Periferia no centro desmistifica fronteiras

Por: Mirtes Anjos de Lima

A produção literária à margem de São Paulo cresce à medida que a reflexão sobre os problemas sociais se torna latente

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Edição nº 4 – Janeiro de 2016

 

São Bernardo do Campo fica a quase 40 km de distância do Jardim São Luís, bairro que tem como ponto turístico o bar do Zé Batidão, sede de um dos saraus mais famosos da periferia de São Paulo, a Cooperifa – Cooperativa Cultural Paulistana. Entre as duas extremidades, são em média três horas de ônibus, uma hora e meia de carro. Buracos, luz baixa, pouca sinalização e uma característica comum: saraus de poesia.

Longe da Cooperifa, do Sarau do Binho, do Buzo, da Brasa, Elo da Corente e dos demais grupos já reconhecidos no movimento da literatura periférica, há verdade: “A palavra luta para não ser silêncio”. A frase de Mia Couto, rascunhada em um livro exposto na estante, serve como estímulo para o trabalho dos coletivos.

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Edição Sarau do Fórum em Outubro de 2015 | Foto: Amanda Lopes

Mesmo com a distância, o público que também é atuante, não poderia ficar de fora. A estante com livros à disposição fica no Sarau do Fórum, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, município que também tem o representante no circuito de saraus de literatura.

Na última quinta-feira do mês, a palavra toma conta da noite e é a atração principal do Sarau, que traz como ponto de referência a parada de ônibus do fórum da cidade. Criado em 2010, proporciona um contato com a literatura e outras formas de cultura, no centro da cidade. Localizada em uma importante via de acesso, a sede oficial do evento é o espaço PMMR – Projeto Meninos e Meninas de Rua.

Com dinâmica lúdica e o palco aberto a quem quiser participar, o espaço é frequentado quase que religiosamente. “Por aqui os saraus surgiram para ser o palco dos sem palco”, afirma o autor Alessandro Buzo, que organiza o Sarau Suburbano Convicto, um dos mais populares na região central de São Paulo.

 

 

As vozes
Folha de papel em mãos, a menina tímida lê palavras que remetem ao cabelo crespo, ao preconceito e amizade. Ela nem se deu trabalho subir ao palco. Após ser aplaudida, consegue ler seu desabafo contra o preconceito racial, deixando claro que, mesmo jovem, já tem coisas a dizer. “Acho importante ver algo construído à margem da literatura acadêmica ganhando o mundo. Isso incentiva outras pessoas a produzir. Produção, seja de onde ela vier, tem que circular, ser acessível a todos”, conta Amanda Lopes, fotógrafa e integrante do coletivo que organiza o sarau.

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O autor acompanhou a declamação da participante | Foto: Mirtes Anjos de Lima

A faixa etária é diversa, desde crianças de colo, até senhoras que com disposição aguardam “a deixa” para recitar. Aos poucos, a noite vai ganhando ritmo, os poemas surgem como respostas. Os autores clássicos dão passagem aos desconhecidos. Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Akins Kinte, Elizandra Silva, Allan da Rosa, Machado de Assis, Sergio Vaz e Marcelino Freire. Os textos são lidos em livros, usando o improviso ou deslizando a tela do celular. Na leitura, alguns poemas e textos de tão conhecidos da plateia são recitados quase em forma de coro. Foi assim com Solano Trindade, Eduardo Galeano e Ba Kimbuta, poeta e músico da casa.

O artista iniciou a carreira no começo dos anos 1990, frequentando clubes de música e bailes de garagem no ABC Paulista. Na cena Racionais, DMN e GOG se destacavam. Ba se identificava com o que era tocado em casas como Clube Halls e Showpapo, e ali despertava o desejo em escrever. “Eu vejo uma força muito grande na palavra, tem uma transformação na vida das pessoas. O que a gente escreve é muito sério, realmente toca as pessoas, faz sentir, transformar e pensar”, declara, pensativo, enquanto mexe o bigode.

Os artistas que eram ouvidos por Ba viraram referência e colegas de palco, já que arte de periferia proporciona essas situações. Na bagagem de livros marcantes, ele relembra a biografia de Fela Kuti, Uma vida puta, e a autobiografia de Malcolm X, por Alex Haley. “Ele tem estrada e bagagem, por isso é tão aguardado” conta a moça, quase pedindo silencio. Colaborador assíduo do Sarau do Fórum, Ba tem as letras acompanhadas com palmas. Em sintonia com a plateia conclui: “De ventre livre e emancipado, mas nunca mais nas condições de escravo”.

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Thiago Peixoto lançando o livro “Passageiro da linha tênue” | Foto: Amanda Lopes

Ba dá passagem à apresentação seguinte, um conto com cunho feminista de Priscila Preta, da Capulanas Cia de Arte Negra, contextualizando o objetivo de integração e reflexão. Quem levou a obra para o palco foi uma adolescente branca de olhos claros. Escondida atrás de um livro, uma mulher recita outro poema, sentada na plateia, porém com firmeza. No término, a tradicional pausa na hora de revelar o nome do autor: “Thiago de Freitas Peixoto”. Em seguida a surpresa, ele estava sentado ao lado da leitora e pôde agradecer-lhe pessoalmente por toda a sensibilidade na hora de declamar.

Thiago é poeta organizador do Slam do 13 e um dos idealizadores do coletivo Poetas Ambulantes, que atua distribuindo poemas nos trens e metrôs. Autointitulado “autor em movimento”, é frequentador da Cooperifa e de vários saraus em todo o país. Ele percorreu a distância até São Bernardo do Campo, evidenciando que, quando se quer, “não há limites para propagar um sonho”. E aproveitou a ocasião para lançar o livro Passageiro da linha tênue, publicado em agosto de 2015, com produção independente.