Filosofia de vida ou modismo?

Por: Fernanda Passos

Veganos iniciantes e veteranos falam sobre suas escolhas de vida no mundo capitalista

logo_arruaça

Edição nº 7 – 2018

Os adeptos do veganismo não consomem nada que seja de origem animal e que envolvam maus tratos a eles. Alimentos, vestuários, cosméticos e maquiagens. O mesmo se dá para espetáculos como rodeios e circos, que são banidos do seu estilo de vida.

Criado em 1944, na Inglaterra, por Donald Watson, o movimento vegan, ou vegano, vem ganhando cada vez mais espaço. Segundo Ulisses Borges, coordenador da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), em 2013, de 8% a 9% dos brasileiros se declararam vegetarianos, mas ainda não há dados oficiais sobre o número de veganos no Brasil. Nos EUA aproximadamente 16 milhões de pessoas dizem ser veganas, dados da pesquisa do Instituto Harris Interactive. No Reino Unido, cerca de 33% dos vegetarianos são veganos, mostra a pesquisa do Ipsos Mori Institute.

Fausto Oi, 37, é vocalista da banda Direction, de hardcore punk e segue a filosofia “Straight Edge”, um subgênero do hardcore punk que defende a total abstinência de drogas, álcool e tabaco. Segundo ele, o movimento vegan foi introduzido no Brasil através deste estilo musical. O punk surgiu em 1974 nos EUA e seu auge foi em 1977. A primeira banda brasileira foi criada em 1978.  “A filosofia que o punk Straight Edge prega é o de não fumar, não beber, não usar drogas e o mais polêmico de ser interpretado que é o de não transar”. Pra que vou estragar meu corpo e minha alma com algo que faz mal pra mim? É nisso que acreditamos” diz Fausto e explica que tem relacionamentos sexuais, porém, não de uma forma que corrompa sua moral e seus valores.

Vegano há 19 anos, Fausto é veterano nesse mundo. Explica que a palavra veganismo foi recentemente introduzida no Brasil, há cerca de cinco anos. Anteriormente falava-se apenas vegan. Não foram apenas as palavras que mudaram nesse intervalo de tempo. O número de adeptos também aumentou. “Fico realizado ao ver cada vez mais pessoas preocupadas em acabar com a matança animal para se alimentarem. Para vivermos não precisamos matar seres vivos” afirma Fausto ao constatar que seu time está ganhando reforço. “Hoje já consigo comer fora de casa, algo impossível há quinze anos” diz.

O crescimento desse tipo de dieta no Brasil acompanha uma tendência mundial. Segundo a SVB, na Europa, 14% de todos os novos produtos lançados em 2015 são vegetarianos ou veganos. De 2013 a 2015, o lançamento de produtos veganos cresceu 150% no continente. Nos supermercados brasileiros também já é possível encontrar muitas versões veganas de produtos cárneos ou lácteos, como nuggets, presunto, quibe, coxinha, salsicha, linguiça, sorvete e requeijão. Quem consome diz que são deliciosos.

Rodrigo Lima, chef de cozinha e músico, 44, é  vocalista da banda de Hard Core Punk “Dead Fish” e o responsável por fazer, todas as quartas feiras, a feijoada vegana servida no restaurante “Panelaço”, que tem como um dos sócios o vocalista da banda “Ratos de Porão”, João Gordo, também vegano. Desde quando começou a servir feijoada no Panelaço, há quatro meses, Rodrigo diz que dobrou a procura de clientes, sendo na sua maioria mulheres. Além da preservação animal outros setores foram beneficiados com esse boom que o veganismo teve nos últimos anos. O número de restaurantes, produtos alimentares industrializados, produtos têxteis, cosméticos, itens de higiene pessoal e de maquiagem vegana cresceu em grande escala facilitando a vida dos consumidores.

