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Home O que o Big Brother Brasil nos ensina sobre mídia?
20/04/2026
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Vinte e cinco anos depois de seu lançamento, programa mostra como se adaptar às transformações da comunicação

Quando o Big Brother Brasil estreou, em 2002, os celulares ainda eram basicamente telefones, embora já trocassem mensagens de texto. Acesso à Internet, apenas por computadores, fossem desktops ou notebooks. Wi-fi, smartphones, tablets e IA pareciam ainda estar na imaginação da ficção científica.

O Big Brother Brasil que termina nesta semana enfrenta um ambiente midiático muito diferente. O conceito de “assistir televisão” mudou: no lugar da atenção focada, o olhar é quase estilhaçado entre a televisão e as redes sociais: “assistir” é interagir, comentar minuto a minuto, sobretudo nos principais momentos; no lugar do aparelho de TV em destaque na sala, onde pessoas se reuniam para assistir o programa, uma audiência conectada individualmente.

E, no entanto, o programa não apenas resistiu como se adaptou a essas mudanças, consolidando-se como um formato de sucesso enquanto outros ainda procuram caminhos para seguir nesse cenário.

As reações, na época de seu lançamento, foram mistas. Como hoje, sobravam perguntas e faltavam respostas sobre o programa. As questões eram muitas: quem se interessaria por ver a vida de outras pessoas? O que esse formato então recém-criado, o “reality show”, tinha de diferente de seus antecessores relativamente próximos, como as telenovelas e os programas de “câmeras escondidas”? Certos questionamentos eram mais críticos: que sociedade é essa interessada por acompanhar a vida alheia 24 horas por dia? O programa não estava ultrapassando o limite da exposição pessoal?

Assim como as questões, os diagnósticos também não faltavam, oscilando entre o entusiasmo, o ceticismo e a crítica. Para as pessoas mais entusiasmadas, tratava-se de uma nova fronteira do entretenimento, abrindo espaço para qualquer indivíduo se tornar conhecido; céticos duvidavam da longevidade do programa, pensando por quantas temporadas ele sobreviveria; críticos observavam as ressonâncias comerciais e políticas do reality show, perguntando até que ponto é possível transformar a realidade em um espetáculo midiático – e o que sobra do mundo real depois disso.

Vinte e quatro anos depois, o Big Brother se afirma como parte integrante do repertório da mídia nacional. Suas edições conseguem ampla repercussão nas mídias, e mesmo quem jamais assistiu a um episódio completo sabe, durante sua exibição, pelo menos alguns pontos principais, seja o nome de algumas das pessoas participantes, eventuais confrontos, discussões e temáticas variadas que o programa traz.

O que, então, podemos aprender sobre mídia a partir da longevidade do Big Brother Brasil? Seu sucesso em termos de audiência, divulgação e publicidade pode ensinar algo sobre comunicação na atualidade. Certamente existem muitas lições e reflexões possíveis para tirar disso, mas podemos, só para começar, enumerar cinco.

1. Desenvolver conteúdo pensando no ambiente das mídias
O Big Brother Brasil começou como um programa de televisão, mas logo passou a se espalhar pelo ambiente digital. Ainda em suas primeiras edições, as votações já eram online e, em pouco tempo, seu conteúdo passou a ser divulgado em várias plataformas – TV aberta, pay-per-view, aplicativos e, mais para frente, serviços de streaming. Isso permitiu ao programa atingir mais públicos, ampliando seu alcance – e, consequentemente, sua receita. O sucesso do Big Brother Brasil e de alguns outros realities mostra que essa pulverização entre plataformas é um caminho para manter a conexão com o público.

2. A teledramaturgia segue como modelo
Uma das raízes dos reality shows como Big Brother Brasil é a teledramaturgia. Em termos narrativos, cada uma das edições do Big Brother Brasil contou sua história, trouxe personagens, tramas, amores e paixões, discussões, traições e, em cada uma delas, um final de caráter apoteótico na revelação de quem venceu. A cada nova edição, rapidamente é possível identificar as pessoas participantes como personagens, herdeiros de uma longa tradição da teledramaturgia: heroínas e heróis, vilãs e vilões; personagens simpáticas ao público contrastando com outras, mais frias – e, sem dúvida, uma dose de romance. Esses ingredientes foram adaptados pelo Big Brother Brasil em um cenário no qual ainda há competições e disputas, reforçando a tensão narrativa. Isso leva ao próximo ponto.

3. A “vida real” é uma fonte inesgotável de engajamento para a mídia
O sucesso do programa mostra como a sociedade gosta de assistir uma boa história – melhor ainda se ela estiver temperada com a ideia de “realidade”. Antes dos reality shows, os programas de “câmera escondida” ou “pegadinhas”, como eram chamados, assim como vídeos humorísticos com cenas do cotidiano, eram o máximo que se poderia ver de “realidade” nesse tipo de entretenimento. Nos realities, o ponto principal é a ideia de mostrar o “real” – que, mediado pelas telas, se mostra especialmente fascinante.

4. A variedade de participantes permite identificação com o programa

Durante suas temporadas, o programa trouxe, entre seus participantes, um recorte variado da população brasileira em termos de faixa etária, gênero, etnia, grau de escolaridade e outras variáveis. Esse corte, se não é estatisticamente representativo, auxilia a entender alguns aspectos da sociedade. Seria, sem dúvida, um exagero pensar essa relação em termos muito diretos, mas podemos identificar algumas preferências em termos de quais pessoas tiveram mais rejeição, quem venceu e quais pessoas, mesmo sem serem as vencedoras, seguiram uma carreira na mídia. De certa maneira, é possível se ver em algumas das pessoas participantes, e seu sucesso indica um processo de identificação do público com o que vê na tela.

5. Entretenimento tem uma dimensão política
Ao longo das vinte e seis edições do Big Brother Brasil, não foram poucas as vezes em que discussões políticas tomaram conta do programa e se espalharam pela sociedade. “Política”, aqui, não em termos partidários ou de preferências eleitorais, mas no sentido dos posicionamentos, nos comportamentos e definição de identidades. Em um ambiente como o do programa, conflitos são inevitáveis – aliás, são parte da atração. A natureza dessas disputas, em muitos momentos, levantaram questões de poder, mostrando que o entretenimento segue como um espaço também político.

Quando a 26a edição do Big Brother Brasil terminar, neste começo de semana, estaremos diante de um programa de rara longevidade na mídia brasileira. E tanto a academia quanto o mercado da comunicação seguem procurando encontrar respostas – até o começo da próxima edição ou, quem sabe, até o próximo paredão.