Onde está a nova música brasileira?

Por: Emily Anne Stephano

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Edição nº zero – 2013

É possível localizar histórica e geograficamente momentos importantes como a bossa nova e o tropicalismo, por exemplo. Mas por onde anda a nova produção musical brasileira? Existe um número cada vez maior de músicos cujos trabalhos chegam aos nossos ouvidos sem passar pela televisão, estações de rádio ou mesmo gravadoras. Em entrevista ao Programa do Jô, em maio de 2013, Clarice Falcão contou que começou sua carreira musical postando vídeos na internet. Quando começou a pensar em CD e ir para uma gravadora, se viu colocando vários intermediários em uma relação que já acontecia diretamente pelos comentários dos vídeos. E foi na intenção de eliminar esses intermediários que o álbum foi lançado apenas virtualmente, pelo iTunes. Na ocasião da entrevista, Monomania se mantinha em primeiro lugar nas vendas havia mais de uma semana. A paulista Mallu Magalhães começou sua carreira aos 15 anos, também compartilhando vídeos no Youtube, tocando violão e cantando as próprias composições com levada folk, como Tchubaruba. Hoje, aos 21 anos, é reconhecida internacionalmente e teve seu trabalho mais recente elogiado pelo The New York Times.

Em São Paulo muitas revelações aparecem pelo Prata da Casa, um projeto do SESC Pompeia em que os participantes devem ter, no máximo, um álbum lançado. Com 14 anos de existência, já passaram por lá nomes que hoje são consagrados, como Barbatuques, Céu, Lucas Santtana, Curumin e Vanguart. O grupo paulista Mão de 8 foi um dos destaques do Prata da Casa em 2012, quando lançava seu primeiro álbum, Um dia que já vem. Toca Mamberti, baixista da banda, afirma que a maior parte do público conheceu o Mão de 8 na internet. “Esse é o caminho natural: a pessoa ouve gratuitamente, se gostar faz o download, se gostar muito e puder investir, adquire os produtos oficiais, tanto pela internet, como em lojas físicas e comparece aos shows”, declarou o músico.

A Banda mais bonita da cidade, de Curitiba, surgiu em 2009, mas ficou conhecida nacionalmente depois de maio de 2011, pela música Oração, de Leo Fressato. Em apenas dois dias o vídeo atingiu milhões de visualizações no Youtube. O carioca Rubel começou a gravar seu primeiro álbum quando fazia intercâmbio em Austin, EUA. Foi lá que alugou os equipamentos e improvisou um estúdio em casa. Porém, voltou para o Brasil, e a mixagem de Pearl foi feita com conversas por e-mail, enquanto ele estava no Rio de Janeiro e a equipe, na cidade americana.

Pernambuco também tem uma cena de música independente muito forte e presente na internet. Eddie, Tibério Azul, Mombojó, Júlio Morais e Ylana Queiroga são alguns dos nomes que vêm obtendo destaque na nova geração da música brasileira. O também músico pernambucano China, conhecido como apresentador da MTV e do programa A Liga, da Rede Bandeirantes, apresenta um programa na rádio online Oi FM. Trata-se do Independência, que recebe e divulga materiais de músicos e bandas independentes.

O site A musicoteca se descreve como um espaço para quem quer “conhecer e mostrar a nova música brasileira”. Assim como o Independência, recebe materiais enviados pelas bandas e músicos e divulga, disponibilizando o álbum para download gratuito. Outro canal importante na internet é o Showlivre, que recebe músicos em seu estúdio e faz transmissões ao vivo semanalmente. Pelo Estudio Showlivre já passaram 5 a Seco, Filarmônica de Passárgada, Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, Eddie e muitos outros.

E, se tudo isso acontece na internet, por causa da web e de sua linguagem de nichos, a cobertura desse fenômeno também está no ambiente digital, cada vez mais especializada – assim como a própria cena musical independente, que tem crescido muito, com força e qualidade. Mamberti acredita que “hoje em dia é impossível uma banda nova, independente, se estabelecer sem usar muito bem essa linguagem [digital]”. “Fizemos isso disponibilizando nossas músicas no maior número de plataformas possível: download grátis no site oficial, Youtube, Soundcloud, Facebook, Mediafire, iTunes, disco físico a venda em lojas convencionais etc…O público que quer nos conhecer tem que nos encontrar facilmente”, afirma o baixista, que também aposta em “novas plataformas para ouvir música em streaming, sem precisar fazer o download, como Rdio, Deezer, Grooveshark e o próprio Youtube”.

Portanto, o novo momento da música brasileira é também um novo local, repleto de possibilidades, ao qual o mercado começa a dar mostrar de querer se adaptar.