Artes e ciências – os diálogos de Invento

Por: Erika Luzia da Silveira

A revista Arruaça entrevistou o curador Marcelo Dantas e o artista contemporâneo Jarbas Lopes, criador da obra O bem e o mal-entendido

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Edição nº 4 – Janeiro de 2016

 

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Gertrude Stein (1990), de Nam June Paik

Quando a criatividade é desafiada, o que pode surgir? O que motiva o homem a superar limites, a buscar outras maneiras para se expressar, a empenhar-se para transformar a natureza? O automóvel, a televisão, a guitarra elétrica e a lâmpada incandescente são algumas das criações dos últimos 150 anos que modificaram as vidas de muitas gerações. A exposição Invento – as revoluções que nos inventaram propôs um diálogo entre arte e ciência, por meio de releituras que enfocaram as facetas sociais dos inventos. Os curadores Agnaldo Farias e Marcello Dantas reuniram 30 obras de artistas contemporâneos, estrangeiros e brasileiros, que estiveram expostas gratuitamente por 480 horas, no subsolo e no 1º andar da OCA, no Parque do Ibirapuera (SP), de 5 de agosto a 4 de outubro de 2015.

Comumente associada à ideia, a lâmpada incandescente foi abordada pelo artista plástico francês Christian Boltanski em Crepúsculo (2015), obra especialmente gerada a pedido dos curadores. A morte é um tema presente nas criações do artista, que dessa vez utilizou 480 lâmpadas incandescentes para homenagear o fim do objeto. A cada hora transcorrida, uma das lâmpadas de Crepúsculo se apagava.

A Arruaça entrevistou Marcello Dantas, um de seus curadores, e Jarbas Lopes, artista plástico brasileiro que expôs uma de suas obras na mostra.

 

 

A linha condutora de Invento
Designer e curador de exposições, Marcello Dantas é diretor de documentários desde 1986. É pós-graduado em Telecomunicações Interativas pela New York University, e graduado em Cinema e Televisão, pela mesma instituição. Em Florença, na Itália, estudou História da Arte e Teoria do Cinema. Em Brasília, cursou Relações Internacionais e Diplomacia.

Recebeu prêmios como o de melhor documentário na Bienalle Internationale du Film Sur L’Art, do Centro Georges Pompidou, em Paris, e no International Film & TV Festival of New York, entre outros. Em sua trajetória como curador de exposições destacam-se as de Bill Viola, Gary Hill, Jenny Holzer, Shirin Neshat, Laura Vinci e Tunga. E, dentre as mostras com abordagens históricas: Antes – histórias da pré-história e arte da África, no CCBB; e, 50 anos de TV e +, na Oca do Parque do Ibirapuera.

Dantas exerceu o cargo de diretor artístico no Museu da Língua Portuguesa, inaugurado em 2006, em São Paulo.

 

ARRUAÇA – “Invento: as revoluções nos inventaram” reúne releituras de invenções dos últimos 150 anos. Por qual motivo a curadoria selecionou esse período? Qual foi o critério para a escolha dos inventos?
Marcello Dantas – O motivo é simples, cem anos deixariam de fora coisas muito importantes, como o automóvel, o avião, a lâmpada elétrica e outros. 1865 é um ano marcante, pois o fim da escravidão nos Estados Unidos abriu uma janela espetacular para a inovação, diante do fato de que a mão de obra deixou de ser barata. Então, isso incentivou fortemente a inovação para que reduzisse ou tornasse mais eficiente o trabalho cotidiano. Assim, elegemos esse marco. 200 anos não dariam grande vantagem sobre os 150 e perderiam essa justificativa simbólica importante.

 

Em sua opinião, de onde vem uma ideia inovadora? O que nos motiva a inventar algo?
A capacidade criativa do homem é pressionada pela urgência da necessidade. Uma guerra, doenças, crises, esgotamentos são os maiores combustíveis para a invenção. E, artistas são inventores de linguagem, assim como inventores são criadores fortíssimos.