Alexandre Escanfella, cineasta, 29, é vegano há pouco mais de um mês e vegetariano há três anos. É novato no veganismo. O que o motivou a entrar neste estilo de vida foi a preocupação com a saúde. “Carne faz mal, prejudica o intestino e piora a pele”, afirma Alexandre. Durante a fase de migração do vegetarianismo para o veganismo, ele emagreceu 20kg, resultado de alimentação vegana correta e de atividade física. “O veganismo não é só baseado em alimentos saudáveis. Tem muita porcaria e “junk food”, que se eu comer com frequência volto a engordar novamente” diz.

Por ser ciclista profissional, Alexandre trocou o selim de couro da bicicleta, por um sintético. Para pedalar, ainda usa sapatilha com tira de pele animal por não ter no mercado uma similar que a substitua. Também usa cinto de couro porque diz ser o único que aguenta o peso do seu chaveiro pendurado. Alexandre não está disposto a pagar mais caro para comprar produtos cosméticos e de higiene pessoal que custem o dobro do preço por serem veganos e “cruelty-free” (produtos não testados em animais). A compra do mês ficou mais cara depois que se tornou vegano. “As pessoas que comem carne acham que a culinária vegana é gourmetizada e muito cara, mas não é bem assim. Na feira acabo economizando. O que encarece é que certos tipos de alimentos são muito mais caros que os tradicionais, como o chocolate vegano, que é meu vício”.

Assim como no vestuário, Alexandre ainda comete alguns deslizes na alimentação. Come queijo e ovos se não tiver outra opção. Carne jamais, mesmo passando fome. Por conta disso já sofreu preconceito de outros veganos mais radicais e diz que algumas comunidades veganas do Facebook criticam muito os novos adeptos. Substituir alimentos a fim de trazer sabor às refeições é seu novo desafio. “Strognoff é a comida que me traz mais memórias afetivas, pois é a melhor comida da minha mãe. Substituí a carne e o creme de leite para poder comer”, diz.

Quem também viu a conta do mercado aumentar foi a maquiadora e influenciadora digital, Nicole Make, 33. A gaúcha da cidade de Rio Grande, é veterana no universo da maquiagem vegan.  Há cinco anos tornou-se vegana.  Anteriormente testou o vegetarianismo por cinco meses e pela causa decidiu radicalizar e não consumir mais nada proveniente dos animais. Começou tirando objetos de couro e roupas de pele. Um dia viu na internet uma blogueira de maquiagem falando sobre um primer vegano que não fazia testes em animais.  Isso despertou a curiosidade da maquiadora, que foi investigar se os testes de maquiagens e cosméticos ainda eram feitos como ela imaginava ser no século passado. “Achei que isso nem existia mais, que esses testes envolvendo maus tratos em animais eram da época da minha avó e que nenhuma empresa ainda teria coragem de fazer essa maldade”.

Na época era casada e comentou com seu marido que a partir daquele momento pararia de usar maquiagem que testasse em animais nas suas clientes e no seu blog. Ele a confrontou dizendo que aquilo não faria sentido se ela continuasse a comer carne. Então, no dia seguinte Nicole decidiu parar. Até se tornar a blogueira com maior número de seguidoras e ser referência em maquiagem vegana no País, foram quatro anos. Hoje ela é seguida por mais de 200 mil pessoas em suas redes sociais.

Nicole se lembra da dificuldade que tinha em falar sobre maquiagem vegana em seu blog. Na época não havia muitos itens e a qualidade era ruim. Em cinco anos a indústria cosmética cresceu muito em quantidade e qualidade, comemora a maquiadora, orgulhando-se de ter influenciado marcas e pessoas a militarem pela causa animal. “Quando parei de falar das marcas mais famosas de maquiagem, meu blog despencou de audiência. Perdi muitas clientes, seguidoras, patrocinadores e anunciantes. Até conquistar um novo público demorou quase quatro anos. Pra mim, que só vivo disso, foi bem difícil. Desanimei, sim, mas nunca pensei em desistir. Mas a causa animal é muito maior. E hoje me sinto muito mais feliz por não ter energia de morte dentro de mim”.