Escrevemos sobre quem somos

Por: Gílson Yoshioka

Oscar Nakasato fala do lançamento de seu segundo romance após seis anos da conquista do Prêmio Jabuti e também do ofício de escritor

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Edição nº 7 – 2018

 


Nascido em Maringá, no Paraná, em 1963, o neto de japoneses Oscar Nakasato é graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá, mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual Paulista. Professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná, Nakasato é o autor do romance “Nihonjin”, vencedor do Prêmio Benvirá de Literatura, em 2011, e do Prêmio Jabuti, em 2012. Prestes a lançar o segundo romance, “Dois”, o escritor concedeu entrevista exclusiva à revista Arruaça, na qual revela mais detalhes da relação entre os estudos e as pesquisas, a literatura e a vida.

ARRUAÇA – Após seis anos da publicação de “Nihonjin”, o senhor está prestes a lançar o romance “Dois”. Qual a importância desse hiato na produção de sua nova obra?

Oscar Nakasato Eu poderia recuperar toda uma teoria sobre a importância do hiato, sobre o ócio produtivo, mas a verdade é que sou muito lento para escrever e não tenho muito tempo em função das minhas atividades como docente numa universidade pública, esposo e pai. É claro, entretanto, que esse tempo serviu para eu amadurecer a ideias que tinha para o novo romance, realizar experimentações estéticas e reescrever muitas vezes o mesmo trecho.

 

ARRUAÇA – Como foi o processo de produção da obra? Houve um grande trabalho de pesquisa, assim como em “Nihonjin”?

Oscar Nakasato “Nihonjin” nasceu de uma pesquisa acadêmica. No caso de “Dois”, eu realizei uma investigação com o objetivo específico de encontrar elementos para entender, principalmente, a guerrilha urbana durante o período da ditadura militar no Brasil. Foi uma pesquisa de menos fôlego, se comparada àquela que realizei para escrever “Nihonjin”. Mas a pesquisa é constante… Ainda bem que temos a internet. Só para dar um exemplo: para escrever uma cena de “Dois”, eu precisava saber se a revista em quadrinhos Tex já existia na década de 1960, e a Internet respondeu que sim.

 

ARRUAÇA – A figura do senhor se mistura com a do narrador, também neto de japoneses, em “Nihonjin”. Em “Dois”, há igualmente elementos autobiográficos?

Oscar Nakasato Eu sempre digo que escrevemos sobre quem somos. Por mais distantes que o enredo e os personagens sejam do autor, considerando-se a sua biografia e a sua personalidade, há elementos que acabam denunciando sua presença na obra. Em “Dois”, temos como protagonistas dois irmãos com mais de sessenta anos, descendentes de portugueses, mas um deles é o caçula, estudou no Colégio Gastão Vidigal e participou de movimento estudantil, como o autor. Ambos cresceram em Maringá, como eu. Há muitos pontos de contato.

 

ARRUAÇA – Quais as vantagens e as desvantagens na produção literária de um professor doutor em Literatura?

Oscar Nakasato O crítico e escritor José Castelo diz que um professor do ensino secundário o aconselhou a não fazer o curso de Letras se quisesse se tornar escritor. No meu caso, a trajetória acadêmica me ajudou, porque precisei me tornar um leitor muito atento e aprendi técnicas de escrita. A desvantagem é uma cobrança interna e externa maior.

 

ARRUAÇA – Que tipo de contato o senhor estabelece com as novas gerações?

Oscar Nakasato Eu converso muito com os escritores da nova geração. Meus alunos estão na faixa etária de 20 anos. Meus filhos e meus muitos sobrinhos têm entre 16 e 40 anos. Ou seja: estou sempre com jovens. Aprendo com eles, presto atenção ao seu comportamento.

 

ARRUAÇA – Em “Nihonjin”, há um embate entre os japoneses fieis ao culto ao Japão Imperial e aqueles favoráveis à assimilação dos costumes e adaptação ao País. Quais as relações entre esse cenário antigo e o do Brasil atual, às vésperas do aniversário de 110 anos da imigração japonesa em 2018?

Oscar Nakasato Hoje a maioria dos nipo-brasileiros está na terceira e quarta geração. Esse embate não existe mais, com raríssimas exceções.

 

ARRUAÇA – Existe uma literatura nipo-brasileira sendo produzida no País? Quais as características dela?

Oscar Nakasato O que é literatura nipo-brasileira? Primeiro temos a literatura praticada por nipo-brasileiros, que pressupõe um modo de enunciação. Essa literatura pode ter temática nipo-brasileira, que é o caso do meu romance. É o caso ainda de “Sonhos bloqueados”, um belo livro da Laura Honda Hasegawa. Mas há, também, obras escritas por nipo-brasileiros, cujo assunto não é o mesmo. O André Kondo é exemplo dessa especificidade… Ele é um nikkei [descendente de japoneses], e seu belíssimo livro “Contos do sol nascente” é composto de histórias que se passam num Japão antigo. Ou seja, a temática é outra.

Há, ainda, aquela literatura cujos autores não têm ascendentes japoneses. É o caso de “O sol se põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho, que conta a história de um yonsei [4ª geração de descendentes de japoneses] que parte para o Japão para desvendar uma história truncada que tem início naquele país e termina no Brasil. É, também, o caso de “Rakushisha”, um belíssimo romance com passagens líricas, em que um rapaz nissei [2ª geração de descendentes de japoneses], contratado para ilustrar um livro de Bashô, vai ao Japão conhecer a terra do poeta. Em ambos os casos, os personagens acabam realizando uma viagem que os conduz ao autoconhecimento. Todos esses textos literários que eu citei, de alguma forma, realizam esse diálogo entre o Brasil e o Japão, seja pela abordagem, seja pela autoria, seja pelos dois elementos.

