Aventuras e devaneios de um cavaleiro andante

Por: Tania Lisboa

O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha

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Edição nº 6 – 2016

Livro Dom Quixote, Miguel de Cervantes

O livro escrito em 1605, clássico fundador do romance moderno, conta a história de Alonso Quijano, um homem comum, com aproximadamente 50 anos de idade, que levava uma vida pacata em sua propriedade rural localizada na região de Castela-La Mancha, no centro da Espanha. Esse senhor teve sua vida transformada drasticamente ao adquirir o hábito de ler livros sobre cavalaria, tal costume resultou numa perda irreversível: a do seu juízo.O fascínio pelos romances de cavalaria, como o clássico “Amadis de Gaula” que lera compulsivamente, era tamanho que decidiu imitá-los. Se autonomeia de “Dom Quixote de La Mancha”, posteriormente recebe o apelido de “cavaleiro da triste figura”, e para a execução dos seus planos ilusórios, transforma o seu pangaré num cavalo valoroso, e batiza-o de Rocinante.

Na sua primeira aventura imaginária chega numa estalagem, que acredita ser um castelo, e se depara com um homem e algumas prostitutas, e associa essas pessoas ao rei do castelo e suas donzelas. Naquela ocasião requisitou que o batizassem como cavaleiro andante e teve seu pedido atendido, por receio de contrariá-lo e aproveitando daquela situação espirituosa e teatral.

Após o seu batismo o tresloucado fidalgo parte em busca de outros empreendimentos, encontra pelo caminho alguns comerciantes que julga se tratar de inimigos, ele os enfrenta e toma uma grande surra. Muito machucado, ele resolve retornar para casa.

Quando se recupera convence o vizinho, o simplório Sancho Pança, a abandonar a esposa e os filhos sob a promessa de torná-lo governador de uma ilha, e converte-o em seu fiel escudeiro.
Os heróis da literatura tinham suas musas inspiradoras, e por isso ele inventa sua amada na donzela Aldonza Lorenzo, uma camponesa habitante de El Toboso, vilarejo vizinho, foi vista pelo sujeito pouquíssimas vezes, não trocaram palavras ou sequer tiveram o mínimo de contato, e mesmo assim tornou-se “Dulcineia Del Toboso” por quem nutria amor platônico e acreditava dever-lhe prestações de honrosos serviços.

Percorre a Espanha em busca de aventuras. Fora de si, a fantasia criada faz com que tenha uma visão distorcida dos fatos e das coisas, acredita que o mundo fictício é semelhante ao mundo real e por isso é possível realizar tais imitações.

Um dos cenários mais marcantes do livro é um estalagem, que também funciona como hospedaria, e para o cavaleiro tinha aparência de castelo, onde foram travados diversos combates, entre eles a luta de Dom Quixote com o gigante cruel, na qual afirmara que decepara a cabeça do seu rival, porém o gigante era fruto da sua imaginação e na realidade o ataque foi contra os odres de vinho do comerciante.

Ao ser alertado sobre o engano, Dom Quixote justificou-se dizendo ter sido vítima de encantamento, bem como outros episódios que sucederam por lá e que também o fizeram acreditar que o local era encantado. Outros personagens também se hospedaram na estalagem e contavam suas histórias durante a estadia. Quando questionavam sobre o cavaleiro a resposta era unânime: um sujeito que perdeu o juízo.

Em diversos momentos Dom Quixote, intelectual, e Sancho Pança, analfabeto, dialogam sobre a vida e o sentido dela. Essas conversas oscilam entre o idealismo do cavaleiro e o realismo popular de seu escudeiro.

A obra de Miguel de Cervantes Saavedra, que apresenta recursos literários que trazem proximidade com os leitores, é considerada uma das mais importantes do mundo. Em 2012, foi eleita a melhor obra de ficção de todos os tempos por uma comissão de mais de cem críticos literários de diversos países.

Cervantes e Shakespeare eram contemporâneos e foram os primeiros autores a abordar a loucura na literatura, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, e no teatro, Hamlet, respectivamente. Além da insanidade, o que o cavaleiro desvairado e o príncipe atormentado têm em comum? Convicções de justiça num mundo tão carente dela. Tais obras ultrapassaram as barreiras do tempo e continuam sendo aclamadas após mais de 400 anos de seu lançamento. Além de singulares elas resgatam um senso de humanidade muitas vezes esquecido.