Oficina dos Menestréis: um teatro de brincadeira

Por: Jéssica Bauab

Um dos fundadores do grupo teatral, Candé Brandão, fala com exclusividade à revista Arruaça.

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Edição nº 4 – Janeiro de 2016

 

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O típico carioca, despojado, sotaque carregado e o jeitão de surfista. O professor de teatro continua do mesmo jeito do garoto que se apaixonou pelo meio artístico com 12 anos de idade. Fez algumas peças profissionais, mesmo não sendo formado em artes cênicas. Desiludiu-se com a vida artística em função de as pessoas buscarem primeiro o resultado e depois o estudo, e acabou se distanciando desse meio temporariamente. Nesse intervalo, cursou uma faculdade de jornalismo, mas largou no último ano, quando se encantou por um espetáculo do Oswaldo Montenegro. Quando começou a fazer o curso com o irmão do músico, Deto Montenegro, surgiu uma grande amizade e a parceria parar fundar a Oficina dos Menestréis.

 

 

ARRUAÇA – Como surgiu a ideia da Oficina?
Candé Brandão – O método que trabalhamos chamamos de método do reflexo. É trabalhar a intuição, a percepção, o reflexo do aluno. Isso foi uma coisa que o Oswaldo Montenegro já trazia ao treinar o elenco de seus espetáculos. Mas era apenas uma coisa intuitiva na cabeça dele, porque ele queria que os artistas fossem um pouco mais dinâmicos, não ficassem elucubrando demais antes de fazer alguma coisa. Então ele dava os exercícios para que as pessoas agissem rápido, sem medo de errar. E o Deto, até por ser irmão do Oswaldo, já fazia peças com ele. Quando eu comecei a fazer, a gente se identificou muito com a didática usada, inclusive o Deto, no Rio de Janeiro, já dava aula usando um pouco esses exercícios. Quando viemos para São Paulo, em 1991, a convite do Oswaldo, começamos a dar aula aqui ainda como Companhia Oswaldo Montenegro. Mas sabíamos que ali tinha uma coisa legal para a gente dar para qualquer tipo de pessoa. E em 1994, quando o Oswaldo Montenegro voltou para o Rio de Janeiro, resolvemos fundar a Oficina dos Menestréis e desenvolver cada vez mais esse método.

 

Que técnica vocês usam para montar os espetáculos?
A gente usa primeiro uma técnica para treinamento do elenco, não só para peça, mas para vida. Para vida profissional, para a vida que é trabalhar em cima da perda do medo de errar, resgatar a intuição que é a criatividade através disso tudo resgatar a sua autenticidade, o trabalho de coletivo. Tudo isso é o que a gente trabalha com os alunos nos primeiros quatro meses. Depois com eles já tendo essa base formada, aí, sim, a gente passa a usar esse treinamento e efetivamente ensaiar o espetáculo. Mas sempre focando nessa coisa do junto, do team work, do coletivo, da coisa de não ter medo de errar. De ser responsável no treinamento, no horário, no estudo, para quando chegar ao palco não ter medo de errar.

 

Qual a frequência dos espetáculos e a repercussão deles no meio teatral?
Para ter uma ideia, estamos aqui há 24 anos. No começo, a repercussão era grande, mas ainda existia certo pré-conceito em virtude de não sermos um curso de teatro. Só que sempre falamos que não somos mesmo um grupo de teatro, e o legal é não ser. A gente sempre indicou para os nossos alunos para quiser fazer teatro, que procure um. Então hoje, esse certo pré-conceito virou admiração. Pessoas de outros grupos indicam para virem para cá, para fazerem esse treinamento de palco. E quanto à frequência, todo mês tem peça. Porque tem sempre uma turma finalizando, sempre tem uma turma apresentando o resultado de fim de curso.

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O que as pessoas procuram quando decidem fazer a Oficina dos Menestréis?
Todo mundo que vem para cá vem porque ouviu de uma pessoa. É um lugar que você leva muita coisa para seu lado pessoal e profissional, que é essa coisa de trabalhar o coletivo, ser um pouco mais ligado no dia-a-dia, aceitar mais seus problemas e seus erros. Porque quando você aceita o erro é mais fácil de você procurar uma solução. Então a maioria procura isso mesmo. Muitos procuram porque sabem que aqui é um ambiente legal, alguns procuram porque querem seguir a carreira artística e muitos procuram porque querem fazer uma peça, independente de serem artistas ou não, querem ter essa vivência. Tem muita gente que vem para cá para se alimentar profissionalmente mesmo, para usar os exercícios como professor de teatro, como professor de educação física, ou como líder de um grupo de uma empresa.

 

Como as peças são divulgadas?
Muito pelos próprios alunos, no nosso site, no nosso mailing, e eventualmente, até dependendo do apelo do espetáculo, na mídia. Por exemplo, a gente comemorou 15 anos de Lendas e tribos agora, e acabou saindo em muitos lugares. A gente acabou de fazer o Raul fora da lei, por ser o Raul Seixas acabou saindo em muitos lugares. Mas a nossa força é o boca-a-boca. E isso é só mais uma prova de quanto o aluno quer que as pessoas venham ver, além de ser preço acessível também.

