Trovadores modernos

Por: Elis Franco

Mestres de cerimônias, os MC’s se reúnem na zona sul de São Paulo para contar suas histórias, mostrar suas rimas e fazer a cena do movimento hip hop

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Edição nº 1 – 2014

As rimas e microfones assinalados desta antiga praça paulistana. Que Camões me perdoe, pela ousadia de parodiá-lo, mas, se no século XVI, os portugueses foram imortalizados em Os Lusíadas, atualmente os MC’s (mestres de cerimônia) carregam a herança de contar nossas histórias e revelar o cotidiano.

“Quer entender a realidade brasileira? Procure as letras dos racionais, por exemplo” orienta o professor da USP Valter Garcia, musico e especialista em MPB. Em suas aulas, Garcia diz que os trovadores estão para a idade média, assim como os rappers estão para a modernidade. Seguindo essa dica, fui atrás dos MCs.

Na década de 90, o estilo de letras fortes e mixagens era preferência nas favelas e periferias paulistanas com grupos como Pavilhão 9, Império RZO e os Racionais MC’s. Hoje o rap também conquistou a classe média, principalmente com a popularização do trabalho dos rappers Criollo e Emícida.

As letras continuam ácidas, criticam governos, instituições e o próprio indivíduo. O personagem central agora não é apenas o pobre da favela, descrito pelos Racionais como o “negro drama”. As trovas modernas trazem o cotidiano e seus problemas, independentemente da classe social.

Em São Paulo, ouvir rap se tornou cult. Até Chico Buarque ouve “Pai, afasta de mim as biqueiras”. Casas de shows, para não dizer a Indústria Cultural, souberam contemplar esse novo seguimento que surgiu.

 

Após Criollo fazer versão da música “Cálice”, Chico Buarque o cita em um show. Reprodução da Internet
 

Mas antes do interesse do grande público, onde esses artistas se apresentavam?

A Batalha do Santa Cruz

Jovens em busca de lazer e cultura que provocam alvoroço no shopping center. Parece que nos referimos aos rolezinhos que assustaram muita gente no começo deste ano em São Paulo, mas o caso em questão é a Batalha do Santa Cruz. Em frente ao shopping dezenas de jovens se reúnem, sempre aos sábados à noite, para duelar.

Ali a disputa é diferente: cada um leva suas rimas e estilo e, no ritmo do hip hop, MCs disputam a preferência do público.

As rimas são feitas no estilo Freestyle. As batalhas são semelhantes ao repente nordestino, um MC tem 30 segundos para mandar seu recado, em seguida o MC rival responde e o público avalia quem deve ser o ganhador, que deve vencer 2 rounds. No final da noite, o campeonato organizado em chaves tem o grande vencedor.

Inspirados nas batalhas cariocas, os então adolescentes da zona sul de São Paulo começaram em 2006 disputas entre MCs em frente ao shopping, “No começo, nós queríamos cantar, fazer nossas rimas, aprimorar nosso repertório, mas não tinha lugar. Os espaços eram reservados para quem já fazia sucesso. A solução foi a gente criar a nossa própria cena”, explica o MC Marcello Gugu, um dos idealizadores do projeto.

A Batalha do Santa Cruz era formada inicialmente por 15 rapazes, deles apenas quatro ainda permanecem no projeto, que já contou com participações ilustres de MCs como Emicida e Projota. No duelo, a ordem é se divertir ao som das mixagens do DJ. A cada final de semana sai um vencedor e o prêmio é simbólico. Não há recompensa em dinheiro. Aos vencedores, os livros! Os idealizadores explicam que a Batalha não tem patrocinador e ao longo dos anos o espaço improvisado na calçada do shopping se tornou conhecido para os jovens talentos que, assim como eles há oito anos, não têm espaço para se apresentar.

Com o tempo, a Batalha já não cabia na calçada e incomodava os frequentadores do shopping. Como solução, depois de quase serem atropelados nas ruas paralelas, os duelos ganharam a autorização do colégio Marista para serem realizados na praça e ali permanecem. Todos os sábados às 20h.

Anoitece e na praça encontramos grafiteiros, dançarinos, poetas, DJ’s. O local se transforma em um reduto do movimento hip hop. O MC Cristiano Zóio, da região da Brasilândia, tenta viver de música há 15 anos, mas afirma que a falta de investimento na cultura é o grande desafio dos jovens da periferia: “Os jovens não se identificam com os grandes centros culturais e fazem da rua e na rua a sua arte. O grafite é arte que agora começa a ganhar as galerias, mas o resto? Que lugar que essa molecada tem?”.

Os frequentadores vêm de todos os lugares da região metropolitana da capital paulista. Falam que descobriram a batalha pelo boca a boca, chegam por indicação de amigos e saem encantados com as letras. “Cheguei aqui agora com uma amiga. É a primeira vez que venho e saio com vontade de voltar e com as energias carregadas”, diz Dinas, grafiteiro do bairro do Jaraguá, zona norte de São Paulo.

A despeito de algumas pessoas que criticam a batalha pelos transtornos no trânsito ou a falta de cultura do público, Marcello Gugu diz que nós brasileiros ainda não sabemos consumir nossa própria cultura. “Temos que fazer nossa cena, nossa música, ganhar nosso espaço, afinal somos a cultura”, conclui o MC.