Criações editoriais

Por: Thais Helena Reis

Em um mercado dominado por gigantes, as pequenas editoras apostam em produções artesanais e novas possibilidades de leitura

 

 

Elas disputam espaço com as grandes editoras de livros e apostam em publicações nas áreas de humanidades e arte, mas também em assuntos bem específicos, às vezes sem uma grande expectativa de rentabilidade. Elas quase sempre são de pequeno porte e, por funcionarem de maneira diferente, muitas são descobridoras de talentos. A diversidade das chamadas “editoras independentes” contribui de forma significativa para o mercado editorial brasileiro e sua cultura.

A maioria delas trabalha com publicações para nichos específicos: a editora Estação Liberdade possui publicações japonesas e a Companhia de Freud publica livros de autores psicanalistas. Algumas possuem técnicas de encadernação manual e artesanal; outras investem em audiolivros e e-books. Os projetos são cuidadosamente pensados, e as tiragens, pequenas.

A Editora Maco, criada em 1986, é especializada em livros para crianças. Suas obras seriam completamente normais, com histórias e ilustrações como em qualquer livro infantil convencional, exceto por um detalhe: todas são feitas de pano. A ideia surgiu originalmente quando Irles Carvalho, a fundadora, teve seu primeiro filho. Na época, havia livros de pano para comprar, mas eles eram importados de Portugal. Quando criança, Irles teve acesso a livros de tecido, e não hesitou em comprá-los para seu primogênito.

Grandes ideias
Esse tipo de livro, com o tempo, desapareceu. Incomodada com isso (e pensando em seu segundo filho também), ela resolveu produzi-los. Em 1982, aliás, já costurava os próprios livros de pano para ele. Seu trabalho logo chamou atenção e as várias encomendas que recebeu a incentivaram a abrir a Maco. “A gente adquire o tecido, eu crio as histórias e os ilustradores fazem os desenhos. Depois disso, os tecidos são recortados e costurados, dando forma a uma história sem papel. Por utilizarmos pedaços de pano, as possibilidades de criação dos livros são
maiores do que se eles fossem feitos com o material tradicional”, detalha.

Segundo Irles, isso é possível porque o pano é um material mais resistente que o papel. Pode-se fazer com ele coisas que em papel seriam impossíveis: “Nós podemos cortarem várias partes a página de pano do livro, mas os pequenos pedaços não rasgam, permanecem intactos. Dessa forma, é possível dobrar, costurar e fazer as atividades propostas sem uma preocupação excessiva com resistência e durabilidade”. Assim, fica mais fácil as crianças se lembrarem dos livros, diz Irles: “Elas estão familiarizadas com o

pano desde que nasceram. Têm a memória do toque no tecido. Além disso, o pano torna o produto bem diferente” A criança está naturalmente acostumada a desenhar e escrever no papel, mas, quando tem a oportunidade de fazer isso no pano, conquista uma experiência nova.

Um dos maiores sucessos da Maco é O Livro do Canguru, indicado para crianças na faixa dos três anos de idade, quando começam a desenvolver a “coordenação motora fina”. No livro, estão costurados zíperes, botões, fivelas e colchetes. O objetivo é, a partir da leitura e da interação, ajudar a criança a aprender a se vestir.

Não há limites para a inovação nessas editoras independentes. A Livro Falante, de Sandra Silvério, fundada em 2006, é especializada em audiolivros. Na época, ela não dispunha de um estúdio de gravação próprio e, durante um tempo, precisou terceirizar essa parte do trabalho. Mas o resultado nem sempre saía como ela queria. “Eu pagava caro e não tinha qualidade: os donos de estúdios normalmente lidam com música, não com palavras.” Contratou então um projetista e construiu um estúdio próprio dentro da editora.

Equilíbrio e igualdade

Em seu catálogo há obras de literatura adulta e infanto-juvenil. A cada novo projeto ela estima o número de locutores de que vai precisar para compor o áudio: “No geral, faço com um narrador só, ou seja, uma única pessoa lê em voz alta a obra inteira. Em alguns casos, porém, foi necessário mais de um locutor”. Para o projeto de um romance em audiolivro no qual os personagens diziam coisas difíceis de diferenciar, trinta atores participaram das gravações.

A Livro Falante se dedica também a obras espíritas – um de seus maiores mercados – e de História. O potencial do audiolivro em relação ao livro em papel é grande. História da Ópera, por exemplo, é um compilado de informações sobre esse gênero musical em diferentes épocas. Trechos das canções foram postos junto de suas respectivas explicações, para que o ouvinte possa comparar cada um dos áudios com as informações contidas. Setenta trechos são mostrados. “É diferente de você ler um livro que fala das ‘características da ópera’. No áudio, os trechos de óperas entram na sequência da característica apontada.”

A Livro Falante não tem a pretensão de crescer, assim como outras editoras vinculadas à Liga Brasileira de Editoras (Libre, fundada em 2002). O surgimento da Libre, atualmente com mais de 100 associadas, deveu-se a um evento que contava com a participação de diversas editoras independentes que, na cidade do Rio de Janeiro, reuniram-se para criar a Primavera dos Livros, com exclusiva participação de pequenas editoras.

