A minha MTV Brasil

Por: Luís Thunderbird

A emissora, que encerrou suas atividades na TV aberta em setembro, revolucionou o modo de ouvir música e, durante 23 anos, influenciou gerações

 

 

Foi no ano de 1989 que os primeiros movimentos para fundar a MTV Brasil começaram. Pelo menos, no que me diz respeito. Eu havia desistido da Odontologia há 2 anos, determinado a fazer parte do “maravilhoso mundo do rock”. Estava trabalhando em uma agência de publicidade, como redator, fazendo com que as pessoas comprassem
aquilo que nunca imaginavam ser essencial para suas vidas.

Os videoclipes

A publicidade foi de grande ajuda, pois meu salário bancava minhas aventuras com minha banda, os Devotos de Nossa Senhora Aparecida, fundada em 1986. E a banda ia muito bem, ganhando destaque no underground, apresentando-se na TV, chamando a atenção de algumas pessoas. Uma delas foi o Dodi, diretor de comerciais de TV, que me escalou em boas peças publicitárias. Quando a Abril começou a procurar por candidatos à VJ, eles já sabiam da minha existência. Foram disfarçados num show dos Devotos no Espaço Retrô e me viram no TV daTribo, programa de Tadeu Jungle na Band. Eles me convidaram para todos os testes, que foram por mim ignorados. Até o dia em que, de surpresa, fiz um teste de vídeo e eles me levaram numa sala e me mostraram um contrato com meu nome nele. Assinei sem ler, confiei que seria divertido e interessante. E foi, muito!

Desde o início, acreditei que fazia parte de algo especial. Os ensaios de vídeo, a novidade dos clipes, o universo daquela emissora mágica, que fazia com que as pessoas não conseguissem desligar a TV ou mudar de canal. Lembro que saía com os amigos e, nos bares, restaurantes, sempre tinha a MTV ligada. E foi uma novidade que mexeu com todos. Os videoclipes, o estilo dos VJs, a estética, a liberdade com que a gente trabalhava e se expressava na tela.

Os acústicos

A música ganhou muito com a chegada da emissora. Os clipes mostravam os artistas, lançavam os novos discos, muita gente boa começou com a MTV. Lembro de alguns fenômenos com os quais tive o prazer de estar envolvido. A chegada ao Brasil do Grunge, a descoberta do Manguebeat, o aparecimento dos Raimundos, tudo muito rápido e intenso. As rádios ficavam de olho nos lançamentos e, imediatamente, acompanhavam as novidades. Nossas peças promocionais espetaculares seduziam o mercado televisivo e publicitário. Vem desde essa época a frase “…isso é bem MTV, né?”.

Em pouco tempo, a MTV fazia parte do cardápio nacional. Já em 1993, a Rede Globo reverenciava a MTV com o personagem Thunderdog, um cachorro VJ que estrelava na TV Colosso. A Globo começou a assediar os VJs e levou alguns pra dar uma voltinha. Maria Paula (1993), eu (94), Casé (2000).

Vieram os VMBs (Video Music Brasil), a grande premiação musical, disputada por grandes estrelas, que acabou revelando grandes novidades. Sempre! As festas do VMB sempre foram objeto de desejo, afinal, nelas encontrávamos gente bacana, artistas, bebida e loucura da melhor qualidade! Os Acústicos MTV deram novo impulso a uma série de bandas. Titãs, Ira!, Barão, Cássia Eller. Chegou um momento que todos queriam gravar um Acústico MTV: Rita Lee, Zeca Pagodinho, Legião Urbana, Charlie Brown. Apresentei alguns deles, inclusive o do Rei Roberto Carlos!

O legado

E a MTV continuou inovando, desafiando a caretice televisiva com campanhas incríveis, provocando, tirando sarro de si mesma. Tive quatro passagens pela MTV e, até essa última (2011-2013), me diverti muito trabalhando ali. Nos últimos meses, estávamos quase acreditando que aquilo nunca iria acabar.

E, no último dia 30 de setembro de 2013, fui pra rua Alfonso Bovero, 52, Sumaré, São Paulo, para assistir aos últimos momentos com os funcionários que restaram. Não eram muitos, mas todos muito apaixonados por aquilo tudo. A gente se abraçou, chorou, comemorou a história bonita que fizemos juntos.

A MTV deixou, sim, um legado. Foi ali que eu aprendi a fazer televisão, foi ali que muita gente aprendeu a fazer televisão. Gente que está, nesse momento, em outras emissoras, levando um pouco do DNA da MTV. É só prestar um pouco de atenção e ver que “aquele programa é bem MTV”. Que aquela apresentadora começou lá. Que aquele sujeito que você gosta tanto também passou por lá. Tanta gente bacana, que está por aí, fazendo outras coisas, que, tenho certeza, nunca vai esquecer as coisas que realizou na MTV.

Nós fizemos uma televisão incrível. Com toda certeza, fizemos história! E eu tenho o maior orgulho de ter feito parte dessa trajetória. Obrigado, MTV Brasil!