Balé Cósmico

Por: Roberto Fideli, aluno do 4º ano de jornalismo

Gravidade, do diretor Alfonso Cuarón, é um conto assustador sobre solidão e alienação feito com a mais revolucionária tecnologia que o cinema pode oferecer

 

Crédito: Divulgação

Dez anos atrás, Gravidade (Gravity, EUA, 2013) do diretor mexicano, Alfonso Cuarón, não poderia ter sido filmado. É de se perguntar, no entanto, como ele o filmou hoje. Gravidade, o mais extraordinário filme a aterrissar nos cinemas este ano, é uma visão gloriosa do que o futuro da tecnologia do cinema pode trazer. 

Depois de ter sua nave destruída por detritos de um satélite espacial, os astronautas Ryan Stone (Sandra Bullock) e Matt Kowalski (George Clooney) precisam encontrar uma maneira de voltar para casa antes que seu oxigênio acabe. Sem pressão atmosférica e resistência do ar, eles só têm um ao outro para impedi-los de flutuar à deriva no infinito. 

Com a ajuda do espetacular diretor de fotografia, Emmanuel Lubeszki e dos efeitos visuais supervisionados por Neil Corbould e Manex Efrem, Cuarón extrapola os limites da abordagem de múltiplos pontos de vista; o 3D aumenta a sensação de imersão no espaço colocando grandes objetos – como a Terra – distantes no foco, contrapondo equilíbrio e contraste nas cenas que se passam em ambientes fechados. 

Todos os elementos técnicos de Gravidade ajudam a compor o terror de estar perdido no infinito vácuo do Espaço. Os engenheiros de som, Chris Munro e Glenn Freemantle sabem utilizar os efeitos sonoros respeitando as leis da física, mas com o auxílio da trilha sonora de Steven Price que, quando não compete com a resistência do ar, é o elemento que guia o espectador pelas sensações de terror e maravilhamento. 

No entanto, todos esses elementos estariam perdidos, não fosse a visão poética de Alfonso Cuarón. Gravidade pode estar sendo comparado extensivamente com 2001: Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, mas Cuarón em nenhum momento perde de vista o elemento humano que está em jogo: conforme descobrimos durante a jornada dos dois protagonistas, existem elementos na vida da Dra. Ryan Stone, que levantam a pergunta: para que continuar lutando? Lá fora, distante dos sons dos automóveis, da pressão das pessoas à sua volta, fica fácil se desconectar. E talvez seja melhor assim. 

A princípio, Matt Kowalski (Clooney) parece ser o elemento dissonante do filme. Metido e espertinho, ele providencia, no começo, o humor do filme. No entanto, conforme as situações progridem e os perigos aumentam, percebemos que ele é a força motriz que mantem Ryan Stone em seu eixo, e a caminho de casa. Ele é a voz que queremos ouvir numa situação dessas, mesmo que seja o rosto de Stone que queremos ver. E Sandra Bullock, no melhor papel de sua carreira, permanece a maior parte do filme à deriva e onde ninguém pode ouvir seus gritos. 

Gravidade é belo, lírico e assustador. É um filme que faz com que você se sinta mais em contato com o mundo do que desconectado. Bullock e Clooney dançam um balé cósmico que mescla contemplação e medo em doses equilibradas. E o 3D não apenas ajuda o espectador a mergulhar no vácuo do espaço lado a lado com os personagens, como também o envolve em uma trajetória pessoal de renascimento.