José Luís Peixoto e seu livro: um experimento Pós-Moderno

Por: Patricia Almeida

Autor português se destaca por meio de um intenso trabalho com e na linguagem

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Edição nº 6 – 2016

Observa-se, na primeira década do século XXI, uma época de ouro do romance português. Desde o fim das gerações Orfeu e Presença, que foram presenteadas com o brilhantismo poético de Fernando Pessoa, e o início do neorrealismo, no pós-guerra, a literatura portuguesa vive um período de intensa produção de qualidade notável.

Livro
, de José Luís Peixoto, assim como muitas obras literárias, ganha novas possibilidades de compreensão e interpretação quando há um prévio conhecimento do contexto histórico abordado no enredo. Neste caso, informações acerca da ditadura salazarista, o conhecido Estado Novo português (1933-1974), auxiliam-nos na leitura do romance, que evidencia alguns marcos cronológicos. Antonio Salazar, cujo nome deu origem ao termo salazarismo, impôs uma política em Portugal com traços inspirados no fascismo italiano. Apesar de não ter vivido durante esse período, José Luís Peixoto carregou-o antes mesmo de ter nascido, já que seus pais imigraram para a França no início dos anos 1960. Em Livro, José Luís Peixoto, ao abordar o pós-74, não escolhe falar somente da opressão da ditadura, da guerra colonial, da descaracterização do povo, das dificuldades do interior, mas opta por abordar todas essas questões, por vezes de maneira superficial, e ainda se atenta a inserir no romance outros aspectos, como a emigração portuguesa a terras francesas. A opressão ditatorial, por exemplo, na obra é enfrentada no dia a dia dos moradores da vila, que eram obrigados a entregar quantias em dinheiro às autoridades para a construção de um posto de guarda.

Livro também interpela o leitor por meio da visão criativa do pós-moderno, que já não se satisfaz com a apresentação de uma história linear e previsível; interessa-lhe, dialogando ironicamente com o passado histórico, literário e cultural, inovar pelo lado da reflexão metaliterária.

No romance, Ilídio, então com seis anos, é abandonado pela mãe, deixado com apenas uma mala e um livro, tendo narradas as suas percepções diante do mundo, sozinho, observando o objeto que tem em mãos e a vila desconhecida que está à sua volta. Depois da noite em que ele é abandonado, em 1948, o romance percorre sessenta anos da história portuguesa – chegando até os dias atuais.

À primeira vista, somos levados a acreditar que estamos diante de uma história de superação (tanto do abandono, quanto das limitações sociais) ou de um mistério envolvendo o livro. Contudo, não se trata apenas disso. Até mesmo o título da obra, Livro, e o objeto entregue ao menino, um livro, assumem uma terceira caracterização, de mesmo nome, ainda mais intrigante.

A obra é dividida em duas partes, e é no início da segunda que a obra se desdobra em si mesma. Tomamos conhecimento do narrador, o qual até então pensávamos ser um simples narrador onisciente, mas que, de fato, é o fio condutor da história. Ao leitor, que até então exercia um papel passivo, como um mero espectador da narrativa realizada por um narrador onisciente, é exigido a participar da construção do romance, de sua construção textual, chegando a exercer o papel de coautor. Tal qual ocorre em Se um viajante numa noite de inverno, de Italo Calvino, cujo início é: “Você vai começar a ler o novo romance do escritor Italo Calvino, Se um viajante na noite de inverno. Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a sua volta se dissolva no indefinido” (CALVINO, 1999, p. 11). Em Livro, temos: “Este livro podia acabar aqui. Sempre gostei de enredos circulares. É a forma que os escritores, pessoas do tamanho das outras, têm para sugerir eternidade. Se acaba conforme começa é porque não acaba nunca. […] Mas tu ainda estás aí, olá, eu ainda estou aqui” (PEIXOTO, 2012, pp. 281-282).

O romance realista poderá dar ao leitor uma sensação de completude e de que a ação do homem é completa. Contudo, a ficção pós-moderna, como vemos, por exemplo, em José Luís Peixoto e Italo Calvino, poderá sugerir não apenas como uma insegurança diante de um mundo cheio de mudanças, mas também como uma nova visão diante da escrita: é possível criar uma nova ordem, mesmo que ela seja por analogia, por meio da construção ficcional. Ambas as obras rejeitam a noção do escritor como gênio ou deus; ele é uma construção social tal qual o leitor.

Livro
também leva o leitor a desenvolver uma visão crítica da modernidade, já que não se submete a uma narração linear e previsível. Interessa-lhe realizar um diálogo com o passado, tanto histórico quanto literário e cultural, inovando, dessa forma, pela reflexão metaliterária. Para o narrador, tudo está em julgamento, assim como em movimento e constantes transformações: a sociedade, o pensamento, o homem e a própria literatura.

José Luís Peixoto, por meio de uma literatura moderna e metaficcional, leva a obra e o seu leitor rumo a uma experiência estética nova, a um questionamento dos papéis e funções dentro da obra lida. Assim, a literatura deixa de ser um lugar de construção da ficção e torna-se um espaço no qual coabitam o real e aquilo que achamos ser real, o qual leva a uma indagação: a literatura é pura ficção? Com bem observamos em Livro, a divisão entre real e não real é perene, uma questão muito abstrata.

Serviço
Obra:
Livro
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Companhia das Letras
Edição: 1
Ano: 2012
Nº de páginas: 288