A política transversal é o melhor caminho na defesa de direitos

Por: Rafael Rodrigues Pereira

O ativista André Pomba fala sobre militância das minorias, cultura e política no Brasil.

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Edição nº 7 – 2018

Nascido em São Paulo, capital, em 10 de abril de 1964, André Pomba Cagni iniciou na militância em 1979, quando lutava pela reconstrução da UNE, passando também pelo movimento sindical. Mais tarde, começou a atuar como ativista independente nas causas em que acredita (liberdades individuais, diversidade, sustentabilidade e cultura). É músico, DJ e produtor cultural, já foi conselheiro estadual da cultura e hoje faz parte do comitê de políticas do Ministério da Cultura. Também fundou a ONG Dynamite, que trabalha com inclusão social através da música e no apoio a artistas independentes. É referência como um dos maiores militantes LGBT do Brasil, foi conselheiro municipal e participou de todas as conferências desde Brasília até a periferia da capital. Em 2014, saiu candidato a deputado federal pelo PV e em 2016 a vereador por São Paulo, também pelo mesmo partido. Na entrevista a seguir, concedida à Arruaça, André fala sobre a relação do ativismo LGBTQ com a cultura e a política nacional.

ARRUAÇA – André, quais os principais desafios e dificuldades que um militante LGBTQ, sobretudo os iniciantes, podem encontrar hoje no cenário cultural?
André Pomba – Na realidade, eu sempre fui um militante cultural e, posteriormente, também pude militar na área LGBTQ. Lembro-me de quando uma pessoa chegou e falou assim para mim “Com tanto LGBTQ morrendo, tanto problema que nós temos, você vai ficar pensando em cultura? “. Então, quando você reflete, percebe que até dentro da própria militância gay há aquele ranço que vem da esquerda velha de achar que sua causa é maior que a da LGBTQ, sendo que dentro dessa também existe a divisão entre segmentos. A cultura pode ajudar justamente a derrubar preconceitos, ainda mais nos dias atuais, em que a gente vê como a direita tem atacado a cultura aqui no Brasil. Assim, ela realmente se torna um instrumento importante nesse sentido de trazer uma abertura de diálogo.
Eu tinha uma ONG no Bexiga, no seu primeiro ano de funcionamento, nós fomos fazer uma festa para a comunidade e lá tinha a presença do Xerxes, um artista queer não-binário [uma pessoa cuja identidade de gênero não é nem homem nem mulher, está entre os sexos ou além, ou é uma combinação de ambos], chegou uma liderança, um senhor nordestino, falando que era um absurdo uma festa que tinha criança ter um travesti na porta, tentamos dialogar, explicar, mas ele não entendeu, ficou bravo e disse que ia denunciar. No ano seguinte, fizemos a festa e novamente lá estava Xerxes, dançando Vogue [estilo de dança que surgiu na década de 1980, caracterizada por posições típicas de modelos com movimentos definidos por linhas e poses] com as crianças no palco, o senhor estava lá, dessa vez tranquilo, bebendo e conversando. Ou seja, eu acho que a mostra que temos é que um lance cultural pode, sim, ajudar a erradicar preconceitos e a criar esse entendimento no embate entre quem não é LGBTQ e a militância. Então, eu penso que a cultura é uma forma pacífica e esclarecedora de combater essa discriminação.

ARRUAÇA – Quais as iniciativas que ainda faltam no sentido de cultura como inclusão das minorias, no caso o grupo LGBTQ? O que pode ser feito de diferente do que já existe?
André Pomba – Bom, eu posso falar um pouco do que existe na Secretaria de Estado da Cultura. Lá, tem uma assessoria de gêneros e etnias há um bom tempo, que antes era muito focada na mulher e no negro e depois começou a se expandir para indígenas, ciganos e LGBTQ. Eu sempre acho que o LGBTQ tem que trabalhar de forma transversal com as outras linguagens, embora a gente saiba que às vezes é difícil ser acolhido pelas pessoas com deficiência, por ciganos, mas por indígenas nem tanto, pois por incrível que pareça, a homossexualidade lá é vista de uma outra forma, mais ampla do que a gente enxerga, mas é claro que tem distinção entre as tribos. Mas o que eu vejo é que o trabalho transversal é uma forma muito melhor a ser explorada do que ficar trabalhando somente cultura LGBTQ, eu até prefiro o termo diversidade no sentido mais amplo, que aí acolheria as religiões afros, negros, as mulheres, as pessoas com deficiência, os indígenas. Então, o que falta é trabalhar melhor as políticas transversais na defesa pelos direitos dos grupos que são vítimas de preconceito.

