Petróleo, de Alexandre Dal Farra, confunde e incomoda

Por: Amanda Lenharo di Santis

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Edição nº zero – 2013

Na frenética dinâmica criada por Alexandre Dal Farra, o absurdo da condição humana, a solidão e o ódio de nossa sociedade são escancarados. À primeira vista, “Petróleo” parece uma narrativa qualquer, que tem como fio condutor o drama de uma esposa que aguarda na sala de espera de um hospital enquanto seu marido moribundo agoniza. Qual não é nossa surpresa quando se percebe que a mulher não se sente triste pela situação do marido, mas que apenas sente angústia e ódio. E quando se compreende que na verdade as três mulheres naquela sala (a esposa, uma enfermeira e uma secretária do marido) arrancam pedaços do homem – mãos, braços, etc. E quando elas têm relações sexuais entre si e também com ele. E quando se descobre que ele é um político corrupto, uma espécie de mensaleiro. Com forte influência do teatro do absurdo, o texto explora o vazio e a estranheza da existência humana.

A procura por identificação entre as personagens presentes na sala é uma marca fundamental na peça. Todo o envolvimento das mulheres na trama, seja pelo ódio, pela identificação, pelo amor, se dá como uma busca contra a solidão  e como um desejo de envolver a todos em uma mesma esquizofrenia, com vontade genuína de destruição. A fina linha entre o amor e o ódio é cruzada pelas personagens de tempos em tempos, e estas vão se transformando umas nas outras e se contagiando umas pelas outras. A repetição de “parece estranho, mas é assim mesmo. É normal. É bastante normal” denuncia que nem tudo o que se diz normal no dia a dia é tão normal assim.

Porém, a questão central da peça é o ódio em nossa sociedade, não apenas explicitado nas falas, mas também implícito no modo de os personagens enunciarem seus discursos. O ódio, como afirma uma personagem, é o que faz as formigas seguirem unidas num mesmo caminho: como elas são cegas, o que as guia é o trombar, o bater umas nas outras para seguirem o mesmo caminho. Da mesma forma aconteceria com os humanos. Assim, a personagem da esposa procura gerar ódio na enfermeira, ao bater nela. Isso cria um vínculo e também torna a relação entre elas verdadeira, sincera; não inócua e burocrática.

Alexandre Dal Farra insere em suas personagens uma forte pulsão de morte freudiana – não apenas dirigida ao interior, como autodestruição, mas também representada pelo ódio ao outro, pela violência, pelo homem moribundo e pelo “amor” que essa morte desperta na personagem da enfermeira – a qual se sobrepõe à pulsão de vida, representada pela criança que a secretária espera do moribundo, assassinada assim que nasce.

Assim como na tragédia grega, a revelação gera o drama e o ódio, ou seja, a conscientização sobre as situações é uma chave dramática: enquanto a enfermeira não sabia da condição do doente, de ser um corrupto envolvido em tramoias e esquemas fraudulentos, ela não tinha por que se preocupar. No entanto, ela toma consciência desse fato e de todas as suas implicações, e se torna de certa maneira cúmplice de tudo. A questão da ignorância e da ciência também surge na fala da secretária sobre as cadelas no cio: as cadelas só não sentem o ódio enquanto estão copulando porque não compreendem o que está acontecendo com elas. Apenas recebem a penetração com a estranheza de “o que será isso que está acontecendo?”, mas se soubessem que a isso se seguem os filhotes, o amamentar etc., teriam ódio.

A ação é entrecortada por reflexões filosóficas. Assim, o texto problematiza, por exemplo, o lugar privilegiado do ator e o lugar do público como meramente espectador: é fácil impor suas opiniões quando se está ali, no palco, na tela etc. Por isso, estando ali, naquela posição privilegiada, as personagens não deveriam opinar em nada.

Menções à corrupção e à política trazem um ar atualíssimo e bem-humorado. No entanto, o bom humor e a atuação excessivamente leve e caricata parecem um contrassenso em uma peça que carrega em si as angústias de toda uma época, o zeitgeist de toda uma geração de brasileiros. Sim, o cômico torna a peça e os temas em geral mais palatáveis, mas também oferece o risco de a peça parecer rasa e meramente absurda: momentos importantes poderiam ter tido mais destaque e acabaram perdidos por essa leveza. A incompreensão do público marca esta encenação do agora: o espectador não sabe seu lugar e nada vai facilitar sua vida. Não existe posto, e tudo “é uma merda”. Não há esperança.