Menina que vem e que passa

Por: Paulo Henrique Ferreira

Sobre Mariazinha Tiro a Esmo, de João Antônio

logo_arruaça

Edição nº 6 – 2016

Se o Brasil é reconhecido mundo afora pelas belezas naturais, o Rio de Janeiro é, sem dúvida, a cidade que representa o país. Se o Brasil é famigerado por índices de violência, o Rio de Janeiro também é preposto. Você, leitor, poderia abrir as páginas de qualquer jornal brasileiro. Seria quase tão certo encontrar notícias sobre a violência carioca. Uma vez ou outra, até lendas são factuais. João Antônio, jornalista e escritor, teve a capacidade de mesclar o real ao imaginário, a arte à vida e a vida à arte. Num dos seus contos, Mariazinha Tiro a Esmo, da obra Sete vezes rua, relata uma história que não é única e se repete desde as épocas da Terra de Vera Cruz. Expõe como as mulheres são marginalizadas numa violência sistemática na qual o único valor de sua vida é o valor do seu corpo. Valores e morais que podem ser exploradas por outras mulheres, quem sabe vítimas desta mesma violência, as quais replicam as mesmas práticas no tempo após tempo. O texto incomoda. Incomoda porque o leitor sabe que não se trata de pura imaginação. Pode não ser o mais puro retrato da realidade, mas recorta o abismo da insolência humana. Branca, se esse era o seu nome, foi condicionada a viver de esquina em esquina, menina negra já cobiçada, desde antes, pelos olhos masculinos nas rodas de samba. Seria culpa dela a atenção voraz e feroz, poderiam dizer alguns homens para justificar o maculado ato. O pai, de quem apanhava, era bêbado, e a mãe, de que pouco se sabe, cafetina. Não era o fruto de uma pisadela e beliscão. O primeiro namoradinho se fez assassino, e possivelmente vendia a marvada para o pai da moça. Copacabana, Ipanema e Leblon não eram luxo. Eram necessidade. Se de lá, podia ganhar o pão de cada dia, ali certamente não seria apedrejada como Madalena. Só não poderia se arrepender, pois numa sociedade viril e militar, o último direito da mulher negra e pobre é o perdão pelos seus pecados, se pecados assim o fossem. A verdade é que se engana quem pensa que a arte precisa ser bela, para ser apreciada. Enquanto Tom e Vinícius tentam, cinco anos antes do lançamento da obra, trazer aquilo que a cidade maravilhosa tem de melhor, João Antônio desmistifica a cidade maravilhosa. Quisera a personagem ter a chance de perceber que, independentemente de quem fosse ou do que fizesse, o mundo inteirinho poderia se encher de graça. Não pelos seus atos, não pela sua roupa. Mas, pelo simples fato de ser mulher. Mulher, que precisaria de uma vida digna e não de protetores malfadados. Mas como eu e você bem sabemos, se branca realmente fosse como seu nome é, já seria há muito a beleza que existe sob o sol de Ipanema.