo observador da cidade encontrasse dificuldades para acompanhar tamanha movimentação.