ARRUAÇA – Considerando sua trajetória de militância, sua atuação como conselheiro municipal LGBTQ, na sua opinião, quais seriam as maiores barreiras que um representante LGBTQ eleito encontraria na defesa de pautas e projetos culturais em prol desse grupo perante a bancada conservadora e fundamentalista do Congresso Nacional? Como contornar isso?
André Pomba – Na verdade, uma coisa que sempre digo claramente é que eu não sou favorável a esse tipo de embate que a esquerda ligada ao PT/PSOL faz com a direita ligada aos evangélicos, pois cria-se uma situação fratricida, que quem não está nem de um lado e nem de outro, acaba não adotando a pauta LGBTQ por medo de criar conflito. O Jean Wyllys, por exemplo, eu acho um desserviço total para a causa LGBTQ dentro do Congresso, não articula com ninguém, ele está lá para defender o partido dele e ele. Os projetos que ele faz são muito bem feitos, mas não avançam porque não tem diálogo. Então, o que falta é serem eleitos representantes LGBTQ que consigam estabelecer uma comunicação, um exemplo claro é o Tony Reis, que dialoga com todo mundo, desde o evangélico até o presidente da Câmara. Realmente falta liderança LGBTQ, pessoas que sejam capazes de levar a causa para frente.
O único avanço do movimento foi em relação à orientação sexual e identidade de gênero, feito por uma deputada do PSDB, a Mara Gabrilli, que conseguiu colocar isso no Estatuto da Pessoa com Deficiência, peitando os evangélicos e alegando que era necessário respeito, e a votação foi cento e oitenta e oito votos favoráveis contra cento e quarenta, ou seja, eles não são tão fortes quanto pensam. A hora que tivermos um representante que seja capaz de discutir de forma mais ampla, que nem foi o caso da Mara, que quase colocou tudo a perder para defender o direito à orientação sexual e à identidade de gênero no EPD e ganhou, percebe-se que esse embate não é tão difícil assim, basta que tenhamos pessoas firmes e preparadas no Congresso e dentro das casas legislativas.

ARRUAÇA – O que explica a baixa representatividade LGBTQ na política nacional? Você acredita em uma mudança desse cenário?
André Pomba – Eu oscilo entre acreditar e às vezes não. Na verdade, o que eu vejo é que não é só o LGBTQ que é pouco representado, tem 10% de mulheres no congresso, apenas cinquenta e uma deputadas, sendo que mais da metade é esposa de deputado, filha de deputado, que já é meio que tradicional, ou seja, elas defendem quem lhes interessa, então fica muito difícil um negro, um LGBTQ concorrer financeiramente com o poder dessas pessoas que estão lá há décadas, que são corruptas, têm dinheiro para fazer campanha e toda uma estrutura. Aí, uma pessoa como eu ou qualquer outro candidato, mesmo com a melhor das intenções, com panfletos e divulgação pelas redes sociais, não consegue atingir cem, duzentos mil votos necessários para ser eleito.

ARRUAÇA – Você se define como libertário. Em tempos de intolerância, censura e conservadorismo que estamos vivendo, o que pensa sobre o caso da mostra Queermuseu, uma vez relacionada às questões de gênero, diversidade sexual e cultura da comunidade LGBTQ?
André Pomba – Olha, eu sempre fui libertário, até mais do que já fui de esquerda. Hoje, eu acho que esse conceito de direita e esquerda já está ultrapassado. Há trinta anos, Fernando Gabeira já falava que esquerda e direita já não o representavam mais. Então, quando eu me defino libertário, é justamente esse lance de você entender que as liberdades individuais são um valor que a gente tem que perseguir. Especialmente em relação ao Queermuseu, eu não vejo nada, se você analisar a grosso modo toda a exposição, que era mais de duzentos itens, um ou dois itens você poderia colocar como algo polêmico, mesmo nesse sentido era contestável o que se dizia, a meu ver era apenas um quadro, uma coisa totalmente adaptável, não um incentivo à zoofilia, mas eu acho que isso é uma discussão mais funda, apesar de que eu não me importaria se meu filho visse, porque é uma realidade, uma coisa que acontece. Se o seu filho vê uma pessoa assassinada e violentada, isso é permitido? Para mim, isso tudo é um grande pano de fundo arquitetado pela direita para desviar o foco do que está acontecendo no país, essa roubalheira, o Temer, a própria Dilma que colaborou para chegar a isso, o MBL (Movimento Brasil Livre) e outras instituições que estão fazendo isso para beneficiar claramente a direita e tirar o foco do que realmente interessa no nosso país.

