Cada aula é como se fosse um evento

Por: Bárbara Ligero, 2º ano de Jornalismo

Ethel Shiraishi PereiraEthel Shiraishi pode até ter tido uma infância nômade – seu pai, gerente de loja, foi responsável por abrir comércios em diversas cidades do país –, mas parece que a professora estava mesmo destinada à Avenida Paulista desde a maternidade: nasceu na Pro Matre, bem aqui ao lado.

Após a morte precoce do pai, a família se fixou em Guarulhos, mas não demorou muito para ser atraída de volta para a região mais elevada de São Paulo. Foi em um clássico teste vocacional, realizado no cursinho pré-vestibular, que Ethel se interessou pelo curso de Relações Públicas. Após assistir a uma aula experimental, se apaixonou pela Faculdade Cásper Líbero, onde completou a graduação.

Desde o primeiro emprego, aos 16 anos, como assistente no consultório de um dentista, ela já foi bancária e representante comercial de uma fábrica de tintas, emprego que lhe garantia um bom salário. No terceiro ano de curso, no entanto, decidiu deixar a estabilidade de lado para buscar um estágio no que seria sua especialidade. Deu certo: começou a trabalhar na Abradif (Associação Brasileira dos Distribuidores Ford), foi efetivada e por lá ficou durante oito anos de intensa atividade.

Essa descendente de japoneses odeia a rotina e adora os novos desafios. Ao se ver no topo do plano de carreira na Abradif, exercendo a função de organizar eventos e participar de projetos de comunicação entre os revendedores da Ford, ela deu uma guinada. Decidiu abrir uma agência de comunicação em parceria com uma amiga jornalista. “Ingênuas, saímos com uma mão na frente e outra atrás para montar um negócio”, comenta Ethel com humor. Administrar a própria empresa foi difícil no começo. E diante dessa realidade nova, nasceu a necessidade de se atualizar: decidiu fazer uma pós-graduação na primeira turma do curso de Administração e Gestão de Eventos pelo Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial).

Terminando a pós, o emblemático endereço da “Avenida Paulista, 900” a chamou novamente. “Não sei se é sorte ou que raio que é”, brinca a professora. Acabava de abrir uma vaga para lecionar a disciplina de Eventos na grade do curso de Relações Públicas da Faculdade Cásper Líbero e o ex-colega da época da graduação (e então professor da instituição) Luiz Alberto Beserra de Farias a convidou para assumir o cargo.

Apesar de nunca haver pensado na carreira docente, a proposta foi aceita e, desde 2000, Ethel dá aulas muito concorrias, com sua característica da fala mansa e da gentil e eficaz cobrança por disciplina. Para ela, a busca dentro de sala de aula não é por popularidade, apesar de adorar receber feedbacks positivos dos alunos. Acontece que a criação dentro dos padrões de costumes e valores orientais marcou sua forma de ser. Sua mãe – que a fazia comer com ovos debaixo dos braços e equilibrar livros na cabeça – também a ensinou a obedecer regras e a respeitar o próximo.

Daí vem o gosto por cumprir os conteúdos programados para cada encontro com os alunos, fazer a chamada em todas as aulas e corrigir as provas com grande atenção. A professora conta que um aluno já reclamou “Ai, Ethel, como você é caxias!”, no que ela respondeu: “Obrigada! Eu entendo isso como um elogio”.

A professora já lecionou na Universidade Cruzeiro do Sul, no Centro Universitário Belas Artes, na FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado) e na FIAM (Faculdades Integradas Alcântara Machado), dando aulas nas disciplinas de Gestão, Planejamento e Técnicas de Relações Públicas. Mas Eventos é seu “xodozinho”. Mesmo assim, agora, entre o mundo acadêmico e o mercado, Ethel prioriza a sala de aula, que encara como um constante e instigante desafio.

Mas paixão mesmo, de acordo com ela, foi pelo estudo. Ao retornar a Faculdade Cásper Líbero, redescobriu o amor pela pesquisa e passou a se dedicar à academia. Fez mestrado na própria Cásper Líbero, e hoje é membro do Grupo de Pesquisa da Comunicação na Sociedade do Espetáculo. E começa a delimitar o que será a pesquisa do seu doutorado.

Suas paixões, é claro, não se limitam a eventos e ao estudo. Prestes a completar 25 anos de casada, Ethel conta que conheceu o marido César quando ainda trabalhava na Abradif e que foi, de certa forma, amor à primeira vista. “Mas não como nessas coisas de cinema, de filme”, faz questão de ressaltar entre risos. Com tudo planejadinho, o filho Pedro nasceu cinco anos após o casamento. Fora das salas de aula e do ambiente familiar, seu hobby é treinar e participar de corridas de rua.

Vice-coordenadora do curso de Relações Públicas, Ethel agora se foca para o doutorado. Apesar do semblante sério e da rigidez como professora, trata-se mesmo uma pessoa doce (ela salpicou brincadeiras durante toda nossa conversa) e planeja suas aulas como se fossem verdadeiros eventos.

Quando disse que faria minha pergunta final, a professora não poderia ter sido mais espontânea em sua resposta: “E vamos, porque já vai dar 19 horas!”. E ela não quer chegar atrasada na sala de aula.