 

Qual é a contribuição no meio artístico?
A gente da um treinamento de palco que para o artista é muito importante, ele se torna uma pessoa muito presente no palco, aberta e prestativa. Ouvimos bastante de diretores de comerciais, de teatro, de dança que quando alguém fala que já fez a Oficina dos Menestréis, eles dizem: “Que bom!” Porque vai ser uma pessoa que vai me trazer mais rapidez no que eu estou pedindo, não vai ser uma pessoa chata de trabalhar. Então a contribuição no meio artístico que a gente dá principalmente é isso, de se tornar uma pessoa bem disposta. Treinamento de palco, acho que é um bom nome.

 

Como a criatividade do aluno é explorada na hora de montar o espetáculo?
Trabalhamos muito em cima do jeitão do aluno. Escolhemos determinados personagens daquilo que o aluno apresenta. Não dirigimos o aluno, o aluno se dirige e mostra para nós. Aí depois a gente acaba dirigindo do nosso jeito. Mas então já começa daí, porque o aluno que faz o seu personagem. Tanto é que se você assistir à mesma peça de várias turmas, um aluno fez de um jeito e o outro aluno fez completamente diferente. Tem muitas peças que abrem para os alunos trazerem coisas novas, e aí entra o lado da criatividade do aluno. O aluno criar uma cena, no qual a gente requisita alguma coisa. Tem muito espetáculos que tem isso, outros não têm tanta abertura, mas em muitos existe essa abertura para o aluno.

 

O que era uma forma inovadora antigamente pode ter se tornado uma fórmula estática agora?
Mais ou menos. Como temos montado muitas peças novas, a gente saiu daquele padrão do começo que era apenas só o menestrel de cara limpa, vamos dizer assim. Que no começo era isso mesmo, o Noturno, a Dança dos signos, o Lendas e tribos, Good morning São Paulo. Quando a gente começou a fazer A sétima arte, A mansão de miss Jane, O vale encantado, e outros que não são tão conhecidos do público em geral, acabamos pegando o próprio método e trazendo elementos novos, como figurinos, uma história. Então só isso já faz com que a fórmula não se torne tão estática. E em relação ao jeito de dirigir, eu acho difícil virar uma coisa de fórmula. Primeiro que eu e o Deto nos cobramos muito de não virar empadinha, que é feito sempre igualzinho. Então a gente se cobra sempre de buscar aquela emoção, e estar sempre renovando os nossos conceitos, ate às vezes sendo incoerentes.

 

Qual a frequência com que se cria uma peça nova? De quem parte a criação?
Eu geralmente faço um ano sim, um ano não, porque é muito cansativo fazer uma peça nova. Quando você faz, você quer se alimentar dela. A última peça nova foi O carioca, que fizemos o ano passado. Esse ano a gente tá começando a pensar em escrever uma peça nova. Mas acaba sendo bem frequente. O Deto escreve, mas não tantas. E eu tenho várias peças em parceria. Algumas eu escrevi sozinho, como Lendas, o Fricks, o Good morning, tem A televisão matou a janela, que é uma peça incrível que não tem fala, é só corpo. O Cristovão Colombo, que é adaptado do filme 1492. E às vezes a gente monta peças de outras pessoas, por exemplo, o Raul fora da lei é do Roberto Bomtempo, o Banquete da vida, que é uma peça que fala da vida de Jesus Cristo como se fosse feita em uma favela, é do Mongol, que é um ex-parceiro do Oswaldo, que escreveu Agonia, que ganhou o festival da TV Globo em 1981.

 

A Oficina dos Menestréis pode ser considerada um passatempo, uma brincadeira?
Eu acho que é um teatro de brincadeira, acho que é isso mesmo. Não é um curso de teatro. A gente aqui trabalha uma vivência. Depende da maneira que você está colocando “brincadeira”, mas que é de brincadeira é mesmo! Ninguém aqui tem pretensão de formar um ator. Nos não temos condição disso. Nos resgatamos nas pessoas uma coisa que já existe dentro delas, e que é pouco usada. Onde ela vai usar isso? Poxa, onde ela quiser. Então por que vocês montam uma peca? Porque nós somos artistas. Eu e o Deto só fizemos isso das nossas vidas, apesar de eu ter feito faculdade de jornalismo, que aliás me ajudou bastante porque estudei muito. Mas a gente só fez isso de nossas vidas. Então é como se eu fosse professor de educação física e através de exercícios ensinasse a mesma coisa para os meus alunos. Mas nós nunca quisemos requisitar registro de atores, para dar um diploma. Não tem por quê. Então é um teatro de brincadeira? É, mas é uma brincadeira muito séria, muito responsável. E que bom que isso vire uma grande brincadeira, porque tem muita gente que faz muita coisa séria e não faz absolutamente nada. Acha-se sério, mas não tem nem metade da qualidade que temos aqui. Porque aqui fazemos a peça com profissionalismo, a gente estreia no dia que a gente combinou, no horário que combinou, não falta a uma aula e não atrasa. Coisa que muitos lugares aí fora, que as pessoas acham que são sérias, fazem isso o tempo todo. Eu cansei de ir a grupos profissionais em que nunca se começava nada na hora. Então existe uma certa diferença, o que é brincadeira e o que é serio. Graças a Deus, a nossa seriedade aqui é feita com brincadeira.

 

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