Cultura pra quem?

Por: Guilherme Barbosa

Cidade que já foi modelo por conta de suas opções culturais, Santos perdeu o brilho de décadas atrás e, atualmente, pouco oferece para seus moradores

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Edição nº 1 – 2014

É de se imaginar que uma cidade com 468 anos de existência, mais de 430 mil moradores, décimo maior município do Estado de São Paulo e quinto lugar no ranking de qualidade de vida entre os municípios brasileiros – conforme Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) – fosse um local onde não houvesse dificuldades para se localizar numerosas e variadas opções de cultura, como espetáculos teatrais, artísticas e musicais, por exemplo.

Entretanto, não é esse o cenário que se percebe em Santos, na Baixada Santista. O município do litoral de São Paulo já esteve entre os mais respeitados do país no que se refere às atividades artísticas, musicais, cinematográficas e teatrais. Apesar disso, ano após ano, Santos vê sua vocação cultural minguar e as alternativas disponíveis se tornarem cada vez mais escassas fazendo com que, consequentemente, o interesse da população por cultura em geral também diminua.

Entre as casas de apresentações teatrais, para restringir apenas a este único universo, os santistas ficam limitados a apenas duas opções: o Teatro Guarany e o Teatro Coliseu. O primeiro deles tem sua fundação datada de 1882 e foi a primeira construção com fins teatrais da cidade. Cerca de um século depois, em 1981, o local foi quase que totalmente destruído por um incêndio, e o pouco que sobrou – basicamente apenas as paredes externas do estabelecimento – permaneceram abandonadas por mais de duas décadas. Somente em 2008, depois de iniciativa da Prefeitura de Santos, a casa foi reconstruída. Atualmente, o Teatro Guarany funciona não somente como sala de espetáculos e casa de shows, mas também como escola municipal de artes cênicas.

Esse espaço também é, desde 2009, sede de um dos raros (senão, único) festival de literatura com certa relevância do município litorâneo. A “Tarrafa Literária” já teve cinco edições realizadas e tem como intuito realizar debates e oferecer palestras sobre temas que vão de literatura, história e jornalismo até ciência e futebol. Além disso, é claro, visa intensificar o interesse pelo hábito da leitura. Em média esse evento tem cinco dias de duração e conta com incentivo do Ministério da Cultura, apoio do Sesc, Prefeitura de Santos e realização de uma tradicional livraria santista.

Já o Teatro Coliseu, quase vizinho do Guarany (uma vez que os dois estão localizados no centro histórico de Santos), teve o começo de sua existência em 1897, mas funcionando apenas como um ginásio de madeira, com velódromo, arquibancada e botequim. Em 1909, ele foi substituído por um teatro com 1.500 lugares e, 15 anos mais tarde, foi reinaugurado com a configuração atual de 2.300 lugares. No que diz respeito às ofertas de espetáculos, essa é a principal casa existente no município e em toda a região da Baixada Santista – que emprega, ao todo, nove cidades do litoral de São Paulo.

Excetuando essas duas casas, as únicas alternativas relevantes são aquelas oferecidas pela unidade do Sesc em Santos, como apresentações de orquestras sinfônicas e peças teatrais. Entretanto, essa oferta é muito escassa para uma cidade que serviu de berço para autores como Plínio Marcos (de peças como “Navalha na Carne”, de 1967), e de moradia para a escritora e diretora de teatro Patrícia Galvão, a Pagu.

Além destes nomes, o município também ostenta com orgulho o fato de ter sido o local de nascimento (e atual residência) do músico, compositor e regente Gilberto Mendes, que até os dias de hoje é um dos principais representantes da música erudita brasileira, e que contribuiu enormemente para o desenvolvimento dessa área no país.

O campo da cinematografia é outra área onde o município de Santos já foi muito atuante, mas que, nos dias de hoje, apresenta parcas iniciativas. Mesmo já tendo sido considerada especialista em curtas metragens e sediando importantes festivais do segmento, as últimas produções de repercussão na cidade foram realizadas em 2007, quando os filmes “Querô” (produzido com base na obra de Plínio Marcos) e “Vida de Magnata” (do músico Chorão) foram lançados.

Fora isso, Santos serviu de cenário para a filmagem de algumas minisséries de época para televisão, como, por exemplo, “Um Só Coração” (produzida pela Rede Globo em 2003), quase que totalmente filmada no centro histórico da cidade. O mais organizado incentivo no setor cinematográfico de Santos é o Festival Curta Santos, que já teve 11 edições realizadas e premia autores de curtas metragens e vídeos clipes.

Apesar de ter vivido anos de brilho intenso, o panorama cultura santista na atual conjectura não é nada animador. Enquanto o quadro permanecer inalterado e não houver mais interesse e investimento por parte da política santista, assim como interesse por parte da população em cobrar essas medidas, a melhor possibilidade para os moradores da Baixada Santista em busca de um bom programa literário, teatral ou musical será se locomover mais de 70 quilômetros serra acima para aproveitar o que a capital do Estado tem a oferecer.