O corpo e a alma do artista de rua

Por: Danilo Fróes

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Edição nº zero – 2013

Conheça a vida e o trabalho da peruana Tânia Mujica, que atualmente se apresenta nas ruas de São Paulo com o personagem Anjo Barroco, suspenso no ar, por um cajado de madeira. Como atividade paralela, ela também se dedica à pintura e escultura.

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Crédito: Danilo Fróes

Arruaça: Como começou a trabalhar na rua?
Tânia: Desde criança gostava de todos os tipos de artes e todos os tipos de artistas, porém me lembro de, nitidamente, ter uma fascinação pelo palco na rua. Eu sentia que o espaço público não colocaria nenhum limite para o corpo e a alma do artista. Sou do Peru, onde comecei a trabalhar com arte aos 15 anos. Eu pintava quadros em uma praça e tentava vendê-los. Com o tempo comecei a dar aula de publicidade em uma faculdade, mas não larguei a paixão de pintar nas ruas. Meus alunos compravam meus trabalhos e ganhei um bom dinheiro.

Arruaça: E como veio parar no Brasil?

Tânia: Fui sequestrada no Peru, fiquei traumatizada e resolvi sair de lá. Escolhi o Brasil, peguei meu filho Carlos, aluguei um apartamento no bairro da Liberdade e comecei a dar aulas de meditação.

Arruaça: E o trabalho de artista de Rua no Brasil?

Tânia: Comecei a meditar em locais públicos como parques e praças, e conheci um artista de rua. Ele me deu referências do trabalho exercido. Pensei bastante e decidi transformar a meditação em arte. Comprei material, tintas, flores e um cenário de plástico. Passei a me apresentar aos sábados no viaduto Santa Efigênia. Comecei a ganhar admiradores e dinheiro. Resolvi investir em um cenário melhor, um figurino mais sofisticado e as apresentações passaram a acontecer, de terça a domingo, na 25 de Março.

*O Decreto nº. 52.504, de 19 de julho de 2011, permite a apresentação gratuita dos artistas de rua em espaço público. Quem acessa o www.artistasnarua.com.br pode acompanhar a agenda e o mapa onde esses artistas podem ser encontrados.

Arruaça: Qual a maior dificuldade de trabalhar na rua?

Tânia: Eu poderia falar que é o sol, a chuva, mas, para mim, o mais difícil é a discriminação, não das pessoas, mas do próprio artista para consigo mesmo. Às vezes a gente se sente inferior, poxa, eu estudei, fiz faculdade, mestrado e trabalho na rua? Para superar isso, tem que ter paixão pela arte de se expor. É gostoso alguém parar para ver seu trabalho e soltar um sorriso.

Arruaça: Qual a diferença de se apresentar na rua ou no palco?

Tânia: Quando você está em um teatro com uma grande plateia, você já tem a quantidade de cadeiras vendidas, as pessoas vão lá para te ver. Na rua, as pessoas saem com outras prioridades, que é o maior concorrente do artista de rua, e a nossa intenção é convencer essas pessoas a nos inserir nessas prioridades.

*Tipos de apresentação

  • A maior parte das performances de rua está ligada à música (61%);
  • 30% são de apresentações de música sertaneja;
  • 24% de música andina;
  • Há 18 tipos diferentes de música;
  • Cerca de 16% das apresentações têm relação com dança (andina/latina, forró ou axé)
  • Outras 7% são relacionadas às artes plásticas, com destaque para pintura em azulejo;
  • O restante faz apresentações de poesia, mágica, palhaço, malabarismo, teatro, capoeira, grafite, humor e mímica.
  • Como parte da infraestrutura utilizada para realização dos espetáculos, encontram-se instrumentos musicais (50%), caixas de som/amplificador (42%), figurinos (32%), bancos ou pedestais (27%), baterias ou geradores (26%) e microfones (24%).

Arruaça: E qual é mais difícil, palco ou rua?

Tânia: Não é pelo fato de estarmos na rua, que somos pessoas de rua, mas sim artistas que se apresentam na rua. Apresentar-se no palco requer outro tipo de perfil. Você tem uma equipe de apoio que sempre está do seu lado. Defino que, no palco, você apenas precisa ser artista. Na rua, além de ser artista, você tem que ter jogo de cintura.

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Crédito: Danilo Fróes

Arruaça: É possível viver da rua?

Tânia: Possível, sim, eu vivo da rua. Todas as minhas despesas são pagas com o dinheiro que ganho em minhas apresentações.

Arruaça: Quanto ganha por dia?

Tânia: Em média, ganho de R$ 300 a R$ 700 por dia. Mas divido esse dinheiro com uma amiga que fica das 8h às 13h comigo. Após esse horário permaneço sozinha até as 18h.

Arruaça: O que é preciso fazer para ganhar uma média dessas, apresentando-se nas ruas?

Tânia: Uma coisa muito importante é a disciplina. Tem que conseguir se apresentar quase todos os dias, ficar mais horas e não desanimar, pois há dias que são bons e outros não. É preciso sempre persistir.

Arruaça: Qual o segredo de uma boa estátua viva?

Tânia: Ser estátua viva é uma escolha que me apaixona. Tem gente que acha que é apenas ficar parado, que é muito fácil. Nós fazemos nossa cenografia, maquiagem, a performance e o figurino. Além disso, precisamos ser atletas, física e mentalmente. Pois o segredo é meditar. Se a mente não parar, apenas seu corpo será a estatua e a apresentação acabará se tornando um sacrifício.

*Horários e locais das apresentações:

  • 71% das apresentações têm início entre as 10h e as 16h. São raras as apresentações que se iniciam antes das 8h ou depois das 20h;
  • 68% das apresentações acontecem aos sábados; 
  • Nos demais dias, a realização é homogênea, variando de 33% a 46%;
  • As regiões com maior concentração de artistas são: Sé (16%); República (12%), Paulista (12%), 25 de março (11%) e Santa Ifigênia/São Bento (9%).

Tânia alongando antes das apresentações
Crédito: Danilo Fróes

ArruaçaAonde você quer chegar

Tânia: Eu busco a felicidade. O meu maior sonho é conseguir ajudar as pessoas através do meu trabalho, com mensagens positivas. Quando uma pessoa passa por mim e sorri, realizo um pedaço desse sonho. Nesta carreira descobri a meditação, o silêncio da minha mente e a voz da minha alma!

*Fonte: SpTuris