Livros livres

Por: Pedro Tavares

Como o projeto Bookcrossing pode tornar mais poética a rotina de uma cidade grande

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Edição nº 1 – 2014

O dia a dia em uma cidade grande como São Paulo é turbulento. A pressa toma conta de todos que vão e vêm sacolejando em ônibus lotados, presos no trânsito dentro de carros blindados e andando de cabeça baixa pelas ruas. O almoço é feito com horário marcado, às vezes em pé, encostado a um balcão de lanchonete, revezando as mãos entre o sanduíche, o suco, e o telefone celular que envia um e-mail urgente com questões de trabalho. Não há tempo para nada, mas ainda assim é preciso muito tempo para fazer o que é necessário.

Mas e se, no meio dessa correria, você se depara com algo diferente? Uma quebra de rotina? Algo como um livro repousado em uma mesa de padaria ou assento de metrô. Um livro trazendo uma mensagem, convidando-o a lê-lo. É possível, no meio disso tudo, prestar atenção em um objeto aparentemente esquecido?

É a proposta do Bookcrossing (em uma tradução literal para o português, “cruzamento de livros” ou “intercâmbio de livros”), projeto que visa compartilhar livros em locais públicos de grandes cidades. Surgida em 2001, nos Estados Unidos, a iniciativa veio no mesmo ano para o Brasil, onde já conquistou adeptos em diversas cidades. O intuito é ler o livro e “libertá-lo” (termo utilizado pelos praticantes do Bookcrossing), para que outros também possam fazer a leitura e, da mesma forma, libertar o exemplar. Para que se saiba sobre o projeto, os livros carregam mensagens em suas páginas iniciais explicando o funcionamento da ideia, isto é, dizendo que aquele livro não pertence a ninguém, é um “livro livre”, que deve ser lido e, novamente, solto em algum lugar.

A idéia foi bem aceita e o projeto cresceu, atraindo pessoas do mundo todo à causa. No Brasil, o grupo principal (Bookcrossing Brasil) já conta com 4 mil livros cadastrados, número que aumenta a cada dia. O número é significativo, considerando-se que existem outros grupos “não oficiais” espalhados, e que o país é reconhecidamente um local com baixíssimo índice de leitores. Sobre isso, a coordenadora do movimento Bookcrossing Brasil, Helena Castello Branco, diz: “É uma ação de incentivo à leitura; esse é o principal objetivo”.

É evidente, no entanto, que apesar de o principal objetivo ser a leitura, o projeto apresenta outros pontos positivos, como a ocupação poética da cidade, que se mostra cada vez mais como um local árido, hostil, impessoal. A gentileza, a cordialidade e o desapego também são marcas da ideia. É uma forma de tornar um pouco mais lírica a rotina regrada do morador da metrópole. Quebrar esse ambiente muitas vezes sufocante. Além disso, uma nova noção de público e privado é proposta com a ação.

A dificuldade, porém, de manter a organização e o controle leva o grupo a cadastrar os livros e as pessoas que participam do projeto. Cada exemplar é etiquetado com o logotipo Bookcrossing Brasil e nele um convite é encartado para que a pessoa que encontre a obra possa também se cadastrar. Indagada se isso não limita a participação do leitor, Helena Castello Branco discorda: “Informar a trajetória do livro é uma grande alegria para quem disponibilizou o exemplar, e uma atitude que pode ser vista até mesmo como uma forma de consideração ou agradecimento”, diz a coordenadora do Bookcrossing Brasil, completando em seguida: “Você pode saber com quem e aonde o livro foi parar (em outras cidades, países…), e isso é bastante curioso, divertido. Você pode ainda entrar em contato com outros membros do BC, fazer amizades etc.”.

Além do crescimento dos chamados “shoppings de leitura”, há grandes redes de livraria que oferecem inúmeros tipos de serviço além de venderem livros, propriamente. Helena Castello Branco não acha que o Bookcrossing vá na contramão do mercado da venda de livros, apesar de se basear em doações. Para ela, as livrarias complementam a iniciativa, já que os livros podem ser comprados e compartilhados: “O Bookcrossing propõe que os livros sejam lidos de fato e não apenas usados para decorar casas ou demonstrar status econômico ou intelectual”, completa a coordenadora do projeto.

Muitas vezes, no dia a dia violento e desgastante de uma cidade grande, um livro com um bilhete na contracapa pode melhorar a vida do cidadão.