Em Guaianases ação cultural é visceral

Por: Sheyla Melo

Um olhar sobre as ações culturais de quem é de Guaianases e um convite àqueles que não são daqui

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Edição nº 1 – 2014

As ações culturais podem potencializar um bairro, os espaços públicos e as pessoas. Esses elementos são focos de três grupos de Guaianases, bairro do extremo leste da cidade de São Paulo. Eu falo de Cine Campinho, Sarau da Maloca e Juntas na Luta. Cada qual em sua ação possibilitou novas formas de ser e estar no mundo das pessoas envolvidas em suas atividades. Como diria o cantor da região Tita Reis: “Bóra lá, diga aí, quero ver se tem… Lá em Guaianases tem!” Vamos conhecer agora um pouco de cada ação cultural:

Arruaça-Resenha 1-Sheyla MeloCine Campinho
O Cine Campinho surge em 2007 após vários cine-debates que aconteciam nas casas de amigos. Em princípio, a ideia era possibilitar o contato com o cinema, ocupar um campo abandonado e fortalecer os vínculos comunitários. Assim, um simples cinema no campo ganhou grande destaque. O bairro foi se apropriando da atividade e o que antes era um filme para descontração virou a união da população, reivindicando melhorias nos equipamentos públicos, na rua e no próprio campo, propondo também maior participação das pessoas em conselhos gestores, escolas e ong’s.

O cinema no Campinho uniu as pessoas, tornando a vida no bairro mais agradável e respeitosa. O projeto é até hoje uma referência no Jd. Bandeirantes, fazendo com que muitos jovens tenham se envolvido com cultura.

Sarau da Maloca
Em 2009 um sarau começou a acontecer na biblioteca da região, constituindo um modo de intervenção social para a reflexão sobre a realidade das pessoas e do bairro por meio da música, da arte e da literatura. Assim nasceu o Sarau da Maloca, um encontro de pessoas de casas simples que produzem arte e são invisíveis aos olhos da indústria cultural. Em roda, acontece a partilha da arte e das vidas e é alimentada a alma.Arruaça-Resenha 2- Sheyla Melo

As atividades também lembram as mulheres e os homens que lutaram por grandes causas. O sarau acabou possibilitou também que trabalhadores participassem da atividade. Após uma série de reivindicações, reuniões e ofícios, o espaço público é usado após o encerramento do expediente, à noite. A biblioteca fecha, e o sarau da Maloca começa. Também gerou a tematização da biblioteca: após a reivindicação do grupo, a biblioteca Cora Coralina irá se especializar no tema do feminismo.

Juntas na Luta
Com a mesma energia, em um grupo de mulheres se uniu há dois anos para desnaturalizar a situação de violência vivida por elas e outras mulheres, buscando superar o machismo e partindo em direção à construção de uma nova sociedade, onde homens e mulheres tenham a mesma importância e o mesmo direito de vida plena. O coletivo feminista é o Juntas na Luta. O grupo organiza mensalmente um sarau feminista, propondo um encontro de formação e uma oficina de pintura em pano de prato.

A oficina permite um encontro com mulheres para a partilha de suas realidades. Pintar pano de prato é somente o pretexto para unir as mulheres. A atividade começa com a narração de uma história, que gera um debate. Com isso, inicia-se a partilha de diversas realidades, similares, daí a importância de desnaturalizar e desmascarar o machismo.Arruaça-Resenha 3-Sheyla Melo

Após o debate, tem início a oficina de pintura. Uma simples pintura em pano de prato pode permitir transformações pessoais, a união de mulheres e a busca de uma outra sociedade.

O que estes grupos deixam bem claro é que há uma forte agitação cultural nos bairros localizados na periferia da cidade, embora a grande mídia insista em não tomar conhecimento dela.