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Home Notícias Compós Conferência de abertura Compós 2017 – a comunicação humana
07/06/2017
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Por Carolina Klautau e Carolina Maximo

Afeto, coletividade, diálogo, política e compreensão foram algumas das palavras associadas à comunicação pelos conferencistas da abertura oficial do 26º Encontro da Compós, a Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação. O início da jornada, que vai proporcionar aos pesquisadores a troca de conhecimentos e experiências, começou nessa terça-feira, 6 de junho, na Faculdade Cásper Líbero. Nos dois dias seguintes do evento, 170 trabalhos serão apresentados por pesquisadores de 50 cursos de Pós-Graduação em Comunicação de todos os cantos do Brasil.

O sociólogo francês Dominique Wolton e o jornalista e sociólogo brasileiro Muniz Sodré foram os convidados para conferência de abertura “Comunicação, mídia e política na França e no Brasil”, que aproximou as incertezas e instabilidades que rondam o campo da política e do jornalismo em nível global. Apesar de distantes geograficamente, Brasil e França têm muito que dialogar e caminhos a trilhar. A questão da polarização na política, da fragilidade da democracia e do jornalismo e a busca pela valorização da comunicação, como exemplo, são alguns dos pontos para os quais convergem os dois pesquisadores.

Da França, com afeto

A necessidade e a importância de não confundirmos técnica com comunicação constitui um dos pontos que mais se sobressaem do pensamento de Domique Wolton sobre a comunicação. A técnica é apropriada pelo indivíduo para a tentativa de se comunicar. Já a comunicação é negociação e coabitação com o outro, ou seja, a convivência entre pessoas, por exemplo, de países vizinhos que travam conflitos ideológicos e religiosos, mas que precisam dialogar. Ou entre pessoas da mesma família que não se entendem. É o encontro que não se efetiva por meio de e-mails e mensagens de texto. A comunicação face a face transcende as tecnologias digitais.

Wolton instiga o leitor com o livro É preciso salvar a comunicação, lançado em 2006. Durante a conferência de abertura da Compós 2017, o sociólogo francês propõe o que considera um dos caminhos possíveis para esse salvamento: a comunicação política. Mesmo levando em conta que há um fascínio pela técnica, é necessário enxergar que a comunicação está além da publicidade, do marketing e da manipulação de um receptor passivo. Para Wolton, “a grande descoberta do século XX foi a autonomia do receptor. Assim como supomos que os eleitores, na política, são inteligentes, também precisamos entender que os receptores possuem reflexão crítica. O que me interessa na comunicação política é seu caráter democrático, são os pontos de vista contraditórios e os confrontos constantes”.

O sociólogo também provoca a plateia quando aposta que interatividade não é comunicação, pois esta precisa de um tempo lento para ser estabelecida. A interatividade, no entanto, sempre tem pressa e vive na correria. A rapidez, além de não permitir a comunicação, torna difícil a compreensão do outro.

E já que estamos em um ambiente acadêmico, Wolton conversa sobre a necessidade de os jornalistas estarem mais conectados com a universidade: “É preciso preservar a profissão do jornalista, não sofrer a tirania da opinião pública e revalorizar a opinião dos universitários”. Encerra, por ora, o sociólogo; por ora, porque alguém que se debruça sobre a necessidade de salvar a comunicação parece que ainda vai ter longas e profundas reflexões pelo caminho.

A comunicação, inclusive, é a ciência maior e precisa ser mais valorizada, na perspectiva do coordenador do Programa de Pós-Graduação da Faculdade Cásper Líbero, Roberto Chiachiri. “Encontros, como o da Compós, que reúnem pesquisadores de todas as regiões do país para falar sobre o tema comum da comunicação, colocam pesquisadores de vários níveis – mestrandos, mestres, doutorandos e doutores – para fazer ciência, trocando experiências. Nós só temos a ganhar ao entrar em contato com todos esses trabalhos. A comunicação deveria estar no topo da pirâmide”.

Do Brasil, com urgência

Para o jornalista e sociólogo brasileiro Muniz Sodré, na transição tecnológica, os processos industriais da informação transcendem uma nova cultura, que potencializa as imagens e as transformam em uma nova realidade. Nas organizações a imagem se sobrepõe ao indivíduo e ao mundo para a construção de conhecimento. O indivíduo se converte em imagem, como um código tecnológico, nas relações estabelecidas através da inteligência artificial – algoritmo e conectividade-, do mundo civilizado, inserido nos novos modelos de negócios, pautados pela viabilização financeira do capital humano.

Para Sodré, “a evolução das redes tecnológicas é um ponto de virada organizacional em que o fluxo do tempo real para o virtual cria uma nova ordem social. A máquina pública não é mais o Estado, são as empresas e fundações comprometidas com a reorganização do mundo de acordo com a tecnociência e o capitalismo. Nesse sentido, questiona-se a viabilidade da prática jornalística independente. Um jornalismo capaz de intervir como função mediadora na agenda pública, pois a mídia é reflexo do mercado cuja disseminação dos produtos de informação é ingovernável nos termos da política representativa e monopolização ideológica dos interesses de classe”.

Muniz Sodré, encerra a conferência afirmando que: “o jornalismo mantém virtualmente um espaço a ser ocupado com as novas formas de mediação para a sociedade civil. É um gerador de pensamentos. Pensamento gera palavra. Palavra, gera ação. Ação, gera caráter. Caráter, gera destino”.

Novidades na Compós 

Em 2017, foram 523 trabalhos inscritos – um recorde de submissões. Expressividade que, talvez, se justifique pelo fato de a Compós ter dobrado de tamanho nos últimos 10 anos – em 2007, por exemplo, eram pouco mais de 20 os programas brasileiros de pós-graduação em Comunicação. Os pesquisadores já têm encontro marcado em 2018: a Pontifícia Universidade Católica de Belo Horizonte (PUC Minas) irá sediar o próximo encontro da Compós.

De acordo com Edson Dalmonte, presidente da Associação, um evento desse porte permite conhecer as pesquisas mais atuais na área de Comunicação, trocar experiências, construir redes e intercambiar aprendizagem. Sobre a maneira de dividir pesquisas com temáticas tão diferentes, Dalmonte dá uma ideia do trabalho realizado pela Compós: “Neste ano, por exemplo, são 17 GTs que, com o passar do tempo, vão se atualizando nas temáticas. É como se eles tivessem um ‘tempo de validade’ e, em seguida, entram novos Grupos de Trabalho ou, grupos antigos passam por atualização. O GT de Música e Som, por exemplo, é o mais recente e surge da necessidade que a pesquisa nos mostra”.

O assunto que une todos os pesquisadores é a comunicação e fala-se, cada vez mais, da diferença entre comunicação, técnica e transmissão de informação. Para Dalmonte, “a comunicação não é feita só com dados, ela diz respeito àquilo que nos afeta, faz pensar… É a democracia, a emancipação, que dá visibilidade ao indivíduo. A gente brinca que passamos metade do tempo definindo o que é comunicação e que, na outra metade, construímos nosso objeto para tentar entender o que é a comunicação”.

O 26º Encontro da Compós continua nesta quarta-feira, 7, e quinta-feira, 8, com apresentação dos trabalhos selecionados nos distintos GTs. A realização da Compós conta com apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologia (CNPQ), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Consulado Geral da França em São Paulo. A Faculdade Cásper Líbero organiza o evento, no contexto da comemoração de 70 anos de sua fundação.

Confira a galeria de fotos da Conferência de abertura da Compós 2017.