Poder do público

Por: Leandro Saioneti

O sistema de financiamento coletivo ganha adeptos no Brasil e viabiliza projetos independentes, estreitando as relações entre os autores e o mercado

 

 

Imaginação e criatividade. Desde as primeiras pinturas nas cavernas e a descoberta do fogo, esses dois componentes subjetivos têm-se mostrado importantes ferramentas naturais na formação da cultura humana. O quadro As Meninas, de Velázquez, a Nona Sinfonia, de Beethoven, os versos de Paulo Leminski e as canções do “poetinha” Vinícius de Moraes são apenas alguns exemplos.

O processo de criação, independentemente da área e da extensão, parece não encontrar limites. Da produção de um cordel para crianças a uma roda de samba no Rio de Janeiro, passando por uma websérie sobre um apocalipse zumbi, o ato de criar vive uma época de expansão na qual a “liberdade de pensamento” é algo palpável.

Mas, infelizmente, tanto a imaginação quanto a criatividade perdem força frente a um obstáculo dos tempos modernos: a burocracia do capital. A maioria dos projetos independentes – muitos deles originais – de literatura, dança e cinema, por exemplo, tem pouco ou nenhum auxílio financeiro, seja por parte do setor privado, seja por parte do Estado.

Muitas vezes, os próprios autores têm de aplicar o recurso para que os trabalhos cheguem ao grande público – e este, por sua vez, sempre afogado por produtos da indústria de massa, acaba desconhecendo uma enorme variedade de obras de bom conteúdo. Mas já existe um caminho alternativo para tentar minimizar esse problema: o crowdfunding.

A alma do negócio

Referido no Brasil como financiamento coletivo, o crowdfunding é um sistema que permite que autores postem em determinados sites os seus projetos (majoritariamente independentes), que, assim, tornam-se visíveis para os usuários da rede. Se a ideia parecer interessante, as pessoas podem dar uma contribuição em dinheiro para ajudar o autor.

“O que fazemos, de fato, é cobrir as lacunas, falhas e vícios dos sistemas clássicos de financiamento. Entramos onde falta agilidade e sobra burocracia”, diz Felipe Caruso, coordenador de comunicação do Catarse, um dos principais portais de financiamento coletivo que atuam em território brasileiro.

O formato pode ser compreendido como uma adaptação do sistema que hoje movimenta ações filantrópicas – por exemplo, Teleton e Criança Esperança -, nos quais as pessoas doam quantias até que a meta seja atingida. No crowdfunding cada valor doado pelo usuário equivale a um respectivo “prêmio” – da simples inclusão do nome do apoiador na lista de agradecimentos até uma participação direta do indivíduo no projeto.

A proposta, no entanto, tem de estar bem elaborada. “Além de interessante, a ideia deve ser formulada claramente e com um orçamento bem pensado. Um vídeo de apresentação convidativo também é importantíssimo, assim como informar as possíveis ‘recompensas criativas’ para os apoiadores”, sugere Caio Ciampolini, um dos fundadores do Startando.

Inaugurado este ano, o site é o responsável pelo financiamento da festa Holi Festival das Cores, um dos principais projetos de crowdfunding já realizado no país. E o Catarse, criado há três anos, já ajudou a financiar até setembro último 690 ideias, o que representa 54% do total de projetos postados no portal. Um fator positivo, segundo especialistas, é a ausência de terceiros na elaboração da obra.

Sem capital institucional ou do Estado, há uma maior liberdade de inspiração para o autor, como relata Stephanie Belot, diretora da Onírica Studios, uma das produtoras do curta- metragem Quando Parei de Me Preocupar com Canalhas, viabilizado pelo sistema: “Isso te possibilita produzir o trabalho artístico no modo como foi pensado originalmente, sem a intervenção de meios publicitários e sem manipulação do conteúdo”.

O curta foi baseado no quadrinho homônimo do cartunista Caco Galhardo, que, coincidentemente, faz uma crítica ao poder público e ao financiamento de artistas pelo Estado. Com o auxílio de 213 usuários da rede, o curta arrecadou 34.260 reais e está em fase de produção.

Outro ponto do sistema visto como positivo é a redução do preço do produto final, em comparação com o esquema tradicional. O livro Ícone dos Quadrinhos, por exemplo – autografado, numerado e acompanhado de uma slipcase. Caso o projeto fosse bem sucedido, o livro poderia ser obtido no Catarse por 60 reais. O sucesso foi enorme. Tanto que que a obra passou a ser comercializada em comic shops tradicionais pelo dobro do preço.

Arte inteligente

O crowdfunding é um braço da chamada economia criativa (expressão cunhada em 2001 pelo inglês John Howkins no livro The Creative Economy). O professor de economia da Faculdade Cásper Líbero, Adalton Diniz, define a economia criativa como “uma atividade que se utiliza da imaginação como principal fator de produção”. E no sistema crowdfunding, quanto mais imaginativo e inovador o projeto exposto, maiores as chances de haver ajuda e uma alta arrecadação por parte dos usuários.

