Qual o futuro do mercado de trabalho jornalístico?

Por: Tânia Caliari

Grupo de Pesquisa investiga como os cursos de jornalismo no Brasil preparam os futuros comunicadores

Grupo de pesquisa após reunião | Arquivo pessoal

Estariam nossas escolas e faculdades de comunicação se preparando para formar profissionais para atuar em ambientes comunicativos multiplataformas, nas quais textos, imagens e áudios são constituídos por códigos digitais passíveis de incontáveis arranjos de linguagem e disseminação? Estariam os estudantes sendo preparados para atuar criticamente num mercado no qual a lógica clássica do processo comunicativo muda radicalmente ao incorporar, entre outras coisas, o receptor como um participante interativo na navegação e mesmo na produção de conteúdo? Quais as novas habilidades necessárias para atuação no mercado, não esquecendo que as premissas de um jornalismo bem feito devem permanecer como base desse trabalho? Essas são algumas das questões que o Grupo de Pesquisa Comunicação, tecnologia e trabalho, liderado por Carlos Costa, do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Cásper Líbero, tenta responder.

Num momento em que o mundo do trabalho é sacudido pela adoção das tecnologias digitais nas atividades produtivas, o setor de comunicação e a atuação de seus profissionais estão entre os mais atingidos pelo avanço do domínio digital. Da linguagem de suas narrativas ao modelo de negócio, passando pelas novas habilidades exigidas e pelo surgimento de novas mídias digitais, tudo está em processo de transformação. Processo que aliás levanta profundas questões éticas.

Se o cenário é um tanto atordoante para os que já atuam no mercado, ele também representa enormes desafios para os novos profissionais em formação e para os cursos de Comunicação Social. Atento às demandas que se impõem à academia, o professor Carlos Costa formou em meados de agosto deste ano um grupo de pesquisa para investigar o assunto.

O grupo reunido pelo professor é heterogêneo, formado por estudantes de Graduação e Mestrado, e também por profissionais veteranos – entre jornalistas, relações públicas e publicitários – que passaram grande parte de suas carreiras em veículos e ambientes analógicos e que se deparam agora com esse novo mundo. A maioria desses veteranos está de volta à academia, diante da necessidade de atualização e de reflexão sobre a prática profissional.

“Após trinta anos de lida no jornalismo diário, comunicação corporativa, sindical e um vai e vem de trabalhos freelancer, o retorno à Universidade foi um chamamento interno. É urgente entender o momento de precarização que o jornalista enfrenta, como resistir na profissão e entender o ‘novo’ Jornalismo”, diz Adriana do Amaral, mestranda na Universidade Metodista de São Paulo.

Já para Susana Terao, que cursa Jornalismo na Cásper, a graduação tem dado oportunidade de conhecer ferramentas e conceitos como design, SEO, multimídia. “Muitas pessoas entram na faculdade de jornalismo impulsionadas pelo interesse pela escrita. O curso acaba exigindo mais do que isso, com outros domínios técnicos e com teorias focadas em outros ramos da profissão”.

A partir de encontros mensais, o grande interesse do Grupo de Pesquisa é fazer um levantamento sobre como os principais cursos de Comunicação do país têm reestruturado seus currículos para formar profissionais aptos a atender às demandas que a chamada Revolução 4.0 apresenta cotidianamente sobre as práticas, linguagens e veículos de comunicação. Sabe-se que no currículo de universidades estrangeiras já aparecem disciplinas voltadas para as novas habilidades exigidas pelo mercado, como Inteligência Artificial, Desenho de Interface do Usuário, Análise de Algoritmos, para citar alguns exemplos.

Os primeiros encontros do grupo já apontaram que há muito o que se estudar e discutir sobre o impacto das tecnologias no mundo do trabalho como um todo. Há de se olhar criticamente os discursos alarmistas sobre o “fim do mundo do trabalho”, mas também as novas formas de exploração dos trabalhadores, muitas baseadas em palavras como empreendedorismo, inovação, sustentabilidade, economia de compartilhamento que podem camuflar essa exploração e terceirizar responsabilidades.

O trabalho desenvolvido nas reuniões culminará na análise do resultado da pesquisa junto aos coordenadores dos cursos de Jornalismo das universidades brasileiras, e na elaboração de artigos sobre variados aspectos do tema.

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