Os dois lados do paraíso

Por: Flávio Melo

Vencedor do Emmy Internacional, Walcyr Carrasco escreve sua segunda novela das nove.

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Edição nº 7 – 2018

Logo oficial da novela “O outro lado do paraíso” | Crédito: Reprodução / Rede Globo

Prontas para estrear no horário nobre, Duca Rachid e Thelma Guedes foram substituídas por Walcyr Carrasco. Após o êxito de “Verdades secretas” e “Êta mundo bom!”, coube ao autor preparar uma sinopse para suceder a novela de Glória Perez, “A força do querer”. Mesmo com alguns capítulos já escritos e protagonistas escalados, a direção de teledramaturgia da Rede Globo decidiu cancelar “O homem errado”, da dupla de autoras, por considerar o enredo insatisfatório.

Exibida em 23 de outubro de 2017, “O outro lado do paraíso”, antes intitulada “Prova de fogo”, tinha como missão manter os altos índices de audiência de sua antecessora, que além de basear-se na história real de Fabiana Escobar, também criou a primeira personagem transexual em uma telenovela.

A trama, dividida em duas fases, narra a história de Clara (Bianca Bin), uma jovem professora de Quilombo, que após se casar com Gael (Sérgio Guizé) torna-se uma distinta senhora da sociedade emergente do Tocantins. Apesar de concisos, os diálogos entre o casal convenceram o telespectador sobre o romance precoce entre os personagens. Sophia (Marieta Severo), mãe do rapaz e contra a união, muda de ideia ao descobrir esmeraldas nas terras da nora, que após o nascimento de seu filho é isolada por dez anos em uma clínica psiquiátrica.

Logo nos primeiros capítulos, Carrasco polemiza e retrata a violência contra a mulher. Clara por diversas vezes é cruelmente agredida por aquele que esperava ser seu “príncipe gentil”. Para amenizar o impacto causado no público e justificar o excesso de violência, a equipe da novela decidiu divulgar, no fim de cada capítulo, o telefone da central de atendimento à mulher, 180, iniciando uma forte campanha nacional.

Perdendo audiência e em busca de números esperados pela emissora, a novela tem sido rotulada como excessiva e carente de humor, tão peculiar nas obras do autor. Outro ponto em destaque são as inverossimilhanças presentes em algumas cenas, que apesar de menos frequentes do que em outras produções, ainda assim são notadas pelo telespectador.

Casada com um embaixador, Elizabeth (Glória Pires) torna-se responsável pela morte de seu amante, o empresário Renan (Marcelo Novaes). A cena, que recebeu um tratamento irrepreensível, confundiu o público quando a personagem esqueceu sua bolsa no local do incidente, mas fugiu guiando seu próprio carro sem que a chave estivesse com ela. Natanael (Juca de Oliveira), que nunca a aceitou como nora, simulou sua morte e a fez assumir uma nova identidade, porém, nos capítulos seguintes, ela ainda transitava pelos mesmos lugares podendo ser facilmente reconhecida. Mas o grande desacerto foi quando a ex-embaixatriz, em uma banca de revistas, leu sobre sua morte na primeira página de um jornal. Com o título “Atendado na morte da mulher do embaixador?”, o texto era repleto de erros de ortografia e desprovido de qualquer concordância. Um demérito.

Mas se todo paraíso tem dois lados, certamente o elenco está no melhor deles. Marieta Severo (Sophia), que por 13 anos interpretou Dona Nenê, em “A grande família”, é a principal vilã da história. Seu texto, muito bem escrito, tem rendido ótimos momentos para a atriz. Assim como no filme “Quarteto fantástico”, Carrasco também tem o seu: Lima Duarte (Josafá), Laura Cardoso (Caetana), Nathalia Timberg (Beatriz) e Fernanda Montenegro (Mercedes). Como se já não bastasse tê-los no ar, o autor tem presenteado e comovido o telespectador com diálogos entre os personagens. Apenas Timberg não tem recebido atenção à altura de seu talento. Ségio Guizé (Gael), que recentemente divertiu o público com o seu matuto Candinho, tem atraído atenções desempenhando um jovem opressor. Já Grazi Massafera (Lívia), alvo de críticas no início de sua carreira, não titubeia ao representar uma jovem estéril vítima de um aborto malsucedido, no entanto sua caracterização, apesar de bem construída, indica alguns excessos. Até mesmo Glória Pires (Elizabeth/Maria Eduarda), que visivelmente ainda não se entendeu com suas duas personagens, cumpre bem seu papel de alcoólatra sem parecer caricata. Mas é de Eliane Giardini (Nádia), o ponto mais elevado da trama. Sua socialite racista tem indignado o público à medida que a atriz vai ganhando novos admiradores. Aliás, suas cenas com Luís Melo (Gustavo) são, até o momento, as mais divertidas. Atores como Thiago Fragoso, Juliano Cazarré, Júlia Dalávia e Fernanda Rodrigues são esperados para a próxima fase, que formará novos núcleos.

Além do elenco, a fotografia também é uma atração à parte. As imagens captadas recebem um tratamento digno de um longa-metragem e têm surpreendido o público com as belezas do Parque Estadual do Jalapão, no Tocantins. Palco escolhido para o desenvolvimento da trama, a região centro-oeste ganha destaque tanto quanto o Sudeste do país presente na maioria das novelas, que vem, erroneamente, percebendo a sociedade como unilateral. A trilha sonora é outro ponto a favor. Eclética e minuciosamente escolhida, ela reúne nomes da MPB como Elis Regina e Milton Nascimento, bandas contemporâneas como The xx e Alabama Shakes e o sucesso atual Pablo Vittar. Mas, sem dúvida, o grande acerto foi a inclusão de “Boomerang blues”, de Renato Russo, lançado em seu álbum póstumo “Presente”, em 2003. A canção, escolhida também para a abertura, parece ter sido composta especialmente para a novela. Na frase “Tudo o que você faz um dia volta pra você”, resume claramente o objetivo do autor em narrar uma história sobre cobiça e vingança.

Walcyr Carrasco e sua equipe de colaboradores já trabalham para reconquistar o interesse do telespectador. Criador de personagens emblemáticos como Félix, de “Amor à vida”, e de tramas arrebatadoras como “Alma gêmea”, o novelista promete novas histórias na segunda fase da novela, que deve ganhar mais ação e humor. Sua heroína, que promete revanche a seus desafetos, já é comparada a Nina, personagem de João Emanuel Carneiro criado para “Avenida Brasil”, assim como a disputa por pedras preciosas tem lembrado “Irmãos Coragem”, de Janete Clair, e “Império”, de Aguinaldo Silva, mais recentemente. No entanto, se Carrasco e seu diretor artístico, Mauro Mendonça Filho, forem habilidosos e souberem lapidar os contratempos, “O outro lado do paraíso” tem tudo para enriquecer o público e tornar-se uma linda joia da teledramaturgia.

Disque Denúncia | Crédito: Reprodução / Rede Globo