 

Segundo Platão, “A necessidade é a mãe da invenção”. Para você, as invenções mundiais dos últimos 150 anos foram tentativas de suprir necessidades humanas ou de proporcionar condições mais confortáveis de o homem viver?
Conforto não é motivação, é consequência indireta. A necessidade é a grande mãe da inovação.

 

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Materialista (2008), de Damián Ortega

 

Em sua opinião, a sociedade é capaz de lidar com as consequências das invenções a curto, médio e longo prazo? Isso é a extensão ética da invenção. Podemos inventar um monte de coisas, que seriam consideradas negativamente pela ética vigente. Porém, a ética também muda de posição e algo que um dia foi considerado inaceitável pode um dia ser totalmente digerido eticamente.

 

“Invento: as revoluções que nos inventaram” foi sua primeira parceria com o curador Agnaldo Farias? Como foi a decisão de trabalhar com conceitos de arte contemporânea e tecnologia, criando possibilidades de interatividade?
Nós nos entendemos muito bem. Adoro o Agnaldo. Pelas nossas formações distintas, eu foquei mais em arte internacional, seguindo algumas coisas que discutimos, e ele no Brasil. Ainda assim, foi super divertido trabalhar com um conceito amplo, baseado em um livro de ciência e, não em dogmas da historia da arte. Isso nos deu enorme liberdade.

 

Arte, tecnologia e interatividade são características de sua curadoria, como podemos notar no Catavento Cultural e no Museu da Língua Portuguesa. Para você, inovação, arte e tecnologia devem ser complementares?
Nem penso que essas coisas são diferentes, os melhores artistas do mundo sempre dialogaram com a ciência e a tecnologia. Isso é da natureza do processo. Quem não enxerga isso é porque não está prestando atenção na integração natural dessas coisas. Mesmo um pintor como Kiefer (Anselm Kiefer, 70, artista alemão) está dialogando com a alquimia para fazer sua obra. Interatividade, por sua vez, é um clichê da mídia. Existem centenas de obras de teor interativo que não têm botão para apertar. Para mim, interatividade é inclusão. Quando você inclui o espectador dentro da obra de alguma forma, aí nasce a interatividade.

 

Como foi o desafio de reunir as releituras concebidas por artistas contemporâneos internacionais e brasileiros na Oca? Você já conhecia o trabalho deles?
Sim. Eu encomendei esses trabalhos a artistas que acredito serem capazes de absorver essa poética. Alguns trabalhos como o do Boltanski (alusão a Crepúsculo (2015), obra composta por 480 lâmpadas incandescentes), já nasceram na primeira proposição que fiz a ele. Outros foram sendo gestados. Mas, esses trabalhos foram necessários para dar conta de invenções das quais não encontramos obras fortes o suficiente, já produzidas. A Oca também é um espaço que demanda uma envergadura criativa maior.

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Vista Explodida (Passageiros) (2011), de Jim Campbell

 

Você acredita que a arte possa estimular a autoconsciência, a responsabilidade individual, a autonomia e a liberdade?
Arte não tem que servir pra nada. As pessoas é que tem que pensar em como usar a arte para alguma metáfora da sua vida, ou do mundo em que estão, ou algum processo que desejem viver. Mas, isso é a apropriação que cada um faz da arte. O melhor da arte é isso. Algo que não se pode possuir, que é despertado dentro de si.

