Administrando a mistura das culturas

Por: Rodrigo Batista

Diretor do Club Argentino de São Paulo, Rubén Duarte conta qual a responsabilidade de administrar um espaço cultural na capital paulistan

logo_arruaça

Edição nº 1 – 2014

Rubén Duarte, amante da cultura argentina e brasileira Crédito: Rubén Duarte

Rubén Duarte, amante da cultura argentina e brasileira
Crédito: Rubén Duarte

“Mi Buenos Aires querido, quando yo te vuelvo a ver” disse algumas milhares de vezes Carlos Gardel enquanto viajava em suas turnês pelo mundo e estava longe da capital argentina. Talvez, seu sentimento de fraternidade pela cidade se assemelhe ao de muitos argentinos que optam por viver em São Paulo, mas sentem falta da “ciudad del tango”.
No entanto, essa regra foge um pouco de seu rigor para Rubén Duarte, de 60 anos, diretor e representante do Club Argentino de São Paulo (o CASP). Sua vinda para o Brasil em 1993, juntamente com sua família (mulher e filhos), trouxe a vontade de estudar na USP e um novo começo em São Paulo. Sua adaptação foi considerada boa, mas admite que alguns traços culturais permanecem distintos.
O principal motivo da imigração foi a forte influência política neoliberalista que a Argentina vivia no início dos anos 90, e isso o levou a buscar novos horizontes em sua profissão, situada no ramo de comércio de produtos alimentícios.
Com alguns anos de Brasil, Rubén, por intermédio de um amigo, ficou sabendo da existência do CASP, e achou válido fazer parte dos encontros. Seu interesse pela instituição foi aumentando aos poucos, até levá-lo ao cargo de diretor do grupo. “Já havia algum desgaste na diretoria entre os sócios, e meu nome apareceu como opção. Minha entrada foi natural e sem nenhum tipo de transtorno. Realizo esta atividade com muito prazer”, disse Rubén, olhando o calendário para marcar o próximo evento.
O grupo, que tem uma média de 120 filiados, tem como finalidade trazer um pouco da cultura argentina para a cidade de São Paulo, seja no cinema, teatro, artes plásticas, música ou culinária. São realizados encontros entre os filiados numa média quinzenal, e os eventos são completamente variados. Aulas de tango ministradas pelos próprios membros, jantares em restaurantes latinos, encontros em residências para exibição de filmes argentinos, entre outros.
Perguntado sobre a responsabilidade de administrar um grupo que traz a cultura de outro país para a população tanto argentina como brasileira, Rubén, que já ocupa o cargo há cinco anos, afirmou que a função requer muito conhecimento e força de vontade de todos os membros. As atividades são completamente interativas e precisam contar com a amizade entre as pessoas envolvidas.
Sentado em seu escritório, Rubén planeja o próximo evento do CASP. Parece motivado. Exala clara paixão em fazer parte de uma forma tão influente do grupo, e não esconde seu apreço pela cultura argentina. Sabe de sua responsabilidade para com a essência dos eventos, mas não se sente pressionado.
Sua maior relação com o Brasil é a diversidade cultural e a miscigenação ente os povos. Não pretende voltar ao bairro Once (local onde morava em Buenos Aires). Foi aqui que construiu sua vida, e é daqui que afirma não querer sair.
Amante dos livros de literatura brasileira e argentina, e de filmes de quase todos os gêneros, Rubén se distrai nas horas vagas com alguns destes passatempos, mas prefere quando está planejando o próximo encontro com os amigos.
Não vê muita diferença entre a mídia brasileira e a argentina, mas não esconde sua péssima relação com os veículos de comunicação. Uma vez que procurados (o CASP), sempre dão um jeito de colocar a rivalidade entre os países em ênfase – disse. É cansativo, considerando seu cargo no grupo, falar sobre assuntos como estes, e as perguntas são sempre as mesmas: “Como foi pra vocês perderem a final do campeonato para o Brasil? Como vocês lidam com a rivalidade entre nossos povos?“. De uma forma clara de compreensão, os membros são moradores de São Paulo e gostam de estar aqui. Não possuem qualquer tipo de distinção entre os povos e apreciam também a cultura brasileira.
Sua relação com os brasileiros do grupo é ótima, e se estende por muitos anos. Em geral, apreciam a cultura argentina e não carregam traços de rivalidade. Pelo contrário. Sentem orgulho e prazer de estarem desfrutando de muitos costumes com os companheiros.
Seu dia-a-dia se baseia em trabalhar, e gastar o tempo vago se dedicado à sua família e ao CASP. Não carrega qualquer sentimento de obrigatoriedade com sua responsabilidade cultural, e sempre busca novas ideias para o entretenimento dos filiados. Onze reais mensais são as contribuições dos membros, além do apoio de sócios que patrocinam alguns dos eventos e do Consulado Argentino de São Paulo.
O CASP investe no cinema (Cine Allá: encontros em casas de participantes para apreciação de filmes argentinos); no teatro (encontros realizados quando peças latino-americanas estão em cartaz); na literatura (palestras realizadas periodicamente sobre o reconhecido escritor Jorge Luís Borges, no Instituto Cervantes); e na música (conta com o apoio do músico Eduardo Escalante, membro da Academia Paulistana de Música, professor em sua academia localizada no bairro dos Jardins, e mestre em artes pela ECA/USP); entre outras atividades como os encontros de culinária (jantares em restaurantes argentinos) e exposições de artistas argentinos (geralmente realizadas uma vez ao ano no Memorial da América Latina, com curadoria de Sr. Oscar D `Ambrosio).
Rubén acredita que as pessoas possam se adaptar em qualquer lugar, e considera o CASP apenas mais um grupo de manifestações culturais. “São Paulo, tão grande e cosmopolita, recebe muitas outras influências, e é isso que a torna uma cidade tão bela”, afirma.
O nível de amizade entre os participantes é muito bom, e uma das atividades mais requisitadas do grupo é o “Tango Tán” (atividade que reúne um conjunto de pessoas para conversar e escutar tangos, acompanhados de empanadas e vinho argentino). Nela os participantes que sabem dançar ou que sabem poucos passos ensinam aos novatos os primeiros passos, mas o intuito não é a técnica de dança, mas sim fazer amizades.
Modestamente, Rubén não acha que sua trajetória como organizador de um grupo cultural seja relevante. “O que faço é auxiliar nas atividades que incentivam a irmandade entre os povos da América Latina e do mundo. Creio que é o mínimo que qualquer argentino possa fazer para dar um retorno à educação que recebemos de graça em nosso país”.
Ao final da entrevista, entusiasmado com o recado que deixaria para as pessoas que lerem seu perfil, Rubén colocou a mão no peito num ato involuntário para dizer que realiza este trabalho com total prazer, e que a única coisa que espera com a iniciativa é unir a cultura entre os povos, além de relembrar todas as tradições deixadas pelos argentinos do grupo.
É, sem dúvida alguma, visível o apego dos membros e de seu diretor pelas tradições do país, o que faz lembrar uma frase inesquecível de uma das pessoas mais influentes desta cultura argentina: “Carlos Gardel, onde você nasceu?” – perguntou o repórter (devido aos rumores de sua naturalidade uruguaia ou francesa). “Nasci aos dois anos de idade em Buenos Aires”, respondeu o maior nome do tango mundial.

Foto 1:
Crédito: Rubén Duarte
Legenda: Rubén Duarte, amante da cultura argentina e brasileira