ARRUAÇA – Como a questão do estigma e do preconceito pode interferir e prejudicar a exposição de artistas em promover o debate e a reflexão de assuntos tão contemporâneos, como a diversidade e as diferenças?
André Pomba – Já é possível perceber patrocinadores retirando apoio às mostras que são polêmicas, não só LGBTQ. O MASP colocando censura de dezoito anos, tudo isso porque já tivemos uma esquerda mais ativa, hoje em dia temos uma direita mais ativista, que fica pegando vírgulas nas leis para impor, recentemente aconteceu boicote ao SESC Pompéia. Esse pessoal, em vez de defender causas urgentes, defender a Constituição, estão defendendo causas morais, como era na época da ditadura com o Comando de Caça aos Comunistas, a TFP (Tradição, Família e Propriedade). Infelizmente é um momento escuro que só vai acabar quando tiver uma nova eleição e novos representantes que possam realmente ser presidentes fortes, não fracos como o Michel Temer, como foi a Dilma no seu segundo mandato, que deixaram essas pessoas deitarem e rolarem, alguém que peite, que coloque essas pessoas no lugar delas e prendam toda vez que elas invadirem um museu ou agredirem alguém, não ficar sendo leniente com esse tipo de agressão, de censura que acontece.

ARRUAÇA – Qual o potencial e o papel da expressão artística e da comunicação na luta pela quebra de paradigmas e como forma de transformação social e comportamental?
André Pomba – “Orações para Bobby” é um grande exemplo com o qual eu posso ilustrar esse rompimento de paradigmas. Por ter um homossexual como protagonista e pela forma como a história se passa, eu pude perceber que muitas pessoas que assistiram àquele filme hoje têm uma visão diferente sobre o assunto. Por isso eu costumo dizer, diferentemente do que a própria militância LGBTQ diz, sim, a cultura é hoje a principal forma de você atacar o preconceito dessas pessoas, de você conscientizá-las pelo respeito à diversidade, à identidade de gênero e à orientação sexual. As próprias novelas fazem esse papel. A gente vê até a militância criticando, dizendo que as novelas estão glamourizando, mas o fato de as pessoas verem e talvez se identificarem com alguém que possa ser gay é um grande demolidor de preconceitos. Mas ainda tem aquela militância radical de esquerda que continua atacando as pequenas ou grandes iniciativas que podem contribuir com esse tipo de avanço.

ARRUAÇA – É perceptível que nos últimos anos as demandas do movimento LGBTQ na pauta da cultura aumentaram consideravelmente. Na sua concepção, ao que se deve esse fato, é somente por causa da maior visibilidade ou está surgindo uma nova configuração nas políticas públicas?
André Pomba – Nos EUA, você vê muito essa coisa do gay is the new black/ LGBTQ is the new black, porque o LGBTQ começou a ter maior visibilidade há vinte anos, é mais recente se comparado aos negros com cinquenta anos, as mulheres com setenta anos de história. Então, é um movimento que vai demolindo preconceitos, mesmo sendo mais lento do que gostaríamos que fosse, mas é uma luta que tem uma sequência e que não vai ter fim, querendo ou não, as pessoas acabam se adaptando. Há duzentos anos, tínhamos a escravidão, e as pessoas usavam a bíblia para justificá-la. Há cem anos, as mulheres eram reprimidas, eram obrigadas a ficarem em casa, tudo porque a bíblia dizia que as mulheres tinham que ser submissas aos homens, e assim é com a causa LGBTQ, eles usam vírgulas da bíblia aqui e ali. Eu sou ateu, a bíblia para mim é uma peça de ficção, uma mitologia cristã, mas para quem acredita e segue, infelizmente tem uma importância muito forte. Os cristãos dizem “bíblia sim, Constituição não! ”, como se pudessem apedrejar pessoas na rua, pessoas de religião afro. O que a gente percebe é que, apesar de tudo, o avanço vai acontecer, eles querendo ou não. Eles puxam de um lado e a gente dá dois passos para trás, mas depois dá um para frente, é só uma questão de tempo.