Sexo e amor na cibercultura

Por: Alexandre Yamaçake

O uso de aplicativos de relacionamento pode facilmente passar de recreativo a problemático

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Edição nº 7 – 2018

Quais são as questões fundamentais para a escolha de um aplicativo de encontro? Uma delas é a popularidade do aplicativo: quanto mais pessoas se cadastram, maior é a chance de encontrar um parceiro disponível, interessante e atraente. Dados da agência We Are Social mostram que o brasileiro passa em média de 4 a 6 horas conectado à internet por meios de celulares e tablets. Em computadores, a média de tempo conectado é de 5 horas. Ou seja, nós passamos cerca de 9 horas online. Imagine o mundo de possibilidades que as pessoas têm então para fazerem sexo virtual.

Embora os aplicativos já existam há mais de cinco anos, somente agora eles estão ganhando mais adeptos. Renato Alencar (nome fictício), relações públicas de 41 anos, afirma: “Parece que as pessoas não estão preparadas para lidar com um posicionamento mais franco e sincero. Se você diz que só quer sexo, elas insistem em querer se relacionar. Tive vários “dates”, alguns bem-sucedidos, outros desastrosos, mas nunca de fato mantive algum tipo de relacionamento depois”.

Aplicativos podem ser usados para tudo, desde um simples encontro, balada, cinema, festas e viagens até uma noite de sexo.  A maioria das pessoas tem de dois a quatro tipos de aplicativos – todos, sem exceção, dirigidos a maiores de 18 anos. Jorge Almeida, biólogo, 46 anos, afirma que já teve três relacionamentos “verdadeiros”, a partir de encontros de sexo casual.

Na onda tecnológica dos dias de hoje, as pessoas passaram a ter mais contato com o mundo erótico e descobriram novas possibilidades de aproximação, novas fantasias sexuais, sites pornográficos e oportunidade de estabelecerem conversas “picantes”, deixando de lado a timidez e a vergonha. Fernando Silva, designer gráfico, 44 anos, relata que a primeira vez em que instalou um app no telefone foi surpreendente. “Eu conseguia ver quem estava online e também a distância que as pessoas estavam. Era interessante poder ter sexo imediatamente sem ter que sair para algum lugar especifico. Além de sexo, aliás, conseguiu resolver outro problema: achar um apartamento para alugar”.

André Cerqueira, 29 anos, administrador, vai além, afirmando que aproveita o uso de aplicativos para divulgar seu trabalho.

O Departamento de Saúde do estado norte-americano de Rhode Island em parceria com a Universidade de Brown, realizou um estudo, informando que mais de 60% dos homens gays e bissexuais diagnosticados com HIV declaram marcar encontros por aplicativos para celular. Então, pegação com prevenção daria certo? André Cerqueira diz que não. “Acho que há falhas. Eu uso o aplicativo A, por exemplo, para incentivar algumas pessoas a realizarem o exame de HIV, mas não vejo nenhum incentivo dele nisso. Já o aplicativo B tem uma central de informação chata e cansativa – coisa que a maioria, a rigor, nem tem. Já levei pessoas a fazerem teste por conversarem comigo e algumas acabaram descobrindo ter o HIV”. Renato Alencar discorda e afirma que os aplicativos podem, sim, ajudar na prevenção. Vejo aí um forte aliado para se falar sobre o HIV. Acho apenas que os campos a serem preenchidos não são suficientes, pois muitas pessoas não os preenchem ou não honestas ao preenchê-los. O ideal seria os aplicativos fazerem uma campanha e lançar a discussão”.

Os aplicativos não são os responsáveis pelo fato de muitas pessoas fazerem sexo sem proteção, mas ampliam o número de parceiros sexuais, o que favorece a disseminação de doenças quando não há proteção ou mesmo orientação sobre o HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, o uso deles pode facilmente passar de recreativo a problemático. Assim, todo cuidado é pouco.