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Edição nº 2 – Dezembro de 2014

Crédito: Weber Sian

Crédito: Weber Sian

O convite foi aceito com certa surpresa por Lucas Arantes, que parecia não entender o porquê do interesse sobre ele. Aos 28 anos, Lucas é escritor, jornalista e amante da psicanálise. É membro fundador e coordenador do Espaço Cultural A Coisa, de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Tem alguns livros publicados, escreve textos de teatro para a sua e outras companhias de teatro. Dirige, atua e, quando é convidado, faz assistência de direção. Morou alguns anos na capital trabalhando como jornalista na SP Escola de Teatro. Fez cursos de dramaturgia com Roberto Alvim, Luís Alberto de Abreu, Flávio de Souza e Samir Yazbek.

Nascido em Ribeirão Preto, onde reside atualmente, Lucas esconde certa timidez atrás dos olhos grandes e expressivos. Não é um aficionado pelas tecnologias do momento, dando valor às coisas mais simples. Mesmo discreto, o dramaturgo não tem mais como passar despercebido. Ele é autor do livro “Edifício London” (Editora Coruja), retirado de circulação em março de 2012. O texto, baseado em tragédias como “Medeia”, de Eurípides, e “Macbeth”, de Shakespeare, tem como pano de fundo o caso da menina Isabella Nardoni, que morreu após ser jogada pelo pai, Alexandre Nardoni, da janela de seu apartamento, em março de 2008.

Lucas foi condenado a pagar uma indenização de R$ 20 mil à mãe da menina, Ana Carolina de Oliveira, por danos morais. Ela acusa a obra de retratá-la como “uma mulher despreocupada com a prole e envolvida com a vulgaridade, além de violar a sua privacidade”.

O processo segue em segredo de justiça, o que impossibilita que ele seja consultado. Caio Victor Fornari, advogado do dramaturgo, alega que o caso “é de censura. Se não bastasse isso, ainda houve cerceamento do direito de defesa durante o processo”. Ele espera que em Brasília a situação possa se reverter.

Arruaça: Você escreveria o “Edifício London” de outra forma?
De jeito nenhum, não mexeria no texto. Talvez eu devesse ter sido menos inocente e trabalhado melhor a produção do espetáculo, para não haver uma divulgação dúbia que pudesse estragar a peça. A imprensa distorceu a informação. Enxergaram a peça como uma biografia, coisa que ela não é. A obra é ficcional, fala da relação entre pessoas de nossa época. Quem disse que a mãe do “Edifício London” é a mãe da menina? Quem disse que não pode ser a minha mãe encenada na peça? Uma obra não vem do nada, vem dos fantasmas do seu escritor. Por isso, escrever é um pouco vergonhoso, porque nos expomos demais. Enfim, faltou cuidar do London.

Segundo matéria publicada pelo portal “Consultor Jurídico”, a juíza Fernanda de Carvalho Queiroz, da 4ª Vara Cível de São Paulo e autora da sentença, entendeu que “a obra viola o direito de privacidade, pois o público mediano não é capaz de separar licença poética de acontecimentos reais”. O que você pensa sobre isso?
Eu entendo o argumento dela, tanto é que elegemos o Tiririca de novo, ou seja, ficção e realidade estão totalmente entrelaçadas. Hoje a gente não tem programa político e, sim, propaganda política. É o marketing que elege os candidatos, mas, por um lado mais racional e menos filosófico, é surreal alguém que representa o povo falar que quem ela representa é um lixo, nivela por baixo. Ao invés de oferecer produtos culturais elevados, opta-se pela baixaria porque funciona. Ninguém questiona, e o público gosta dessa farsa, deste espetáculo.

Em recente episódio ocorrido na PUC-SP, o Oficina foi processado por um padre, que se sentiu

Crédito: divulgação

Crédito: divulgação

ofendido por uma performance realizada pelo grupo nas dependências da universidade. Os atores teriam despedaçado um boneco, que seria a representação do Papa Bento XVI. A multa estabelecida foi de um salário mínimo, que o grupo se recusou a pagar. Você consegue entender por que sua multa é de R$ 20 mil?
Tão complicado falar sobre o assunto, por todo o absurdo que é. Como o Zé disse, arte não é crime. Mas, no caso dele, me parece que foi uma tentativa simbólica de condená-lo, no meu, é claramente uma tentativa de silenciamento.

Como você lida com a condenação?
Eu tento esquecer, fazer outras coisas, senão enlouqueço. Mas me preocupo, porque, se eu for condenado, eu terei que mudar quem sou, o que faço. Eu não sou filho de diplomata, senão já estava fora do país; não sou de família rica, senão estaria morando em Buenos Aires, ou dando um rolê em Madrid, em Portugal, pagando de censurado e traduzindo obras de arte. Mas estou em Ribeirão Preto e não posso aceitar ser condenado por causa de uma peça de teatro. Pagar 20 mil reais é surreal.

Em meados de novembro foi anunciado na imprensa que a atriz Deborah Secco se prepara para viver Suzane von Richthofen nos cinemas. Você acha que o filme terá problemas com a justiça ou com a família de Suzane?
Acredito que eles não terão problemas com a justiça, pois, da forma que foi divulgado, com grandes produtores por trás, me parece que deve ter havido um acordo com a família ou algo do gênero. Eles, pelo que me parece, irão retratar o caso, e o “London” não é só ‘inspirado’ em um acontecimento real, mas também em fábulas da literatura, para retratar um drama universal. Em nenhum momento busquei fidelidade com a realidade, pois essa nunca foi minha intenção. É lamentável.

 

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