 

Segundo Agnaldo Farias, em Arte brasileira hoje (2002), “Embora a arte seja tratada como um produto em alta no meio internacional, em nosso país a arte contemporânea brasileira é ainda vista com reservas por um público forquilhado entre a curiosidade e a irritação causada pela dificuldade de compreendê-la”. Em sua opinião, essa visão da arte contemporânea brasileira corresponde ao momento atual?
Acho perfeito o que o Agnaldo diz. Meu trabalho, em grande parte, é criar pontes entre esses universos desconectados do meio das artes visuais e o grande público. Isso para mim é o mais importante, fazer com que pessoas que desdenhavam, ou não se interessavam por arte, passem a ver um sentido nisso, e a gostar disso. Assim como fizemos no Museu da Língua Portuguesa. Estimular a criançada a gostar de museu e de língua portuguesa, depois que saíssem de lá. Não faz o menor sentido no país em que vivemos desprezar o público. Quero abraçar o público, e permitir que se encontre com novas possibilidades estéticas e conceituais. Quero que os cidadãos gostem de arte, só isso protegerá a criação nesse país.

 

 

A Mobilidade e a Arte de Jarbas Lopes
Natural de Nova Iguaçu (RJ), Jarbas Lopes nasceu em 1964. Vive e trabalha em Maricá (RJ). É bacharel em Escultura pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre seus trabalhos, estão instalações, esculturas, desenhos, fotografias, performances e projetos realizados no espaço público.

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O Bem e o Mal-Entendido (2006), de Jarbas Lopes

 

Lopes atribui novas configurações artesanais aos materiais do cotidiano utilizados em suas obras, como forma de resistência a produção massificada. É criador de O bem e o mal-entendido (2006), obra selecionada pela curadoria da mostra “Invento – as revoluções que nos inventaram” como uma releitura do automóvel, na OCA, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

O artista concedeu entrevista à revista eletrônica Arruaça, a respeito de sua relação com as artes plásticas e suas influências, falou sobre o desenvolvimento de seu estilo e os temas abordados em suas criações.

 

 

ARRUAÇA – Com qual idade descobriu sua vocação para as Artes Plásticas?
Jarbas Lopes – Sinto que a arte foi me descobrindo. Digo isso sem vaidade, porque me refiro ao espírito da arte, e não ao reconhecimento social que ela pode trazer ao artista. Antes disso, eu ficava ali, tranquilo, no lado perdido da juventude, contemplando. E, então, de modo casual, aos poucos, a arte foi me atraindo, começando depois dos 22 anos. Fiz um curso de desenho, cursei uma faculdade de Belas Artes, apresentando algum resultado com conteúdo desse encontro em uma exposição, 10 anos depois. O que não é muito cedo, mas, também, como a arte sempre afirma. Nunca é muito tarde.

 

Quais são suas principais influências?
O dia-a-dia. Vou misturando e tomando consciência da vida e da arte, sem me dar muito à conta das influências. Vou com um grande desejo de experimentar para ver a força da criação, e entender-me com ela. Historicamente, me ligo a vertente Neoconcreta da arte brasileira e suas vanguardas. E, inspiro-me muito com propostas de artistas amigos, mais próximos. Principalmente, quando me envolvo com elas, com alguma colaboração.

 

Como desenvolveu seu estilo?
Penso que cada pessoa tem em sua constituição natural, um modo ao qual ela se identifica para se expressar. Por isso, umas se darão bem com a matemática e outras com o grito gutural. Entendendo assim, procuro questionar e movimentar essa condição, diversificando e experimentando criar, em diferentes situações. Para ver como vai reagir em mim, com o desejo de criar nas diferentes possibilidades. Então, crio desenhos com canetas sobre papel, vou para ação de rua com performances, para a pintura, objetos, esculturas, instalações, fotografia, interações educativas etc. Procurando não ter um estilo, mas sabendo também que isso é um estilo.

 

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Sem Título (1967), de Andy Warhol

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Experimento em Fá# Menor (2013/2015), de Janet Cardiff e George Bures Miller

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao longo de sua trajetória, você abordou veículos de transporte, como por exemplo, as bicicletas em Cicloviaérea e os automóveis da escultura O bem e o mal-entendido. Por qual motivo você se interessa por eles?

