Mania Poe

Por: Thais Struzani, Camilla Fernandes e Giuliana Mancini, alunas do 2º ano de Rádio e TV

Edgar Allan Poe é adaptado não só na literatura, mas principalmente na linguagem de uma nova era: a do audiovisual

 

Crédito: Wikipedia

Edgar Allan Poe é o escritor cujas muitas das obras são adaptadas para o universo do entretenimento contemporâneo. Seja na televisão, no cinema ou nas HQs, o grotesco gótico que Poe apropriou às suas histórias tornou-se modismo.

Um ótimo e o mais conhecido exemplo do mundo atual sobre essa releitura é a série de televisão transmitida no Brasil pela Warner, The Following, estrelada por Kevin Bacon. A trama gira em torno do conflito entre o personagem principal Ryan Hardy (Bacon) e o assassino em serie Joe Caroll (James Purefoy), que pratica crimes com base nos contos de Edgar Allan Poe e com a ajuda de um grupo de seguidores.

Caroll possui um culto do qual participam pessoas que são fãs de sua literatura ou se relacionaram com ele no passado. Sendo assim, os membros praticam assassinatos por ordem de Caroll, de forma que se baseie nas obras de Poe, chamando a atenção da mídia e do FBI pelo modo poético e significativo que usam a morte.

Inspirado no conto Black Cat (1843), um dos homicídios mais marcantes para exemplificar essa análise é da mãe da personagem Emma, que a mata e a esconde no vácuo criado entre duas paredes da casa dela. O corpo é achado algum tempo depois por agentes do FBI que estavam investigando o local, vazio e repleto de desenhos e escritos baseados na literatura de Poe.

Trazendo a análise para território nacional, a série brasileira Contos do Edgar, transmitido pela Fox, faz uma releitura de algumas histórias escritas por Edgar Allan Poe que são trazidas para a contemporaneidade brasileira, sem fugir da nossa realidade. Enquanto nas obras de Poe são sempre utilizados os clássicos elementos góticos como castelos sombrios, cemitérios, mulheres fantasmas e a insistência no fúnebre, na série os cenários escolhidos são próximos do cotidiano do telespectador, como uma oficina mecânica, um consultório odontológico, um boteco e etc., ou seja, a presença do aterrorizante se faz com predominância no texto, e não na direção de arte. Dessa forma, é explorada a produção do gênero de terror, que tem tido pouco espaço no mercado brasileiro.

Na indústria cinematográfica, existem filmes que encenam ou a obra ou a própria vida do escritor americano ou então agregam elementos dos textos de Edgar Allan Poe. O Corvo (2012), de James McTeigue, é uma representação da vida real de Poe mesclada com ficção, que se baseia nos próprios poemas do autor. 

Já o filme O Substituto (2011), de Tony Kaye, apropria-se do recurso de citação do conto The Fall of the House of Usher para complementar o final filosófico e metafórico: “Em um dia inteiro pesado, escuro e silencioso de outono daquele ano, em que as nuvens estavam sufocantemente baixas, eu passava sozinho a cavalo por um trecho de campo particularmente lúgubre. E acabei me encontrando enquanto chegava a noite, à vista da melancólica Casa de Usher. Eu não sei como foi, mas ao ver o edifício pela primeira vez, uma sensação de tristeza insuportável invadiu minha alma. Olhei para a paisagem simples da propriedade… Para as paredes sombrias… Para os troncos brancos de árvores decompostas… Com absoluta depressão da alma. Havia uma frieza,uma deterioração… Uma tristeza profunda.”

Além das obras audiovisuais, Poe também foi traduzido para a linguagem das histórias em quadrinhos. O cartunista e ilusionista americano Roman Dirge criou sua HQ de maior sucesso a partir da obra Lenore (1843), deixando-a inclusive com o mesmo nome, apenas completando com o subtítulo The Cute Little Dead Girl

A história da HQ utiliza-se da personagem Lenore como a principal, contando curtas tramas da garotinha morta-viva e complementando com nuances de humor negro e mais do grotesco. 

Além disso, a personagem é acompanhada por amigos e figuras que deixam o ar dos desenhos mais macabros. Além da inspiração de Lenore, Roman também se apropriou do estilo lírico e obscuro de Poe para construir outros quadrinhos com personagens originais.

A estética usada por Roman Dirge é a mesma de Tim Burton em muitos dos filmes do cineasta norte-americano. O diretor, famoso pelos personagens pitorescos, já se confessou fã de Edgar Allan Poe, como pode ser visto no curta ‘Vincent’ de 1982, no qual o personagem principal dedica-se a ler os contos do autor, deseja ser como o Vincent Price (grande astro de filmes de terror), fazer experimentos com o cão Abercrombie para que ele se torne um zumbi e também jogar a tia dele num balde de cera fervente. 

É fato que o personagem introspectivo foi inspirado na infância de Burton sob influência de Poe. Portanto, Tim Burton pode ser considerado por muitos o ‘sucessor’ do estilo da fantasia gótica e elementos expressionistas, já que ele mesmo afirma gostar da inquietação e da catarse.

Seja de modo poético, realista ou macabro, o grotesco de Poe de fato invadiu o mundo das mídias audiovisuais nas últimas décadas. Sendo assim, em forma original ou transformada, hoje em dia cada um pode buscar entre os canais, cinemas e prateleiras de livrarias sua versão favorita de Edgar Allan Poe.