“A diversidade de livros está constantemente ameaçada pelo imenso espaço físico e mercadológico ocupado pelas grandes editoras e seus best-sellers”

Aproveitando o sucesso do evento, as editoras resolveram se organizar em torno de ideais e objetivos afins. A Libre hoje é “uma entidade específica de organização das independentes”, segundo Haroldo Sereza, presidente da Libre e sócio da Alameda Casa Editorial. “Estávamos defendendo uma bandeira que já começava a ser formulada internacionalmente, que é a Bibliodiversidade”, lembra.

O termo é uma espécie de “equilíbrio ecológico de livros”. Segundo Haroldo, a diversidade de livros está constantemente ameaçada pelo imenso espaço físico e mercadológico ocupado pelas empresas de grande porte. “O mercado de livros hoje tende a afugentar essa diferença, por uma série de questões de organização da lógica do capital e de venda de espaços em livrarias, uma lógica que afasta as editoras pequenas e os livros feitos por elas.”

Combatendo a venda de espaços nas livrarias para exposição de obras, as pequenas evitariam que uma grande parcela do mercado fosse ocupada apenas por lançamentos de grandes editoras. A ideia era que todos os livros disponíveis tivessem uma igual – ou parecida – possibilidade de serem vistos, pesquisados e comprados. “É preciso criar mecanismos para que toda essa diversidade, qualidade e especificidade da produção literária brasileira esteja visível ao público e não se perca”, explica Sereza.

Outra medida de proteção do livro defendida pela Libre é a fixação de preços. Segundo Sereza, o chamado Preço Único do Livro consiste em estabelecer um determinado preço de modo que, durante certo período, ele não possa ser vendido com muito mais de 5% de desconto nas livrarias. Isso evitaria grandes promoções e permitiria uma concorrência mais leal.

Haroldo diz que um best-seller tem “proporção insignificante” em relação aos demais títulos: “Mas a pressão que ele faz no mercado em termos de ocupação de espaço físico, aliada a seu baixo preço, faz com que os outros livros tenham mais dificuldade de circular e por isso ficam com preço igual ou superior ao que já possuíam”. Embora a política do Preço Único ainda gere controvérsias, Haroldo acredita que, pelo fato de não haver grandes promoções, a circulação literária aumentaria e a concorrência levaria à redução do preço de todos os livros, e não exclusivamente de uns poucos.

O mais famoso evento associado à Libre é a Primavera dos Livros, que segue a lógica de grandes feiras, como as bienais internacionais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Desde seu início, a lógica da feira foi pensada e organizada por 54 editoras. Em um grande evento, como uma Bienal, as editoras independentes podem simplesmente desaparecer em meio aos estandes das grandes.

Na Primavera, o espaçamento é planejado para que haja uma interação entre empresas de portes diferentes. O catálogo da edição de 2012 traz a informação de que todos os estandes “são iguais, elegantes e sem exageros, permitindo o foco do visitante no livro”. Cada editora participante da Primavera dos Livros tem direito a, no máximo, dois estandes.

Significa que uma editora só pode conseguir um espaço duas vezes maior que a da concorrência. “Assim, a gente cria uma condição de igualdade, mas também de competição, na prática”, acredita Haroldo. “Além disso, a feira tem uma programação cultural muito bacana.” Haroldo vê na Primavera uma possibilidade de redescoberta da livraria.

Surpresa e diversidade
E, na visão dele, o público já reconheceu a Primavera como um lugar onde se pode escolher os livros que se quer comprar, sem a indução dos mecanismos de marketing que “as livrarias usam de modo excessivo”. “A livraria deixou de ser um lugar de observação e descobertas. A Primavera, então, resgatou essa ideia de diversidade, de surpresa do livro, o que é muito importante para o próprio produto.”

Sandra Silvério acredita que a Primavera, por estar vinculada à Libre, tem importante papel para as editoras independentes. Além disso, Sandra defende que a Primavera é “importante para o público experimentar a bibliodiversidade”. O evento ocorre todos os anos no Rio de Janeiro e em São Paulo. A consolidação no Rio foi mais ágil, já que desde o início existia a colaboração e o interesse da prefeitura em apoiar.

“A do Rio certamente é maior”, explica Haroldo, “porque a feira de São Paulo ainda é muito pouco tradicional. Já no Rio, o evento virou a ‘grande feira do livro’ depois da Bienal. Em São Paulo, já é diferente. Aqui a coisa é um pouco mais errática”. Esse ano, o evento máximo da bibliodiversidade foi organizado na Praça Dom José Gaspar, localizada no centro de São Paulo, em novembro. “As pessoas são apaixonadas por isso”, diz Sandra. “Os donos das pequenas editoras estão tendo lá suas dificuldades, mas continuam produzindo e identificando talentos.”