Pode ser pela ideia de mobilidade da arte. Primeiro criei a obra Troca-Troca (2002), três fuscas coloridos pela troca das peças da lataria entre eles, pensando que a obra vai até ao público. “O museu é o mundo” (de Helio Oiticica), em movimento e em troca com as pessoas. Depois, fiz a escultura com fuscas O bem e o mal-entendido (2006), estática, mas, pondo em movimento o pensamento dos diálogos, opostos e de complemento, ficção e realidade, vida e arte, etc. O fusca branco, que funciona, foi por um tempo meu carro de uso pessoal, quando não estava sendo escultura. Junto a isso, porque as ideias também se misturam, em 2001, comecei a desenvolver o projeto Cicloviaérea (cicloviaerea.com), site no qual coloco todas as experimentações da arte envolta da ideia principal da criação de “ciclovias elevadas do chão”. O objetivo é promover e facilitar o uso da bicicleta, como símbolo do equilíbrio, da integração ponderada entre homem-máquina e tudo mais que isso envolve, como mobilidade, sustentabilidade e experiência estética, posicionando-se como um manifesto futurista do séc. XXI, que fala de futuro para hoje.

 

Suas obras integram diversas exposições individuais e coletivas, além de coleções públicas, no Brasil e no Exterior. Você considera que a arte é capaz de despertar a consciência crítica e a reflexão sobre como a sociedade valoriza os bens de consumo?
Quando vamos ver a arte como uma condição primordial da vida, que vem como uma necessidade vital do ser humano, junto com a necessidade de se alimentar, se proteger do frio, beber água para manter-se vivo, isso não é exagero, é um fato. A arte se desenvolve como o primeiro modo de reflexão do homem. Como se explica o ser humano lá no início primitivo, preocupado só em comer um churrasquinho de anta, ou umas folhinhas vegetarianas, e contemplar, começar com os registros de desenhos nas paredes das cavernas. E, por aí seguindo, criar instrumentos musicais, ferramentas, religiões, ciência… Até chegar aos exagerados modos atuais de valorizar os bens de consumo.

 

Como foi o processo criativo que originou a escultura O bem e o mal-entendido? Como foi a escolha dos materiais utilizados?
Creio que essa resposta se completa com as questões acima, no processo criativo vindo dessas observações. E o material, primeiro pela forma de semicírculo do objeto fusca, mais a facilidade de ser um material acessível e relativamente barato.

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Mecânico (2014), de Julian Opie

 

Em sua opinião, por qual motivo os brasileiros se apaixonaram por fuscas?
Acho que também por ser um projeto estético e mecânico muito bem resolvido, que foi concebido originalmente para ser popular, e pela condição facilitada para comprar, manter e reparar os desgastes.

 

Segundo o curador, Agnaldo Farias, em A arte brasileira hoje): “Sintoma de uma insatisfação, cada obra de arte traz embutida uma crítica à própria noção de arte e pode mesmo modificar aquilo que entendemos por arte”. Você concorda com essa afirmação?
Concordo com a maior satisfação, tenho essa afirmação como a melhor disposição da arte. Agnaldo faz muito bem em dizer isso. Enquanto vejo outros modos de reflexão e desenvolvimento fazerem questão de manterem o estado das coisas estabelecidas, para poucas pessoas se privilegiarem, fazendo apenas mudanças de acordo com esses interesses, vejo a arte fazer diferente. Em muitos casos, a arte também não está fora dessa exploração, mas, por ser aquele elemento primordial, ela tem energia, lança-se para as mudanças e experiências verdadeiras, questionando principalmente o próprio status. Podemos ver isso sendo exercitado e aceito até pelos meios de domínio institucionais, e que foi fortalecido após o grande passo dado nessa direção com os parâmetros da arte moderna. Mostrando para a sociedade essa consciência que busca a relação com o verdadeiro espírito da arte, que não serve a ninguém e para nenhum determinado propósito, é livre.

 

Um museu de ciências visto pelos olhos da arte

Conheça, abaixo, mais algumas das obras da mostra: