Psicopata em construção

Por: Suellen Fontoura

Série Bates Motel reinventa o clássico Psicose em uma dissecação da mente humana e seus distúrbios

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Edição nº 6 – 2016

Série Bates Motel. Crédito: A&E

Uma jovem mulher se prepara para o banho, a água escorre por seu corpo, a cortina é aberta, violinos gritantes, uma faca, um grito agudo, sangue e água se misturam e escorrem pelo ralo. Em 45 segundos, com 70 posições de câmera e cortes rápidos, Marion Crane é esfaqueada até a morte em um banheiro de hotel de beira de estrada. A conhecida cena do filme Psicose, dirigido por Alfred Hitchcock, em 1960, é inspirada no romance homônimo de Robert Bloch. A primeira a ser acusada pelo assassinato é Norma Bates, uma idosa desequilibrada que dependia dos cuidados de seu filho o solitário Norman. É só no final de Psicose que descobrimos a chocante verdade.Desde então, apesar de diversas reprises, imitações e paródias, Psicose é dado como um caso resolvido, até o momento em que surge Bates Motel, uma série de televisão americana, produzida pela Universal Television e exibida pela A&E. A série é uma releitura moderna do clássico e retrata a vida de mãe e filho anos antes do famoso assassinato. Atualmente quatro temporadas foram veiculadas, a quinta e última deve estrear em 2017 e trará o grand finale, terminando justamente com a história de Psicose. Mas afinal, quem segurou aquela faca e quem essa pessoa desejava, realmente, matar? Engana-se quem pensa que saber o final da história não trará satisfação em conhecer o seu começo e os seus meios.

Série Bates Motel. Crédito: A&E

A série começa com a chegada de Norman Bates, com então 17 anos, e sua mãe, a viúva, Norma Bates, na cidade de White Pine Bay, no Oregon, Estados Unidos. Com o dinheiro do seguro de vida do marido, que morre em um suspeito acidente doméstico, Norma compra um hotel e decide recomeçar gerenciando o lugar com a ajuda do filho. As atuações primorosas de Vera Farmiga, que interpreta Norma, e Freddie Highmore, que encarna o conturbado Norman, merecerem destaque. Juntos, em uma interação única, os atores recriam a complexa trama de dependência mútua entre uma mãe desequilibrada e seu filho psicótico.

Em uma relação extremamente complexa e possessiva, que tange o incesto, mãe e filho sentem ciúme extremo um em relação ao outro. Norma chega a espionar a garota com quem seu filho teve a primeira experiência sexual. Em outra cena o filho vê a mãe, que se preparava para um encontro, vestida com uma lingerie preta – envergonhado, ele desvia o olhar e Norma o repreende: “Sou sua mãe, não é como se fosse esquisito nem nada”. A relação é marcada pelo chamado Complexo de Édipo, termo criado por Freud, que designa um conjunto de desejos e sentimentos de amor e ódio de um filho direcionados à figura materna. O próprio Norman, aos 40 anos, chega a essa conclusão no livro de Bloch: “Mãe eu só queria explicar uma coisa à senhora. É que eles chamam de Complexo de Édipo. Achei que nós dois pudéssemos examinar juntos racionalmente o problema e tentar compreendê-lo, talvez as coisas mudassem para melhor”.

Mesmo sendo uma releitura, Bates Motel apresenta uma trama própria, sustentada por elementos intrínsecos ao enredo de Psicose: o suspense e o mistério. A cidade pequena é enredada em uma complexa trama de atividades criminosas e ilícitas e próprio hotel funciona como uma personagem com um passado sombrio. Um ponto negativo, porém, é a forma como questões complexas são facilmente resolvidas, de uma forma simplista e sem grandes consequências.

No desfecho de Psicose somos apresentados às diversas personalidades de Norman Bates. Em Bates Motel podemos acompanhar como essas personalidades se manifestam, suas origens e as situações que as desencadeiam. Na maior parte do tempo, Norman é um adolescente comum, com dificuldades de socialização e excessivamente protegido pela mãe. O Norman agressivo surge em situações em que a mãe é agredida ou desrespeitada, nesses surtos ele apresenta extrema força e é capaz até mesmo de matar para proteger Norma. Em outro tipo de surto Norman age a partir de comandos que ele acredita serem ordens dadas pela mãe. Depois desses ataques, o jovem fica ausente, tem um apagão e não se lembra de nada do que fez ou falou.

Série Bates Motel. Crédito: A&E

Bates Motel funciona como um convite para explorar os cantos obscuros da mente e da natureza humana. Mães controladoras, filhos dependentes, sexualidade reprimida, ficção e realidade se misturam. A própria história do livro de Robert Bloch foi inspirada em um criminoso real, Ed Gein, condenado por dois homicídios e suspeito de diversos desaparecimentos. Assim como Norman, Ed foi criado por uma mãe dominadora que o impedia de ter amigos e dizia que todas as mulheres eram prostitutas e instrumentos do diabo. Já o ator Anthony Perkins, que aos 28 anos interpretou Norman em Psicose, tinha uma relação muito dependente com a mãe, o que prejudicou sua vida particular e seus relacionamentos amorosos. O mestre do suspense Alfred Hitchcock também guardava semelhanças com o perturbado Norman, casado, mas sexualmente frustrado, o diretor tinha obsessões e paixões platônicas pelas estrelas que trabalhavam em seus filmes. A atriz americana Tippi Hedren, de Os pássaros (1963), acusou Hitchcock de assédio sexual em sua autobiografia, lançada em novembro, segundo a atriz o diretor a intimidava e a perseguia. Assim, a ficção se mostra muito mais próxima da realidade do que mera imaginação. Nas palavras do próprio Norman Bates: “Todos nós somos um pouco loucos de vez em quando”.