A nova lei das 9

Por: Flávio Melo

Política e corrupção marcam estreia de Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari no horário nobre

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Edição nº 6 – 2016

Logo oficial da novela A lei do amor. Crédito: Globo/Reprodução

Escalada para substituir A regra do jogo, de João Emanuel Carneiro, A lei do amor foi trocada por Velho Chico, de Benedito Rui Barbosa. Repleta de temas políticos, que não poderiam ser abordados em um ano eleitoral, Silvio de Abreu, diretor de teledramaturgia da Rede Globo, decidiu alterar a ordem de exibição.

Estreada em três de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições municipais, a novela foi dividida em duas fases. Na primeira, os personagens Pedro (Chay Suede) e Helô (Isabelle Drummond), ambos bem construídos pelos autores, se apaixonam, mas são separados por Fausto (Tarcísio Meira) e Magnólia (Vera Holtz), pai e madrasta do rapaz. Durante os cinco primeiros capítulos, o romance entre dois jovens de diferentes classes sociais, comum nos folhetins, não frustrou o público, que ansiava por um texto menos óbvio. Já na segunda fase, vinte anos depois, Pedro e Helô, agora vividos por Reynaldo Gianecchini e Cláudia Abreu, se reencontram e descobrem que foram afastados um do outro, porém a história do casal, bem desenvolvida no início da trama, fica apenas em segundo plano.

Com a audiência abaixo do esperado, Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari tentam corrigir alguns problemas no elenco, apontados pelo telespectador. A presença acentuada de novos e jovens atores, em papéis de destaque, lembra a série Malhação, há 21 anos no ar. Tarcísio Meira, protagonista da primeira telenovela exibida diariamente no país, 2-5499 ocupado (1963), empresta seu talento a um mero político em estado de coma, vítima de um grave atentado. O mesmo acontece com os vilões, se assim podemos chamá-los. O ambicioso Ciro, vivido por Thiago Lacerda, é tão reservado, que às vezes os próprios autores se esquecem dele. Tião Bezerra, o grande pícaro da novela, não se entendeu com seu intérprete, José Mayer. O ator, conhecido por seus personagens sedutores, é inexpressivo e sussurra a maior parte do tempo, como se estivesse afônico.

O núcleo cômico também não tem funcionado. Salete, vivida por Cláudia Raia, é dona de um posto de gasolina. Com os mesmos trejeitos masculinizados, é inevitável a comparação com Donatela Fontini, que a atriz interpretou em A favorita (2008), de João Emanuel Carneiro. Já Heloísa Périssé, que teve sua personagem comparada à divertida Oda Mae Brown (Whoppi Goldberg), do filme Ghost (1990), é Mileide, uma aspirante a vidente. A única a cumprir a lei do humor é Grazi Massafera. O texto criado para Luciane, uma ex-garota de programa, tem desentediado aqueles que esperam da novela muito mais do que uma extensão do Jornal nacional.

Outro ponto que vem chamando a atenção é o descuido de Denise Saraceni e sua equipe de direção. Na semana de estreia, em uma cena gravada na estação do metrô Paraíso, câmeras flagraram os destinos Vila Madalena e Vila Prudente. As duas estações, inauguradas em 1998 e 2010, respectivamente, não correspondem ao ano em que se passou a primeira fase da novela, 1995. Além da capital paulista, a cidade fictícia de São Dimas também serve de locação e, curiosamente, faz fronteira com Arujá, Jundiaí e Santo André, municípios localizados em diferentes regiões do Estado de São Paulo.

Conhecida por remakes de sucesso, Maria Adelaide Amaral não poupa homenagens. É um dos grandes trunfos da autora, que presenteia os noveleiros mais assíduos. César Venturini (Otávio Augusto) é sobrinho de Dom Lázaro Venturini (Lima Duarte), personagem emblemático de Meu bem, meu mal (1990), que Amaral escreveu em parceria com Cassiano Gabus Mendes. Ruty Raquel (Titina Medeiros) é um tributo à Mulheres de areia (1973), de Ivani Ribeiro. Laços de família (2000), de Manoel Carlos, também foi memorada. Letícia (Isabella Santoni), diagnosticada com leucemia, lembra Camila (Carolina Dieckman), mas nem mesmo a doença tem aproximado o público da personagem, que a considera imatura e sem caráter definido.

Ágil e inteligente, o texto é a maior virtude de A lei do amor, superando todos os equívocos. Com ritmo intenso e diálogos requintados, que mais parecem crônicas, a novela perde audiência à medida que vai ganhando novos admiradores, que apreciam um folhetim de qualidade. Não é à toa que Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari fazem parte do seleto grupo de autores que escrevem para o horário mais importante da televisão. A lei é assistir.