Para o professor Adalton Diniz, é um equívoco pensar o financiamento coletivo apenas como uma espécie de efeito colateral da economia criativa: “Esses sites especializados não facilitam o financiamento apenas de atividades ligadas à ideia, mas sim, são uma ponte entre elas e o público. Na verdade, qualquer tipo de projeto pode ser divulgado no crowdfunding. A economia criativa ainda é mais visível (por seu caráter inovador, sua rentabilidade e pela pouca necessidade de investimento financeiro por parte do autor)”.

Navegando pelos portais de crowdfunding, encontra-se uma revista sobre arte: J’adore. Idealizada pela publicitária gaúcha Pamela Morrison e financiada por indivíduos, essa revista tem o objetivo de influenciar as pessoas, e, na visão Pamela, o projeto se relaciona plenamente com o conceito de economia criativa: “A ideia da J’adore é essa: fazer as pessoas criarem, exercitarem a imaginação, se inspirarem”.

Sem a burocracia que diariamente dificulta a produção de projetos independentes, os autores podem focar suas atenções exclusivamente na produção. Pamela resume assim o princípio geral que ampara o financiamento coletivo: “No fim das contas, o que a gente quer é se divertir e ser feliz. Isso é o que importa”.

A websérie sobre o apocalipse zumbi – Nerd of the Dead – conta a história de dois amigos que unem forças para combater os mortosvivos que assolam a cidade onde moram. Com quatro episódios, a websérie teve seu último capítulo viabilizado por crowdfunding devido aos altos custos de produção que aquele trecho da história exigia.

De grão em grão

“Os apoiadores ganharam prêmios por apoiar e ainda ajudaram a desenvolver a cultura do país, que ainda sofre preconceitos em relação à qualidade dos trabalhos financiados coletivamente”, diz Pedro Carvalho, um dos protagonistas e produtores da websérie. O prêmio não foi pequeno: os apoiadores de Nerd of the Dead puderam integrar a figuração (travestidos como os próprios zumbis do enredo). Não há meio termo quando o assunto é “inovar para arrecadar”. Ícone dos Quadrinhos, do paulistano Ivan Freitas da Costa, compilou as artes de cem artistas nacionais e internacionais que retrataram seus super-heróis preferidos e foram expostos no Festival Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte (FIQ 2013). “Nos Estados Unidos já há uma cultura [de crowdfunding] desenvolvida. Lá, um projeto de quadrinhos pode obter 100 mil dólares”, observa Ivan, que também é curador do festival.

Para o coordenador Felipe Caruso, o financiamento coletivo ultrapassa o cenário artístico: “Áreas diversas como jornalismo, ciência e urbanismo estão descobrindo essa alternativa de financiamento. Além disso, o próprio setor financeiro poderia usufruir desse sistema. É o caso de serviços bancários, seguros e fundos de investimentos”.

O público apoiador de projetos via crowdfunding é ávido por novidades. O financiamento coletivo, na visão tanto de produtores quanto de doadores, surge como um novo caminho na busca por uma cultura que contemple mais trabalhos autorais nacionais, permitindo que o próprio consumidor se torne peça ativa (não passiva) da produção de uma obra – obras artísticas, principalmente.

“Não sei se o crowdfunding é a solução para a produção de trabalhos independentes, mas deveria ser, porque eu acho complicado uma pessoa captar dinheiro público para realizar um trabalho autoral, porque você terá um compromisso com o financiador, e não poderá fazer o que você entende como o melhor a fazer”, opina Tiago Vieira, diretor do curta Quando Parei de me Preocupar com Canalhas.

Muitos projetos culturais sobrevivem graças a editais e leis de incentivo à cultura, pelos quais se pode captar mais e atrair um grande número de interessados. O valor de apoio para cada proposta selecionada no edital Longa DOC 2013, por exemplo – da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura –, destinado à produção de documentários, pode chegar a até 450 mil reais.

Caio Ciampolini deseja que o financiamento coletivo continue crescendo no mundo e principalmente no Brasil. “As pessoas aqui são muitos criativas, mas elas muitas vezes não sabem onde buscar suporte e recursos para realizar seus projetos”, analisa Caio. Com o sucesso de Ícone dos Quadrinhos, Ivan Freitas da Costa entende que o crowdfunding se sofisticará com o tempo, e a sua própria dinâmica revelará naturalmente os bons projetos.

As perspectivas do crowdfunding no Brasil ainda são incertas, porém. Talvez seja passageiro, apenas como mais um fenômeno; ou ganhe a posição de uma alternativa concreta para projetos cada vez mais diferentes e originais. O fato é que o financiamento coletivo deu à expressão “poder público” um sentido mais literal. “De grão em grão, a galinha enche o papo”, brinca Pamela Morisson.