Um filme fora dos trilhos

Por: Flávio Melo

Tate Taylor dirige Emily Blunt em suspense apático e previsível

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Edição nº 6 – 2016

Cartaz nacional de A garota no trem. Crédito: Universal Pictures

No momento em que muitos discípulos de Alfred Hitchcock têm adaptado best-sellers de suspense para o cinema, o diretor Tate Taylor, do aclamado Histórias cruzadas (2011), não repete o mesmo êxito ao adaptar o thriller psicológico A garota no trem, escrito pela jornalista Paula Hawkins. Depois do sucesso de público e crítica de A garota exemplar (2014), de David Fincher, a produção de Taylor, que custou cerca de 40 milhões de dólares, prometia ser o mais novo triunfo do gênero. Estreado em 27 de outubro, nas principais salas de cinema do país, o filme apresenta um roteiro que não instiga o espectador, como Hawkins instigou mais de 10 milhões de leitores no mundo todo.

O filme conta a história de Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra que não se conforma com o fim de seu casamento com Tom (Justin Theroux), que a trocou por Anna (Rebecca Ferguson). Deprimida e sem trabalho, seu único passatempo é viajar de trem, enquanto observa a vida de Megan (Haley Bennett) e Scott (Luke Evans). Com o passar do tempo, cada vez mais envolvida com eles, Rachel é capaz de descrever os gostos e as preferências do casal, mas sua percepção muda quando descobre que Megan e seu psicólogo, Kamal Abdic (Édgar Ramírez), são amantes. Dias depois, Megan desaparece misteriosamente e Rachel, ao investigar o caso, torna-se ré de um crime que apenas testemunhou.

Emily Blunt não apresenta sua melhor atuação. Seus olhos amedrontados, acompanhados de uma voz sempre embargada, convencem bem menos do que sua caracterização, composta de roupas largas e cabelos desgrenhados. O mesmo acontece com Haley Bennett, que desperta o interesse do público, mas perde a relevância ao ponto em que suas cenas de nudez tornam-se excessivas. Já os personagens masculinos, exceto o de Justin Theroux, acabam enfraquecidos no decorrer da narrativa, terminando sem finais definidos. Dentre eles, a melhor atuação é de Édgar Ramírez. O único, inclusive, a estimular a curiosidade do espectador.

Ambíguo e previsível, até mesmo para aqueles que não leram a obra original, o filme, que é um festival de flashbacks desconcertantes, transmite a nítida sensação de que duas histórias estão sendo reproduzidas ao mesmo tempo, sem nenhuma conexão entre si.

A garota no trem está longe de ser um filme ruim, mas Taylor, tampouco menos competente como diretor, não cumpriu a proposta de um suspense atrativo e envolvente.