 

ARRUAÇA – Qual é o papel dessa literatura?

Oscar Nakasato A literatura nipo-brasileira, primeiro, cumpre o papel de qualquer literatura. Antes do termo “nipo-brasileira”, há a palavra “literatura”. Ou seja, antes de ser literatura nipo-brasileira, é literatura e, assim, cumpre o papel de realizar reflexões sobre o ser humano de maneira indireta, de proporcionar entretenimento. Sem cumprir esse papel, nem adianta irmos para a segunda parte, mesmo porque, antes de ser brasileiro, japonês ou americano, o ser humano é ser humano.

Agora, mais especificamente, essa literatura cumpre um importante papel de proporcionar representatividade a uma parcela considerável de brasileiros, que são ascendentes de japoneses. A imigração japonesa completou 109 anos em 2017, e os nikkeis, hoje, representam aproximadamente 1.500.000 habitantes, com uma contribuição gigantesca para o desenvolvimento do País nos mais diversos setores. É claro que eles precisam estar presentes, também, na literatura. Eu, quando leio o que um negro escreve, passo a conhecê-lo melhor, passo a conhecer melhor alguém que trabalha comigo, um amigo, um vizinho. A literatura cumpre, também, um grande papel na percepção do outro, que é de outra etnia, de outra geração, de outro extrato social…

 

ARRUAÇA – Como autores fundamentais, o senhor cita Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, José Saramago, entre outros, mas nenhum japonês. Como isso reflete em seu trabalho?

Oscar Nakasato   Ultimamente tenho lido muitos autores japoneses, como Natsume Soseki, mas não são escritores que participaram da minha formação como leitor e escritor, como esses citados na pergunta. Os leitores reconhecem no meu romance a sutileza que caracteriza escritores do Japão, mas ela não nasceu da leitura de suas obras. A técnica da minha escrita tem origem na literatura de língua portuguesa.

 

ARRUAÇA – O senhor conhece o trabalho de escritores ou artistas da comunidade nipônica em outros países? Quais as semelhanças e diferenças entre os trabalhos?

Oscar Nakasato   Não diretamente. Conheço Fernando Iwasaki, do Peru, mas ainda não o li. Recentemente a professora Cecily Raynor escreveu um artigo revelando aspectos comuns ao meu livro “Nihonjin” e ao romance Obasan, da escritora nipo-canadense Joy Kogawa. E a poeta Marília Kubota escreveu duas resenhas sobre dois romances da escritora nipo-americana Julie Otsuka: “Quando o imperador era divino” e “O Buda no sótão”. Eu ainda não li esses romances, mas pelas análises realizadas por Raynor e Kubota, percebo neles a presença forte da voz nikkei. É a mesma voz que reconhecem em “Nihonjin”.

 

ARRUAÇA – Com a comunidade nipônica há um bom tempo adaptada ao Brasil, como ainda divulgar e manter a cultura e as tradições japonesas?

Oscar Nakasato A divulgação e a manutenção da cultura e das tradições é importante, mas precisamos entender que as mudanças são naturais. A imigração japonesa teve início no Brasil há mais de cem anos, portanto, eu não posso querer que meus filhos, por exemplo, que são yonseis e hafus [mestiços de japoneses], comportem-se como japoneses. Eles são brasileiros com ascendentes japoneses, e há uma distância de duas gerações que os separam.

 

ARRUAÇA – O senhor continua a estudar e pesquisar sobre a cultura japonesa?

Oscar Nakasato Não se pode dizer que as leituras que faço e os filmes a que assisto correspondem a estudo/pesquisa. Há cerca de um ano e meio interrompi um curso de conversação que fazia há quase dois anos por absoluta falta de tempo. O que faço agora é ler autores japoneses e assistir aos poucos filmes japoneses que consigo acessar pela internet.

 

ARRUAÇA – Qual a importância do Prêmio Jabuti em sua carreira?

Oscar Nakasato Tanto o Prêmio Benvirá quanto o Prêmio Jabuti foram importantes para eu conseguir divulgar o meu trabalho. Eu conheci vários escritores nas minhas andanças, e muitos comentaram o mesmo comigo: sem os prêmios literários, não teriam tido projeção. O Prêmio Jabuti, por ser considerado o mais importante no âmbito da literatura, lança o ganhador na mídia imediatamente. E hoje, com a internet, essa projeção alcança uma proporção muito grande.

 

ARRUAÇA – Qual é o próximo livro e o que move o senhor a escrever?

Oscar Nakasato Depois de “Dois”, penso em retomar a temática da cultura nipo-brasileira. Estou inserido nela, e grande parte da minha memória diz respeito a esse tema. É natural que eu fale dela.

 

ARRUAÇA – O que a literatura tem a dizer hoje para o homem e a mulher do século 21?

Oscar Nakasato A função da literatura continua sendo a mesma de sempre para o homem e para a mulher: traduzir a vida, e cada escritor o faz a sua maneira. No meu caso, espero sempre que o leitor perceba no meu texto a intenção estética nessa tradução.

O escritor Oscar Nakasato | Crédito: Elis Tama Silva Nakasato