Liberdades e culturas

Por: Tereza Cristina Vitali, diretora da Faculdade Cásper Líbero

 

 

Em seu romance 1984, George Orwell anteviu uma sociedade controlada por olhos e ouvidos onipresentes. Na casa de Winston, o protagonista, uma “teletela” recebia e transmitia simultaneamente: “Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo”. A atual “sociedade das telas” (expressão usada pelo filósofo Gilles Lipovetsky) nos remete agora à tão genial quanto perturbadora ficção criada por Orwell 65 anos atrás, antes mesmo da popularização da TV.

As recentes denúncias do ex-técnico da CIA Edward Snowden sobre a espionagem praticada pelos Estados Unidos na internet revelaram a existência de “controles invisíveis”, colocaram em xeque os ideais de segurança e privacidade e criaram um clima de paranoia. A ótima reportagem “A liberdade vigiada” é exatamente um painel de discussões sobre tópicos essenciais ao tema, como a neutralidade das redes, a privacidade dos usuários e a liberdade de expressão. Complementa essa matéria a história do veterano jornalista Patrick Denaud, que durante anos levou vida dupla como correspondente de guerra e espião dos serviços secretos franceses.

Embora as contemporaneidades sejam centrais na linha editorial da Cásper, esta edição # 11 não perde de vista as temáticas culturais (mas vemos a cultura em uma dimensão ampla, e não apenas como “artes & espetáculos”). Antes de tudo, o perfil de Mara Salles, chef e proprietária do reputado restaurante Tordesilhas. Especialista em culinária brasileira, ela se tornou uma espécie de embaixadora da nossa comida mundo afora. E “Os brasis de Mara Salles” contêm um ponto de vista “de dentro” (de dentro da cozinha dela, claro).

Já a oportuna “Poder do público” enfoca a evidente relação entre tecnologia, comportamento e economia no sistema de financiamento coletivo conhecido como crowdfunding, que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, viabilizando projetos independentes e estreitando as relações entre os autores e o mercado.

Ah, e aqueles assuntos classicamente artísticos como teatro, dança e literatura também estão contemplados aqui, como não poderia deixar de ser. “Dramaturgos em cena” aborda a tendência de revalorização da autoria no teatro paulistano; “De corpo e sonho” mostra os obstáculos à carreira de bailarinos e bailarinas, que têm de enfrentar uma formação longa e ensaios extenuantes; e “Criações editoriais” atenta para os cuidadosos projetos de livros, audiolivros e e-books das pequenas editoras.

Tudo isto já não seria pouco, mas, para nós, da Cásper, a comunicação é tudo. Então, não perca “Ideias no ar”, sobre a versatilidade dos profissionais de rádio na busca por conteúdos educativos e formatos inovadores. E um 2014 excepcional a todos vocês.

Tereza Cristina Vitali

Diretora