Desmitificação do mito

Por: Paulo Ferreira

O topo da montanha trazer um Martin Luther King bastante verdadeiro para os palcos brasileiros

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Edição nº 6 – 2016

As últimas horas de vida do ativista político norte-americano Martin Luther King Jr. é o mote para o drama encenado pelos atores Lázaro Ramos e Taís Araújo. O topo da montanha, adaptação brasileira do texto de Katori Hall, merece a atenção e a grande presença de público que tem recebido em vários estados do país. Os espectadores facilmente podem se render a cada fala e cena que relatam o bom combate pela defesa dos direitos civis dos negros na década de 1960. Como de conhecimento geral, o pastor foi assassinado na noite de 4 de abril de 1968, num hotel de Memphis, no estado do Tennessee, pouco antes de um discurso na cidade. Atuação marcante de dois dos mais famosos atores brasileiros da geração contemporânea do teatro nacional evidencia os passos e crenças do líder negro para concretizar o seu sonho de promover a igualdade étnica e de oportunidades numa sociedade segregada. Seria provável que a sinergia apresentada no palco decorra do casamento de Ramos e Araújo. Mas é certo dizer que Taís Araújo, recentemente vítima de discriminação nas redes sociais, rouba o protagonismo daquele que seria o personagem principal. A atriz dá o tom e ritmo à peça. Cabe a eterna Xica da Silva desmitificar o mito Luther King e mostrar que grandes homens, apesar dos seus feitos, não passam de seres humanos. Por isso, são errantes. E, da mesma forma, merecem perdão por seus pecados e uma nova chance. A queda de King é o terceiro pecado capital tentação da carne, a luxúria e a cobiça do corpo da mulher. E, claro, a predilência pelo fumo. Duas práticas inconcebíveis para os seguidores de um líder espiritual. De qualquer maneira, o espectador deve se despreender de julgamentos e preconceitos para refletir sobre as ideias e mensagens que a peça visa transmitir. Entre elas, a de que ninguém é insubistituível. Mesmo diante da morte, um trabalho bem feito pode e deverá ter sua continuidade se houver quem siga ideiais semelhantes. E, outra, aqueles fieis à divindade, certamente entenderão que este ser superior traz ao convívio dos mortais pessoas capazes de formar lideranças e discursar a favor do respeito mútuo, da paz e da tolerância. Aos ateus, a mesma mensagem poderá ser compreendia, mas o levante de vozes em tempos inóspitos e perigosos para a democracia e igualdade social talvez seja resposta a pensamentos retrógrados, preconceituosos e discriminatórios. Muito provável que o sonho do líder negro em promover a igualdade étnica na sociedade esteja muito longe de se tornar uma realidade plena. Mas, certamente a mensagem precisa ser contínua em debates e políticas públicas. Ter dois atores negros à frente como protagonistas de uma peça que relata o movimento negro é certamente uma conquista essencial. Infelizmente, Lázaro Ramos e Taís Araújo ainda são exceções no teatro brasileiro – pelo menos aquele patrocinado e realizado em ambientes da elite nacional. Dica final, os espectadores que chegam mais cedo ao local podem se deparar com uma surpresa dos atores pouco antes de a peça iniciar.